Gigantes estatais afogam crescimento econômico da China

Analistas chineses e estrangeiros concordam que é preciso reformar as 145 mil empresas estatais do país para garantir seu futuro crescimento

Pequim – Tanto os analistas chineses como os estrangeiros, e inclusive os próprios governantes da potência asiática, concordam na necessidade de reformar as empresas estatais da China, gigantes transformados em um mal endêmico para a economia e de cuja liberalização depende seu futuro crescimento.

Trata-se de 145 mil empresas, 126 delas conglomerados de dimensão mastodôntica, que representam 35% da atividade econômica do país e que abrangem todos os setores estratégicos, como energia, aeronáutica, telecomunicações e bancos.

Apesar de as maiores terem se transformado em companhias que cotam na Bolsa de Valores, muitos economistas denunciam sua baixa rentabilidade – uma vez que atuam em um regime de quase monopólio – e suas conexões políticas, que no caso da China ainda são mais evidentes pelo sistema Estado-Partido.

Prova do fato é que em 2012 as empresas estatais (SOE, em inglês) registraram perdas conjuntas de 50 bilhões de iuanes (US$ 8,116 bilhões).

Muitos economistas chineses argumentam que as maiores companhias, especialmente os bancos e as empresas de telecomunicações, cresceram tanto – ou estão politicamente tão bem conectadas – que conseguem grande parte dos empréstimos bancários, um financiamento que não chega a empresas menores, mas com mais potencial, e que põe em xeque o crescimento econômico do país.

Um deles é o decano da escola de negócios CEIBS, Xu Dingbo, que, apesar de fazer parte do conselho de administração de uma SOE, não esconde que o crédito que outorgado a estas empresas acaba se transformando em um valor agregado baixo para a economia.

‘A solução é a privatização’, assegurou Xu à Agência Efe, ‘embora em curto e médio prazo seja uma tarefa muito difícil pelo volume de ativos que possuem estas empresas’, 100 trilhões de iuanes somente no setor bancário.

‘Nenhum governo pode realizar um processo deste calibre de forma racional em cinco ou dez anos’, acrescentou o acadêmico.

Os números são de tal magnitude que um estudo do mesmo professor conclui que, se em 2011 as maiores empresas estatais chinesas tivessem sido tão eficientes como as companhias americanas que cotam no índice Dow Jones industrial, o Produto Interno Bruto do gigante asiático teria crescido nove pontos percentuais a mais.

Nesse ano, a China cresceu 9,3%, um número que, segundo os cálculos de Xu, dobraria até 18,3%.

O ex-primeiro-ministro, Wen Jiabao, prometeu em seu último relatório de governo reduzir os monopólios estatais e estimular o investimento não-governamental, algo que demonstra a vontade dos altos líderes de realizar estas mudanças.

Mas, se isso derivará em ações concretas, depende da vontade dos novos líderes chineses de desafiar as famílias com conexões políticas que administram muitas destas companhias, em algumas ocasiões mais motivados por critérios políticos que empresariais.

Neste sentido, o professor Ding Iuane da escola de negócios CEIBS explicou à EFE que os postos diretores das empresas estatais ‘são utilizados como períodos de transição ou de retirada para muitos políticos’, algo que explica sua forma de tramitar e evidencia o alto custo de não ter um conselho de administração independente.

‘Estou convencido que os máximos líderes do país querem reformar estas empresas, mas o conflito de interesses é grande demais’, apontou.

De fato, as administrações provinciais e locais são dependentes dos benefícios destas companhias e, exatamente por isso, resistem a abrir mão deles.

Para as facções mais tradicionais do Partido Comunista, além disso, as SOE se situam como um dos últimos rastros da economia planificada da época de Mao Tsé-Tung e temem que, com a mudança, o atual ‘socialismo com características chinesas’ perca uma parte importante de sua essência.

‘Estamos falando da sustentabilidade do país. Um dia aparecerá este dilema: O que é mais importante: controlar estas companhias ou sustentar o regime?’, antecipou o professor Ding.

‘Obviamente o segundo é mais importante, portanto, talvez então veremos a mudança’, concluiu.