Lei de responsabilidade fiscal seria saída para crise

Delfim Netto e Belluzzo sugerem a adoção de um mecanismo como a lei de responsabilidade fiscal brasileira para a dívida dos países europeus

São Paulo – O Brasil é o exemplo do que a Europa tem que fazer, segundo Antonio Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda. “Demos nosso grande passo com a lei de responsabilidade fiscal”, afirmou.

“Vem o governo, organiza as dívidas, não perdoa ninguém e emite papei da União pagando a Selic, ou seja, tornando possível a organização dos estados, é isso que tem que ser feito e o Draghi (presidente do BCE) está tentando fazer e os alemães tem dúvida”, disse Delfim Netto durante o Seminário “Perspectivas das Relações Econômicas entre o Brasil e os Países Árabes”.

“Não há economia de mercado sem um estado forte capaz de regular a atividade econômica, principalmente a financeira. A experiência que vivemos hoje confirma esse fato, que sabíamos há muito anos”, disse. Para Delfim, as causas da crise de 2007/2008 são as mesmas da crise de 1929 mas, na década de 30, a reação do Estado foi mais eficaz. “Lá a reação do Estado foi mais eficaz, fez uma lei de controle, regulação do sistema financeiro que permitiu a ausência de crises por 30 anos”, disse.  Delfim afirmou que desde então os economistas começaram a inventar fórmulas para precificar o risco corretamente, permitindo assim que corressem mais riscos e se alavancassem – aumentando a probabilidade de risco. “Em algum momento o risco acontece e o sistema todo desaba”, disse.

União (política) Europeia

A construção europeia é sobretudo política, nasce no pós-guerra para tentar solucionar anos de conflito, segundo o economista Luiz Gonzaga Belluzzo. E foi bem sucedida nisso, segundo Delfim Netto, basta observar a sequência de guerras na história do continente e a inexistência de conflitos armados entre países europeus na história recente. “A eurolândia é a coisa mais importante do século XIX”, disse Delfim.

“Na construção do Euro houve um desequilíbrio na construção do espaço monetário e a inexistência do espaço fiscal”, disse Belluzzo. Em outras palavras, o euro tem uma perna a menos, o que dá fragilidade a esse sistema monetário, segundo o economista.


Belluzzo compara a relação dos países da zona do euro com a Alemanha com a relação entre EUA e China, em que alguém consome o que o outro produz. “Teria que ocorrer com a Alemanha o mesmo que tem que ocorrer com a China em relação aos EUA para reestabelecer o equilíbrio. A Alemanha precisa abandonar a ideia de que os outros tem que consumir por ela. A Alemanha precisa incitar o consumo interno para ajudar na recuperação dos demais”, disse. Antes, é preciso reestruturar as dívidas, e isso cabe ao Banco Central Europeu, segundo Belluzzo. “É a lei de responsabilidade brasileira”, afirmou.

2013

Para Luiz Carlos Mendonça de Barros, diretor estrategista da Quest Investimentos, estamos na fase de cura, de solução dos desequilíbrios que geraram a crise.  “Dessa vez o desequilíbrio foi muito maior que o de 1930. A cura está muito mais difícil e muito mais demorada”, disse. Já se foram cerca de cinco anos de crise nos EUA e Mendonça de Barros projeta mais dois anos para chegar ao fim da situação atual. “A economia dos EUA está em processo de cura e agora há um processo de ajuste fiscal que tem que ser feito”, afirmou.

Mendonça de Barros acredita que a China vai recuperar seu crescimento no próximo ano. “A China é um caso da mesma natureza da Europa, há um arranjo política de outra natureza, estabelecido há muito tempo. A dinâmica política da China é diferente. Lá, se der errado, vai todo mundo pro paredão. E é por isso que não dá errado”, disse.

Na Europa, o processo de cura é diferente, segundo Mendonça de Barros. O economista concorda que o Brasil poderia levar para a Europa o que foi feito aqui com as dívidas dos estados.  “Em uma organização política complexa como a Europa a cura vai levar muito tempo. A Europa deve levar mais um ou dois anos para entender o que está acontecendo”, disse. Para o economista, o colapso do euro poderia atrapalhar o Brasil, mas isso não deve acontecer, por causa do arranjo político. “Uma boa notícia é que o mundo não vai acabar”, brincou Delfim Netto “nem o capitalismo vai acabar”, disse.

Delfim Netto, Luiz Carlos Mendonça de Barros e Luiz Gonzaga Belluzzo participaram hoje do Seminário “Perspectivas das Relações Econômicas entre o Brasil e os Países Árabes”, realizado pela Câmara de Comércio Árabe Brasileira e pelo jornal Valor Econômico.