Marx ou Adam Smith? Experimento mostra viés ideológico dos economistas

"Mudar ou remover as atribuições da fonte afeta significativamente o nível de concordância dos economistas com declarações", mostra estudo

São Paulo — “O governo civil, na medida em que é instituído para a segurança da propriedade, é na realidade instituído para a defesa dos ricos contra os pobres, ou daqueles que têm alguma propriedade contra aqueles que não têm nenhuma”.

Quem falou a frase acima: o papa do liberalismo econômico, Adam Smith, ou o filósofo teórico do socialismo Karl Marx? E você concorda com ela?

Quinze perguntas como essa foram feitas a economistas de 19 países a fim de avaliar o efeito do viés ideológico em suas percepções.

Os resultados estão no estudo “Who Said or What Said? Estimating Ideological Bias in Views Among Economists” (Quem disse ou o que disse? Estimando o viés ideológico em pontos de vista entre economistas, na tradução do inglês).

“Encontramos evidências claras de que mudar ou remover as atribuições da fonte afeta significativamente o nível de concordância dos economistas com as declarações”, diz o texto do trabalho feito pelo economista sul-coreano Ha-Joon Chang, da Universidade de Cambridge, e por Mohsen Javdani, professor de economia na universidade British Columbia.

Por meio desses questionamentos online, pesquisadores pediram que os participantes avaliassem declarações de economistas proeminentes a respeito de tópicos como desigualdade, papel do governo, propriedade intelectual, globalização, livre mercado, metodologia econômica, mulheres na economia.

Todos os participantes recebiam declarações idênticas na mesma ordem. No entanto, a atribuição de autoria era trocada. Uma declaração de um economista com ideias mais convencionais era atribuída a um economista menos convencional, por exemplo, ou apenas tinha a fonte eliminada.

E quanto à frase a seguir? Friedrich Hayek, liberal representante da escola de Chicago, ou de Sigmund Freud, criador da psicanálise? 

“É somente em combinação com impulsos particulares, não racionais, que a razão pode determinar o que fazer…”. Ouvimos Freud? Pois é de Hayek.

A conclusão do estudo foi que, após fazer esse tipo de troca, a concordância de economistas em relação às afirmações caíram de forma significativa.

“Isso contradiz a imagem que os economistas têm de si mesmos, com 82% dos participantes relatando que, ao avaliar uma declaração, a pessoa deve prestar atenção apenas ao seu conteúdo”, diz o texto..

Os autores do estudo também descobriram que o viés ideológico estimado entre economistas do sexo feminino é cerca de 40% menor do que seus pares do sexo masculino.

“Talvez isso se deva ao fato de que, quando se trata da questão importante do hiato de gênero na economia, que envolve economistas do sexo feminino em nível pessoal, as mulheres deixam de lado a ideologia e concentram-se no conteúdo da declaração em oposição à sua fonte”, dizem os economistas.

Os autores também encontraram diferenças significativas no viés ideológico por país, área de pesquisa, país onde o doutorado foi concluído e graduação majoritária.

Na análise do economista Joel Pinheiro da Fonseca, mestre em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e colunista de EXAME, o estudo confirma que a ideia do cientista neutro é um mito e que o viés sempre existe em alguma medida, mas isso não significa que ele deve ser simplesmente tolerado ou abraçado.

“Temos de tentar nos libertar desse viés e sermos mais objetivos e imparciais com relação a ideologias. Mas isso jamais será atingido em 100%, assim como todos os demais ideais humanos”, diz Joel.

Em tempo, o autor da frase que abre a matéria é Adam Smith. Pensou que fosse do Marx? Você não foi o único.