Hillary e Obama vão à guerra

Alter Egos.
Autor: Mark Landler.
Editora: Random House. 432 páginas

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Joel Pinheiro da Fonseca 

O resultado das eleições presidenciais americanas, que ocorrerão em 8 de novembro, é um mistério. De uma coisa podemos ter certeza: se Donald Trump vencer o pleito, os Estados Unidos darão uma guinada considerável em sua política externa. Fechamento das fronteiras a imigrantes, proibição de entrada a muçulmanos, rompimento de tratados, ameaça de guerra com a China; é difícil saber o que esperar do falastrão que, contra todas as previsões dos especialistas, faz uma campanha perigosamente bem-sucedida ao cargo mais poderoso do planeta. Políticas diametralmente opostas aos valores que Barack Obama projetou em seu mandato.

O que acaba ficando menos evidência, todavia, é que a eleição de Hillary Clinton também trará importantes mudanças na política externa americana. Pelo menos é isso que indica a relação dela com Obama e nos anos em que ela ocupou o cargo de Secretária de Estado. É esse período de intensa relação de Obama e Hillary, e as diferenças de concepção que emergiram no período, que Mark Landler explora em Alter Egos, uma leitura apaixonante para quem se interessa por política externa e, de maneira geral, pelo jogo da política.

Obama adotou, acima de tudo, uma política externa marcada pelo ceticismo quanto à capacidade do Estado americano de intervir com sucesso em conflitos no resto do mundo. Não parece acreditar, ademais, que os Estados Unidos devam ocupar um papel singular no mundo. Retirou tropas do Iraque, negou-se a intervir quando a Rússia invadiu a Crimeia, assistiu ao degringolar da guerra civil síria… Quando interveio, foi sempre baseado nos valores que os Estados Unidos supostamente representam no mundo, ainda que contrariando alianças previamente estabelecidas, como quando apoiou a derrubada do presidente egípcio durante a Primavera Árabe. Primazia dos valores e preferência pela não-intervenção, pela saída diplomática, marcaram sua presidência; o que levou em alguns casos a resultados felizes (a melhora na relação com o Irã, por exemplo) e a alguns fracassos, como a destruição da Síria antes que os Estados Unidos agissem. Nesses casos, a impressão que Obama passou foi a de fraqueza.

Hillary, por outro lado, é partidária da força. Valores importam, defender as causas corretas é ainda uma pré-condição, mas ela vem sempre acompanhada de uma disposição maior a perseguir o interesse americano, da crença no excepcionalismo de sua nação frente ao resto do globo e da opção preferencial pela intervenção. Se Obama é culpado – talvez injustamente – pela percepção de que os Estados Unidos perderam seu poder no Leste Europeu, no Oriente Médio e no Extremo Oriente (onde a China cada vez mais dá as cartas), Hillary dá todos os sinais de que lutará para reafirmar a supremacia americana. Sua abordagem, contudo, corre grandes riscos no caso de um fracasso retumbante, como foi o ataque de 2012 em Benghazi, na Líbia, que resultou na morte do embaixador americano e de um oficial. Hillary era até então retratada como a grande responsável pelo sucesso da estratégia na Líbia, e por um triz não teve suas perspectivas presidenciais dinamitadas por essa tragédia. A esse respeito, Landler faz um trabalho convincente em mostrar que a Secretária de Estado não foi responsável pelas falhas que levaram à morte do embaixador.

Por mais que distinções claras entre o estilo dos dois sejam atraentes, elas nem sempre correspondem à realidade toda. Em um ponto importante, lembrado por muitos como uma mácula na trajetória de Obama, foi Hillary quem adotou a posição mais prudencial: o uso de drones para matar terroristas. Para Obama, poupar as tropas americanas tornava a decisão muito fácil; sua Secretária de Estado, contudo, apontava a fragilidade legal dessas operações. Casos como esse fazem vislumbrar diferenças que digam talvez mais respeito ao temperamento do que à filosofia por trás das decisões.

Landler é correspondente do jornal The New York Times na Casa Branca, e seu acesso às esferas da alta política fazem do livro uma leitura informativa e cativante, nos levando a sentir como devem ser os bastidores das discussões sobre a política externa do Estado mais poderoso do mundo. Sua capacidade de combinar discussões de estratégia geopolítica com descrições das atitudes mais humanas de seus personagens tornam a leitura fácil e fluida.

Como ele próprio reconhece, há mais semelhanças do que diferenças em Hillary e Obama; é mais uma questão de estilo do que de princípios, mas as diferenças não deixam de ser relevantes, e levaram a alguns atritos ao longo dos anos. No final das contas, no entanto, o legado de Obama dependerá do sucesso de Clinton em levar adiante a visão dos Estados Unidos como pivô de uma ordem mundial calcada nos valores da democracia e dos direitos humanos. Isso se ela chegar lá…