L.C. Mendonça de Barros: os analistas comeram mosca

“A maioria dos analistas fica amarrada nas expectativas. Mas o grosso da população tem uma maneira muito mais simples de olhar a economia.”

O economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-presidente do BNDES e colunista de EXAME Hoje, tem destoado de seus colegas há um bom tempo: ele previa desde maio, quando as delações do frigorífico JBS vieram à tona, que a economia brasileira voltaria a crescer. De acordo com ele, a atividade entrou numa dinâmica própria de recuperação cíclica, que independe da discussão sobre déficit público, da aprovação da reforma da Previdência ou dos embates políticos em Brasília. Mais importante do que tudo isso é que o medo do desemprego começa a se dissipar e as pessoas voltam a consumir, o que está puxando a retomada. “A maioria dos analistas fica amarrada nas expectativas. Essa leitura é perigosa porque o grosso da população tem uma maneira muito mais simples de olhar a economia.” Mendonça de Barros diz que é “vexatório” o fato de vários bancos e consultorias estarem dobrando a previsão da taxa de crescimento do país para 2018. “Houve uma comida de mosca geral.”

Quais são as bases para a recuperação da economia brasileira?

Há um conceito do economista José Pastore, especializado em mercado de trabalho, de que o mais importante para reativar o consumo num momento de recessão não é a redução do desemprego, mas sim o comportamento de quem está empregado. Quando o desemprego aumenta, há um pânico de quem está empregado, e essa pessoa pisa no freio nos gastos, atrasa as compras e começa a pagar dívidas. Mas pode-se dizer que o primeiro Caged positivo ninguém esquece – e já estamos indo para o quarto mês em que esse indicador está no terreno positivo. Neste momento, o medo do desemprego começa a reduzir e o contingente de empregados volta a consumir. A maioria dos economistas estava fixada na taxa de desemprego e associando a sua queda à volta do consumo. Todo mundo realmente falou que sou otimista. Mas não é verdade. Eu estava vendo o movimento das pessoas empregadas voltando a comprar.

Por que o senhor diz que a recuperação é cíclica?

Eu tenho uma forma analítica muito mais tradicional de olhar o ciclo da economia. A maioria dos analistas hoje fica amarrada na tal das expectativas racionais do futuro, acreditando que o déficit público vai gerar insegurança e travar a economia. Essa leitura é perigosa porque o grosso da população, que são os consumidores, tem uma maneira muito mais simples de olhar a economia. Eles não vão pensar em parar de consumir porque o déficit público cresceu. Essa é a perspectiva da elite. O déficit tem impacto na economia, é importante ressaltar isso, mas não há uma relação direta no comportamento dos consumidores. Então, a recuperação cíclica não depende de aprovar a reforma da Previdência, que reduziria o déficit. Ou da retomada dos investimentos baseada na melhora das expectativas, mesmo porque tem muita capacidade ociosa na economia.

Este momento no Brasil é equivalente a outro na história?

Analisando outras economias, identifiquei a similitude do que está acontecendo no Brasil com o que ocorreu nos Estados Unidos e na Europa depois da crise de 2008. Houve uma bolha de consumo no Brasil, incentivada pelo gasto público, no segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva e no primeiro de Dilma Rousseff. A melhor forma de ver isso é com um indicador que se chama absorção interna. Ele soma o consumo das famílias, o consumo do governo e o investimento privado (que num primeiro momento gera consumo com terra, máquinas e materiais). Essa é uma medida da pressão da demanda na economia. O indicador crescia 10% ao ano no segundo mandato de Lula e no primeiro da Dilma e, como nosso PIB crescia só metade disso, o outro pedaço estava vindo do mundo, num déficit comercial que disparou. Uma bomba atômica armada. Era questão de tempo até explodir, exatamente o que ocorreu nos Estados Unidos em 2008.

Qual será o ritmo da retomada?

É bom olhar novamente o caso dos Estados Unidos: eles tinham 17 milhões de automóveis vendidos em 2007, caíram a 7 milhões em 2012. Hoje, já voltaram ao patamar de antes da crise. A economia americana teve uma recuperação em V, que tem a primeira perna bastante inclinada, mas a segunda não. A primeira perna, nos Estados Unidos, levou dois anos para se formar e a segunda, sete anos. No Brasil, o indicador de absorção interna vai levar mais sete anos para voltar ao patamar anterior à crise. A volta da atividade será lenta e gradual. A recuperação cíclica no máximo repõe o produto interno bruto que caiu na fase do estouro da bolha. A partir de certo ponto, o crescimento só virá com a correção das questões estruturais, com as reformas.

Como o cenário político pode prejudicar esse processo?

Essa recuperação depende mais da economia do que do governo de Michel Temer. Houve um descuido grande ou uma pretensão dos analistas de mercado para entender o que está acontecendo. O Brasil chegou a ter um hiato do produto (medida da distância da demanda para a capacidade de produção máxima da economia) de quase 10% do produto interno bruto. Com isso, a inflação começa a cair. Além disso, aconteceu uma supersafra agrícola e, como os alimentos representam 40% do índice de preços ao consumidor amplo, eles puxaram o indicador para baixo. Começou uma deflação que independe de Michel Temer ou de delação da JBS. É um processo que tem uma dinâmica própria. E que continua desde que se tenha uma equipe econômica de qualidade.

Qual o peso da política monetária?

O Banco Central cometeu um erro porque não percebeu a deflação e reduziu os juros de forma lenta. Esse atraso no juro acabou por atrasar também a recuperação. O que acontece hoje: o IPCA de 2017 pode vir abaixo do nível mínimo da meta. Isso é barbeiragem do Banco Central. Aqui, existe a história de o Banco Central ser conservador, mas ele tem mesmo é de ser eficiente.

Qual a sua projeção para o crescimento da economia?

Mantenho uma previsão de crescimento de 1,5% em 2017 e entre 3 e 4% em 2018. Como agora esse ciclo que tem dinâmica própria apareceu, todo mundo está passando uma vergonha danada e ajustando as projeções. O Bank of America passou de 1,5% para 3% de crescimento ano que vem. Vários bancos e consultorias estão multiplicando por dois a previsão da taxa de crescimento. O dia de hoje é vexatório. Foi uma ‘comida de mosca’ geral.

Diante desse cenário, o que o senhor espera das eleições de 2018?

Acredito que estamos pendurados na eleição do ano que vem, dependendo do que vai ocorrer nela. Se a economia e a inflação estiverem melhores até lá, criaremos condições de eleger um candidato mais responsável, que levará as reformas adiante.