Governo português quer privatizações através Bolsa

País também está preparando um pacote de incentivos para as PMEs se cotarem na Euronext e na Alternext

Lisboa – O Governo quer dinamizar o mercado de capitais português e vai fazer privatizações através da Bolsa, estando também a preparar um pacote de incentivos para as Pequenas e Médias Empresas (PME) portuguesas se cotarem na Euronext e na Alternext, segundo o ministro da Economia, Álvaro Santo Pereira.

Adiantou que o mercado de capitais é “crucial para o financiamento das empresas”, frisando: “um mercado de capitais dinâmico coloca o país na rota dos investidores internacionais, beneficiando não só as empresas como o país”.

“É importante que parte das privatizações passe pelo mercado de capitais. Entendemos que o Estado deve dar o exemplo e vai dar o exemplo”, disse Álvaro Santos Pereira numa conferência com investidores promovida pela NYSE Euronext Lisbon.

“Estamos a falar de vários instrumentos, quer sejam as privatizações, quer sejam instrumentos que estimulem as PME a entrarem na Euronext e na Alternext, para que o mercado de capitais ganhe escala e seja uma fonte de financiamento das nossas empresas”, acrescentou.

No âmbito do ‘bailout’ de 78.000 milhões de euros (ME) da UE e do FMI, Portugal iniciou um vasto programa de privatizações que incluiu a venda das participações na EDP, na REN e a concessão da ANA-Aeroportos de Portugal, prevendo-se a venda a privados da companhia aérea TAP, CTT-Correios de Portugal, CP Carga e Águas de Portugal.

Portugal encontra-se desde Maio de 2011 sob um austero ‘bailout’ internacional, que impôs duras medidas de redução da despesa orçamental e de agravamento da carga fiscal, empurrando a economia para a mais profunda recessão dos últimos 30 anos e dificultando o financiamento das empresas junto da banca.

O ministro destacou que, neste contexto, o “acesso ao financiamento é a necessidade mais premente que as nossas empresas enfrentam no dia a dia”.


“As empresas queixam-se dos bancos, que não dão crédito, ou que o dão a ‘spreads’ muito elevados, mas os bancos respondem que a estrutura de risco das empresas não permite isso. E as duas partes têm razão”, defendeu.

Acrescentou: “temos de melhorar a estrutura de risco das nossas empresas, mas também temos de actuar ao nível do crédito, quer dos juros, quer dos ‘spreads’, que continuam muito elevados quando comparados com o resto da Europa.

O CEO da NYSE Euronext Lisbon, Luís Laginha de Sousa, defendeu igualmente uma intervenção do Estado no sentido de estimular o financiamento das empresas no mercado de capitais.

“Com os estímulos certos, o recurso ao mercado de capitais pode ser uma realidade muito mais expressiva do que até agora”, frisou o CEO da NYSE Euronext Lisbon, numa conferência com investidores.

Adiantou que “esses estímulos podem ser involuntários — como as necessidades (macroeconómicas) que estamos a sentir, dado que a necessidade aguça o engenho — como também pode resultar de decisões políticas conscientes”.

Realçou que “estes estimulos podem ter um impacto muito positivo na dinamização das nossas empresas, fazendo muita diferença, sem aumentar o défice das contas públicas”.

“É o caso das privatizações: não há razão para que não possam passar, pelo menos parcialmente, pela bolsa”, salientou Laginha de Sousa.

O CEO da Bolsa portuguesa frisou que, nestas circunstâncias, “não deve ser negligenciada a base de investidores doméstica”.


“Foram estes investidores que, na altura em que Portugal não se conseguia financiar no exterior, se mantiveram estáveis e tiveram capacidade de se abstraírem das manchetes internacionais”, salientou.

“Isso foi visível nas emissões de obrigações para investidores de retalho domésticos que foram realizados por várias empresas na altura em que Portugal não se conseguia financiar nos mercados internacionais”, disse Laginha de Sousa.

Zeinal Bava, CEO da Portugal Telecom (PT), defendeu igualmente a importância do mercado accionista para o financiamento das empresas portuguesas, mesmo as maiores.

“A presença da PT no mercado de capitais permite ter acesso a capital nos mercados globais a um custo atractivo. Se não estivermos cotados em bolsa, não temos este acesso a capital”, frisou o CEO da maior empresa de telecomunicações portuguesa.

Zeinal lembrou que a dependência da PT face ao sector bancário português é inferior a 5 pct das suas necessidades de financiamento, pois a ‘telecom’ consegue financiar-se nos mercados de ‘bonds’, por ser cotada nas bolsas de Lisboa e Nova Iorque.

“O mercado de dívida fica muito mais aberto para as empresas cotadas em bolsa, em parte porque existe um comportamento de rigor que caracteriza as empresas cotadas”, explicou.

“Estar cotado na bolsa obriga a uma série de procedimentos internos que aumentam a confiança dos investidores”, disse o CEO, recordando a emissão de ‘bonds’ a sete anos realizada pela PT no mês passado, na maior colocação privada desde o início do resgate internacional de Portugal.

O CEO da PT frisou que esta emissão demonstra “a robustez da empresa, o seu ‘track record’, a sua governança muito forte e, acima de tudo, o trabalho de comunicação regular com o mercado que é absolutamente estratégico”.