Irã: os efeitos do jogo geopolítico na economia

Insatisfação popular e instável acordo nuclear colocam em dúvida recuperação econômica do país

O Irã iniciou 2018 com jogadas decisivas dentro e fora de seu território. De um lado, manifestações contrárias ao governo, que chegaram a render a prisão de 29 mulheres por não usar o véu em público. Do outro, os Estados Unidos exigem mudanças no acordo nuclear, que, desde 2015, minimiza as sanções impostas ao país em troca de controle no programa de armas nucleares.

Apesar das turbulências internas e externas, uma notícia boa veio no final de janeiro: a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) melhorou a avaliação de risco de créditos para financiamento de exportações de 6 para 5. Sinal positivo para os investidores.

Por muito tempo, as sanções econômicas diminuíram substancialmente a capacidade de desenvolver sua economia ao proibirem investimentos, exportações e importações no país, e a ameaça de uma retomada desses bloqueis é iminente com Donald Trump à frente dos Estados Unidos.

Há mais de dois anos, está em vigor o Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA, em inglês) liderado pelo ex-presidente Barack Obama, firmado em aliança com China, Rússia, França, Reino Unido e Alemanha. Um dos principais pontos da negociação foi permitir o comércio de petróleo iraniano, que restabeleceu o país no mercado mundial.

Antes do acordo, o país se via proibido de exportar para seus maiores consumidores, como a China, Japão e Índia, reduzindo, segundo a Agência Internacional de Energia, sua exportação em quase 45%. Com o fim das sanções, o país apresentou um crescimento no PIB de 4,6% em 2016 e, em 2017, de 5,2%. Para 2018, a previsão é de alta de 4,8%.

Mas o crescimento econômico não impediu a população de ir às ruas. Para Nasser Habibi, professor de Economia do Oriente Médio da universidade de Brandeis, nos Estados Unidos, a população iraniana teve dificuldade em sentir os resultados do acordo nuclear porque o governo iraniano realizou uma política de austeridade na mesma época.

“Com o aumento dos impostos, a indústria não conseguiu se desenvolver, e então os preços dos produtos continuaram elevados”, exemplifica. Além disso, o orçamento para este ano prevê um aumento de 11% das receitas fiscais. Ou seja, mais impostos para a população iraniana.

A gota d’água para desencadear uma onda de manifestações foi uma lei aprovada pelo Parlamento a portas fechadas, eliminando o subsídio aos alimentos, combustíveis e serviços públicos no país, em vigor desde 2010, afetando os mais necessitados. Com isso, manifestações contra o governo ganharam mais de 80 cidades, tanto rurais como na capital Teerã. O saldo das manifestações foram 3.700 pessoas presas e 4 mortes, segundo a organização United for Iran.

Além das políticas de austeridade, ocorre no país um descontentamento da parcela mais jovem da população. Estima-se que a taxa de desemprego no país seja de 13%, aferida em 29% entre os jovens, e que a inflação do país esteja na casa dos 10%.

O governo iraniano testá na mão de um grupo de aiatolás, sendo o principal o aiatolá Khamenei. Mas a juventude tem se mostrado resistente ao sistema. Para o professor de Relações Internacionais da Unipampa, Renatho Costa, uma parte dos jovens iranianos tem convivido mais com a cultural ocidental do que com a oriental, e por isso começou a questionar a influência religiosa no governo do país, que transfere boa parte de seu orçamento para a manutenção do poder espiritual. “O país está se tornando mais democrático e participativo, mas num ritmo próprio”, afirma Costa.

A pesquisadora de reforma e modernização iraniana da Universidade de Londres, Ghoncheh Tazmini, ressalta o fato de que a população do Irã deve tomar suas decisões e se posicionar sem influências ocidentais. “A modernização não pode ser ‘importada’, ela deve crescer organicamente. Mas o Irã está sim se modernizando. Na mesma semana das manifestações, o governo aprovou uma lei de flexibilização das condenações de cerca de 4.000 detentos por posse de drogas (que seriam condenados à morte)”, afirma.

Mas a organização United for Iran salienta que é preciso que as escolhas políticas do país não afetem tanto a própria população. “Mesmo contendo a inflação, a diferença social tem crescido e muitos iranianos têm tido dificuldade de ter acesso as necessidades básicas. Além disso, a corrupção e a má gestão são indiscutivelmente os fatores críticos que sustentam as atuais dificuldades econômicas iranianas”, explica Reza Ghazinouri, Co Diretor da United for Iran.

Na mira dos investidores internacionais

O Irã é uma potência econômica histórica. Segundo a embaixada iraniana no Brasil, o país detém uma posição importante na segurança energética internacional e da economia mundial, como resultado de suas grandes reservas de petróleo e gás natural, sendo a segunda maior reserva comprovada de gás natural do mundo e a quarta maior reserva mundial de petróleo.

Por isso, é membro fundador da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) e GECF (Fórum dos Exportadores de Gás), além de ser observador na OMC (Organização Mundial do Comércio) desde 2005.

Mesmo com o acordo em vigor, muitos investidores temem as sanções econômicas dos Estados Unidos, que ainda mantêm dezenas de entraves. Segundo Nasser Habibi, é na dificuldade de atrair investimentos que mora o problema econômico do país.

“O Irã não consegue nem importar produtos e materiais para o país, e consequentemente não conseguiu expandir sua economia”, salienta o professor, mas que afirma que mesmo assim o governo tem atuado para diversificar a economia do país. “Antes, o Irã era exportador somente de petróleo bruto. Agora, conseguimos produzir derivados do petróleo. Também temos uma produção forte de aço e de produtos de tecnologia”.

E é claro que outros países se interessam por esse desenvolvimento tecnológico. Em novembro do ano passado, por exemplo, a União Europeia se comprometeu a doar 20 milhões de euros para desenvolver as atividades de energia nuclear no país. Naquele mesmo semestre, o governo russo também doou 1,2 bilhão de euros para um projeto nuclear na província de Hormozgan.

Na época, o porta-voz da Organização de Energia Atômica do Irã afirmou que a planta Bushehr 1 tinha gerado 25 bilhões de quilowatt-hora desde sua criação, em 2011. De acordo com a Organização, seriam necessários 11 milhões de barris de petróleo para produzir a mesma quantidade de energia no país.

Somente nos últimos seis meses, o governo iraniano fechou dois acordos no valor de 25 bilhões de dólares com o Banco de Desenvolvimento da China e com o Banco Exim da Rússia. Além disso, um acordo com a investidora italiana Invitalia Global Investiment garantiu 5 bilhões de euros ao país.

Vieram também 1 bilhão de euros do banco Austria’s Oberban, 500 milhões de euros do banco dinamarquês Danske Bank e 13 bilhões de euros de provenientes de dois contratos com os bancos sul-coreanos Exim Bank e K-Sure. Para Nasser, isso indica que investidores mais independentes vão investir cada vez mais no país. “O risco das sanções é maior para maiores investidores, que têm relações econômicas com os Estados Unidos”, diz Nasser Habibi.

O acordo nuclear dá resultado?

O fato é que o acordo existe, mas é difícil dizer que ele dá os resultados esperados. Para Seyed Hossein Mousavian, especialista em Segurança do Oriente Médio e Política Nuclear, membro da Associação de Pesquisadores da Universidade de Princeton e membro do Comitê de Relações Exteriores do Conselho de Segurança Nacional do Irã, o país aumentou muito sua capacidade nuclear, mesmo após o acordo.

Em entrevista ao canal Al Jazeera, Seyed Hossein Mousavian afirmou que antes do acordo, o país possuía 3.000 centros de fusão. Na época da entrevista eram 19.000. Além dos centros, o país desenvolveu e renovou reatores de água pesada (um composto químico), com a ajuda do governo chinês.

Em novembro de 2014, a Organização Átomos pela Paz divulgou um relatório em que dizia que não poderia afirmar com certeza que o Irã não possuía mais materiais nucleares e que estaria realizando somente atividades nucleares civis. Segundo a Agência, o governo iraniano não apresentou documentos suficientes que comprovassem as mudanças tomadas para se adequarem aos diálogos sobre atividades nucleares da época e ao futuro acordo nuclear.

Para a organização United for Iran, as atividades nucleares não são economicamente sadias e têm um alto custo. “Tanto economicamente quanto politicamente estes investimentos não se justificam. Se o governo Iraniano fosse competente e se fosse um governo democrático, o pais não teria seguido este caminho.”

No dia 12 de janeiro deste ano, o presidente americano Donald Trump propôs alterações para que o país continuasse no acordo. Entre as propostas, Trump exigiu que o governo iraniano autorizasse a visita imediata de inspetores nucleares em todas as áreas requisitadas, e que as sanções não tivessem mais data marcada para expirarem.

Para Reyed, a decisão dos Estados Unidos de alterar o acordo nuclear fere as negociações com o país, mas não são eficazes. “A cada sanção imposta pelos Estados Unidos, o Irã dá mais um passo em direção ao programa nuclear”.

Os conflitos diplomáticos entre Estados Unidos e Irã se intensificaram especialmente após a Revolução Iraniana, em 1979, que transformou o país numa monarquia então pró-ocidente numa república islâmica. Presente nas guerras do Iêmen e da Síria, o Irã também participa das questões políticas do Oriente Médio, e é acusado de patrocinar ativamente os grupos Hezbollah (que atua na política do Líbano), Hamas (na Palestina) e Houthis (milícia xiita do Iêmen).

“Hoje, e depois de quase 40 anos de estratégias de coerção, os Estados Unidos ainda se perguntam porque o Irã se tornou o país mais poderoso e influente da região. Está claro que as sanções falharam e vão continuar falhando”, afirma Mousavian. Falta diálogo, sobra o jogo econômico.