“Macrisis” na Argentina: do sonho liberal à possível volta do kirchnerismo

Macri chegou à presidência prometendo rezar pela cartilha liberal. Passados 4 anos, anunciou um congelamento de preços. O que houve?

São Paulo – Maurício Macri tomou posse como presidente da Argentina em dezembro de 2015 prometendo conter a inflação galopante aplicando uma política liberal que soava como música aos ouvidos dos investidores.

Há cerca de uma semana, o seu governo começou a aplicar um clássico do intervencionismo: o congelamento de preços. 60 produtos básicos deverão ficar sem alta por seis meses e tarifas de eletricidade, gás e transporte público também não serão reajustadas até o fim do ano.

O que aconteceu? A resposta de analistas ouvidos por EXAME é uma só: eleições presidenciais em outubro de 2019. A guinada de Macri é para tentar se reeleger em meio a um momento crítico para a economia.

A inflação na Argentina acumula 54% no últimos 12 meses, ainda acima do patamar de 40% recebido por Macri no início do mandato. 32% dos argentinos estão abaixo da linha de pobreza, um aumento de seis pontos percentuais em apenas dois anos. O PIB do país caiu 2,8% no ano passado e deve cair novamente 1,9% em 2019, segundo as últimas estimativas.

Uma pesquisa eleitoral feita na semana passada pela consultoria Oh! Panel mostra o presidente atrás de sua antecessora, Cristina Kirchner, por oito pontos.

“Ele sabe que tem uma eleição se aproximando e que nem a dinâmica politica, nem a econômica estão favorecendo”, diz Alberto Ramos, diretor de pesquisa para a América Latina do Goldman Sachs. “Mas interferir nos preços não resolve o problema da inflação, além de ter um cheiro de heterodoxia.”

O cheiro de heterodoxia misturado com a pesquisa eleitoral ruim para Macri fez com que o índice de referência da Bolsa de Buenos Aires fechasse em queda de 4% na segunda-feira, 22, pregão seguinte ao anúncio dos anúncios.

“O efeito dessa medida é visto como paliativo. Pode até ter um efeito breve, mas sabemos que, no médio e no longo prazos, não adiantam em nada”, afirma João Pedro Bumachar, economista do Itaú Unibanco.

“As medidas mais eficientes vêm do monetário e do fiscal”, completa Ramos, se referindo à política de juros e o combate ao déficit nas contas públicas.

O câmbio é um desafio histórico da Argentina e que continua sem solução. O peso argentino fechou 2018 com desvalorização de 51% em relação ao dólar. Só neste ano, o dólar já ficou 13,56% mais caro na Argentina.

Diante do cenário, o banco central decidiu que faixa de flutuação cambial, antes ajustada a cada mês, vai ficar fixa até o fim de 2019.

“Poucos países deixam sua taxa de câmbio flutuar 100% livremente, mas no caso da Argentina, a fixação de limites, ainda que brandos, para a variação da moeda fica um pouco mais polêmico, por conta do estoque baixo de reservas”, explica Buchamar.

“O país tem poucas balas e está usando as poucas que tem”, diz ele, destacando o aperto da política monetária como um ponto positivo. O banco central argentino já aumentou os juros para os 71% ao ano – os maiores do mundo.

Dos títulos ao FMI

Empresário e prefeito de Buenos Aires entre 2007 e 2015, Macri assumiu o cargo com plena confiança do mercado financeiro.

Além do discurso liberal, fez um acordo com os “fundos abutres”, credores internacionais que não quiseram negociar com Cristina Kirchner em uma pendenga que se arrastou por anos. Com isso, o país voltou para o mercado de dívida internacional após 15 anos.

“O erro de Macri nesse momento foi achar que, pelo fato de ter assumido o país com uma dívida baixa, poderia se endividar indefinidamente”, afirma Bumachar.

Em um primeiro momento, a entrada de capital estrangeiro deu espaço para Macri cortar subsídios da era Kirchner para setores como os de eletricidade, gás, transportes, que chegavam a cerca de 5% do PIB.

Ele também deixou com que preços regulados voltassem a subir, o que gera mais inflação em um primeiro momento, e adotou uma estratégia de ajuste gradual nas contas públicas.

“Macri aproveitou que o mercado estava aberto a déficits mais altos e foi revertendo a carga tributária de forma gradual para as empresas. Manteve um déficit elevado, com gastos e arrecadação caindo. Mas quando veio o aperto nas condições financeiras no ano passado, junto com a politica monetária nos EUA, o mundo mostrou que não estava disposto a financiar déficits elevados”, diz Buchamar.

O presidente argentino acabou recorrendo ao Fundo Monetário Nacional (FMI) em 2018 e tomou emprestados US$ 56,3 bilhões.

Bumachar estima que o dinheiro será suficiente para cobrir os juros da dívida e a amortização em 2019, mas a conta já não fecharia no ano que vem, forçando o país a pedir um novo empréstimos.

Os argentinos apelidaram a nova fase de “Macrisis” (Macri + crise) e os próximos meses devem trazer novas turbulências na medida que a eleição se aproxima.

“O nervosismo do mercado não é com o rumo da politica macroeconômica da atual gestão. Mas pelo medo de que haja uma volta de politica heterodoxa”, explica Ramos, do Godman Sachs.