Maiores credores dos EUA se afastam com receio de Trump

No Japão, maior detentor de títulos do Tesouro americano, a redução nesses ativos foi a maior em quase quatro anos

Nova York – Na era Trump, os maiores credores dos EUA ficaram reticentes em financiar o governo americano.

No Japão, maior detentor de títulos do Tesouro americano, a redução nesses ativos foi a maior em quase quatro anos, segundo os últimos dados do Ministério das Finanças.

O impressionante é que o movimento de venda desses títulos persiste em um momento tão atraente para os japoneses aplicarem no exterior.

E eles não são os únicos receosos. Em todo o mundo, investidores estão se livrando de dívida americana em um ritmo nunca visto.

Em Tóquio, Pequim e Londres, o consenso é claro: poucos investidores estrangeiros estão inclinados a nadar agora no mercado de títulos do Tesouro americano, que movimenta US$ 13,9 trilhões.

Seja por causa da perspectiva de déficit e inflação maior sob o presidente Donald Trump ou de juros mais elevados pelo banco central (Federal Reserve), o mercado de dívida mais seguro do mundo parece menos seguro – especialmente após a disparada dos rendimentos desde novembro.

Além disso, as ameaças e demonstrações de força de Trump são mais um motivo para o investidor ficar em casa.

“Pode ser mais difícil do que o normal para os japoneses investirem em títulos do Tesouro americano e dólares neste ano por causa da incerteza política”, disse Kenta Inoue, estrategista-chefe de renda fixa no exterior do Mitsubishi UFJ Morgan Stanley Securities, em Tóquio.

“Os rendimentos dos títulos do Tesouro podem voltar a subir rapidamente no futuro próximo, o que continuará desincentivando compras agressivas por parte deles.”

Ninguém afirma que os estrangeiros desistirão de vez desses papéis. Afinal, eles ainda detêm US$ 5,94 trilhões, ou praticamente 43 por cento do mercado de dívida pública americana (mas é menos do que a parcela de 56 por cento registrada em 2008).

Um recuo significativo pode prejudicar grandes investidores — como Japão e China — tanto quanto pode prejudicar os EUA.

A demanda interna ultimamente tem conseguido compensar a aceleração das vendas de títulos pelos estrangeiros.

O rendimento dos títulos do Tesouro americano com prazo de 10 anos chegou a 2,64 por cento em meados de dezembro, mas está praticamente inalterado ao longo deste ano. A taxa estava em 2,41 por cento no fechamento do mercado na sexta-feira.

Consequências duradouras

De todo modo, uma queda consistente na demanda estrangeira pode ter consequências duradouras sobre a capacidade de o governo americano obter financiamento barato, especialmente à luz dos planos ambiciosos de Trump de ampliar os gastos com infraestrutura, baixar impostos e colocar a “América em primeiro lugar”.

O presidente acusou Japão, China (os dois maiores credores do governo americano no exterior) e Alemanha de depreciar suas moedas para obter vantagem injusta em trocas comerciais.

Em dezembro, investidores japoneses reduziram suas aplicações em dívida americana em 2,39 trilhões de ienes (US$ 21,3 bilhões), após um corte menor em novembro.

É apenas uma fração do total em títulos nas mãos de japoneses (US$ 1,1 trilhão), mas foi a primeira queda em dois meses consecutivos desde o início de 2014.

A China, dona de pouco mais de US$ 1 trilhão em títulos do Tesouro americano, vem vendendo esses papéis desde maio e agora o montante está no menor nível em sete anos.

Por ora, investidores avessos a risco, como Shinji Kunibe, responsável por gestão de renda fixa da Daiwa SB Investments, estão se livrando desses papéis, apesar de algumas vantagens claras.

Assim como diversos gestores institucionais de recursos que aplicam no exterior, Kunibe prefere fazer hedge contra as oscilações do dólar.

No momento, faz sentido. Considerando os custos de hedge, o rendimento dos títulos do Tesouro americano com prazo de 10 anos é de 0,9 por cento, praticamente 10 vezes o retorno oferecido por títulos do governo japonês.

Porém, ele espera alta adicional dos rendimentos com a evolução das medidas de expansão fiscal e protecionismo comercial de Trump. “Os rendimentos entrarão em tendência de alta”, ele disse.