Milanović, da NYU: a classe média e o populismo

Thiago Lavado

A desigualdade de renda está mudando o panorama político no mundo – e o aumento desse abismo pode ajudar a explicar fenômenos políticos como a ascensão do republicano Donald Trump e a saída do Reino Unido da União Europeia. O economista Branko Milanović, PhD e referência global nos estudos de desigualdade, por 20 anos foi economista-chefe do Banco Mundial e é professor na Universidade de Nova York. Em seu último livro, Desigualdade global: uma nova abordagem para a era da globalização, lançado este ano pela editora da Universidade Harvard, Milanović explica como a globalização e as novas tecnologias têm contribuído para agravar a concentração de renda. Em entrevista a EXAME Hoje, o economista falou sobre as razões da xenofobia, o apelo de políticas populistas como o Brexit, o achatamento da classe média e o exemplo que o Brasil tem dado ao mundo.

Vivemos em um mundo marcado por problemas com imigração, crise nos blocos econômicos e na representatividade política. Por que é tão importante discutir a desigualdade no mundo atualmente?

Discutir a desigualdade dentro dos países se tornou, obviamente, uma grande questão. As classes médias nos países ricos têm visto uma diminuição no crescimento da renda real e, mais recentemente, a renda de pessoas nos países em desenvolvimento, inclusive no Brasil, estagnou. A desigualdade se tornou uma pauta importante porque, na contramão desse processo, a renda de outras parcelas da distribuição vem indo muito bem, como o 1% do topo. Essa é a razão por que discutimos desigualdade dentro dos países. Mas há ainda a questão da desigualdade global. Como não há um governo global, não se pode reclamar dessa desigualdade para ninguém ou votar em algum tipo específico de política pública. A desigualdade global é uma análise interessante na medida que nos mostra as mudanças na economia e na geopolítica do mundo. Com o crescimento da Ásia, especificamente China, Índia e Vietnã, esse assunto se tornou ainda mais iminente. Esses países se tornaram grandes players no cenário global e eles também criaram algo que poderíamos chamar de “classe média global”, concentrada na Ásia.

Nos últimos anos a desigualdade vem caindo mais nos países ricos ou nos pobres?

É muito difícil estabelecer uma análise de desigualdade de renda em um curto período de tempo, porque os dados precisam ser coletados, processados e revisados. Mas o que nós sabemos é que a última crise global [que estourou em 2008 junto com a bolha imobiliária americana] começou atingindo os mais ricos e a parcela da população com a maior renda, principalmente na Europa e nos Estados Unidos, por que a crise estava vinculada à desvalorização de ativos, e o declínio da taxa de juros prejudicou o topo da pirâmide. Depois de 2010, aconteceu uma reviravolta para essa faixa de renda, baseada no bom funcionamento dos mercados de ações. A partir de então, a crise começou a afetar o restante da pirâmide, ajudando a aumentar o desemprego e a estagnar a renda de classes mais baixas. Posto de maneira simples: a última crise ajudou primeiro a reduzir a desigualdade e depois a aumentá-la.

No seu livro, o senhor sugere sugere que períodos de maior desigualdade são cíclicos, as Ondas de Kuznets, e que elas se agravam ou atenuam sempre com a ocorrência de fatores externos. Na era pré-industrial, a desigualdade estava relacionada a guerras e epidemias. Agora, esses fatores externos estariam mais relacionados à tecnologia e à abertura comercial. Como tais fatores contribuem para aumentar a desigualdade? 

As Ondas de Kuznets sempre estiveram presentes, mas, no passado as forças que agiam sobre elas eram, em sua maioria, não-econômicas. Após a revolução industrial, as forças influenciando as Ondas de Kuznets passaram a ser mais vinculadas à política e à economia. A tecnologia, por exemplo, tem uma influência na desigualdade na medida em que opera a favor de pessoas com um nível educacional maior. É preciso ter alto nível de educação para utilizar um computador e outros tipos de maquinário sofisticado. O progresso tecnológico é bastante enviesado para o trabalho qualificado. A globalização, por sua vez, substituiu muitos trabalhadores pouco qualificados por bens de consumo baratos produzidos em outras regiões, como a China. Isso afetou as classes médias dos países ricos.

O senhor mostrou [no chamado Gráfico do Elefante] como as classes médias dos países desenvolvidos não tiveram aumento na renda ao longo dos últimos 25 anos. Enquanto isso, o 1% mais rico do mundo teve ganhos de 60%, e a parcela mais pobre do mundo também melhorou de vida. O fato de essa classe média da Europa e dos Estados Unidos ter ficado estagnada explica o crescimento de políticos como Donald Trump e medidas protecionistas como o Brexit?

Sim. Embora não possamos conclusivamente provar isso, os estudos mostram que tanto o Brexit quanto Trump têm amplo suporte da classe trabalhadora. Se juntarmos isso ao fato de que esse grupo foi a parcela da população que não experienciou aumento da renda real nos últimos 25 anos, é possível concluir que há razões econômicas para o aumento do populismo. Esse fenômeno não é guiado apenas pelos discursos que incitam racismo, xenofobia, ódio à imigração. Essas pessoas viram seus trabalhos se tornarem muito mais precários e instáveis, a expectativa de renda acumulada no decorrer da vida é menor do que a de seus pais. Não é uma surpresa que não estejam felizes com a globalização.

Como essas mudanças na renda afetam a relação dos cidadãos de diferentes classes?

Se olharmos para os países ricos e para as pessoas que estão no topo da renda nesses países, o famoso 1% e até os 10% mais ricos têm se dado muito bem com a globalização. Há muitas vantagens para elas, como acesso a bens e serviços de maior qualidade a menores preços. Então, temos uma situação bem interessante, com pessoas ricas em países ricos sendo favoráveis à imigração, porque elas frequentemente precisam de pessoas trabalhando no setor de serviços. Aqueles que vierem de países pobres não competirão com os mais ricos. Com a classe média é diferente . Ela não tem colhido frutos da globalização. É até racional que essas pessoas sejam contrárias à imigração, porque elas veem imigrantes como competidores. Há uma ausência de líderes que defendam a causa dessa parcela da população – e suas reivindicações são válidas.

O vencedor do prêmio Nobel Thomas Piketty, autor de O capital no século XXI, afirma que o aumento da desigualdade acontece porque a taxa de retorno do capital é maior do que a do crescimento econômico. Com isso, as pessoas que se beneficiam de rendimentos – e que normalmente já tem renda elevada –se beneficiam num ritmo mais acelerado que o resto da população. Como você vê a posição dele?

 

Eu gosto muito do livro dele. Inclusive escrevi uma das primeiras resenhas e penso que é uma das maiores contribuições à pesquisa sobre desigualdade, ao lado de todo trabalho que ele já fez previamente. Caso esse mecanismo em que Piketty põe grande ênfase realmente ocorra, a distribuição de retorno do capital se manteria extremamente concentrada e isso produziria desigualdade de renda. Mas há uma questão: nós podemos afirmar que, no futuro, essa taxa de retorno vai continuar a ser mais alta do que a taxa de crescimento econômico? É uma grande questão e não está claramente respondida por Piketty. A questão se torna ainda maior se perguntarmos qual é a taxa de retorno que devemos olhar. Por exemplo, o retorno da taxa de juros é bem próximo de zero, a média de retorno no mercado de ações é de 5% ao ano. E para qual taxa de crescimento econômico deve-se olhar? Na Europa ela é próxima de zero, nos Estados Unidos é um pouco mais alta. A correlação entre essas variáveis não é exatamente clara. Outro fator importante para a desigualdade é entender qual porcentagem da renda advém do capital. Hoje, o retorno dos investimentos, na média, só contribui para 25-30% da renda. O restante ainda vem do trabalho.

O Brasil tem sucesso em políticas de redução da desigualdade. Neste momento de crise econômica, altas taxas de desemprego e a estagnação da distribuição de renda, o que podemos esperar para o futuro?

O Brasil é um dos países mais interessantes para estudar a desigualdade porque é um dos poucos países em que há uma documentação ampla para o declínio da desigualdade nos últimos 30 anos. Se você olhar no longo prazo, eu tenho plena convicção de que o Brasil é um claro exemplo do funcionamento das Ondas de Kuznets. Nos últimos anos, houve mudanças massivas na educação, grandes programas de distribuição, como o Bolsa Família, que atinge mais de 50 milhões de pessoas, e um aumento real no salário mínimo. Esses fatores demográficos e econômicos são bastante influentes. Mas isso não significa que a cada ano haverá um decréscimo na desigualdade, porque a crise econômica e o desemprego, que você mencionou, podem fazer a desigualdade aumentar no curto prazo. Mas, no longo prazo, o Brasil estará amadurecendo e se tornando uma economia avançada. A desigualdade deve continuar a cair – e claro que aqui estamos falando de uma análise de pelo menos duas décadas, não de um ou dois anos.