Mario Draghi se despede do BCE e passa o comando para Christine Lagarde

Após oito anos de mandato marcados por várias crises, Dragui deixa para sua sucessora uma instituição dividida

O presidente do do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, se despediu nesta segunda-feira (28) do cargo após oito anos de mandato marcados por várias crises e deixa para sua sucessora, Christine Lagarde, uma entidade claramente dividida.

Draghi, que em sua gestão ganhou o apelido de “Super Mario”, foi homenageado na cerimônia pela chanceler alemã Angela Merkel e pelo presidente francês Emmanuel Macron.

Cerca de 400 convidados participaram da cerimônia de passagem de bastão entre o italiano e a francesa, ex-diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), celebrada na cafeteria do BCE, no térreo da instituição em Frankfurt, Alemanha.

“Super Mario”, que exibiu em sua gestão determinação e criatividade para preservar o euro diante das crises, garantiu nesta segunda que o BCE tinha “demonstrado que não aceitaria ameaças à estabilidade monetária causadas por temores infundados sobre o futuro do euro”.

“Meu objetivo sempre foi respeitar o mandato enunciado no Tratado, seguido com total independência e executado mediante uma instituição convertida em um banco central moderno, capaz de enfrentar todos os desafios”, insistiu neste último discurso.

Voltando-se a Lagarde, declarou-se convencido de que ela será “uma excelente presidente do BCE”. Em seguida, entrou a tradicional réplica de um sino dourado do presidente da instituição.

Embora Draghi tenha sido alvo de críticas constantes durante seu mandato pela política de “dinheiro abundante” na zona do euro, Merkel elogiou suas ações para preservar a independência do BCE, o que às vezes pode ser “uma proteção quando não se está de acordo com todo mundo”.

Sonho europeu

O chefe de Estado francês descreveu Draghi como um “homem que levou o sonho europeu muito alto” e que foi, “em seus discursos e decisões, um digno herdeiro dos pais fundadores da Europa”.

O dirigente francês também destacou igualmente suas “decisões não menos ousadas” adotadas “para estimular o crédito ou prevenir o risco de deflação na zona do euro”. “Sempre esteve consciente de que o que mais importava, para além de palavras e cifras, é a vida das pessoas”, acrescentou.

Tanto o presidente italiano, Sergio Mattarella, como o francês e a alemã lembraram a frase que marcou a era Draghi, quando se comprometeu, em 2012, a fazer “tudo que for necessário” (“Whatever it takes”) para proteger a moeda única.

A tarefa mais urgente de Large, que assumirá o posto em 1 de novembro, é suavizar as divisões óbvias do conselho de governadores, o órgão que decide o nível das taxas de juros na área do euro.

Restaurar a unidade

Composto por 25 membros – seis do conselho de administração e 19 dos bancos centrais da região -, o Conselho é o cenário no qual enfrentam apoiadores e oponentes do pacote de medidas para revitalizar a economia.

“Estou procurando uma base comum para aproximar os diferentes pontos de vista”, disse a francesa em entrevista à revista alemã Der Spiegel no sábado.

Lagarde, primeira mulher a presidir o BCE, já anunciou sua intenção de agir sobre a cultura da entidade, para enfatizar mais a igualdade de gênero e as ações sobre a questão climática.

A futura chefe do BCE, uma advogada de formação, também deve defender vigorosamente políticas orçamentárias nacionais mais ambiciosas e melhor coordenadas, como Draghi tentou, mas sem muito sucesso.

A tarefa não será fácil, diante de uma Alemanha apoiada no saldo de suas contas públicas e hostil a qualquer ideia de agrupamento de dívida.