Gastamos muito e gastamos mal, diz secretária do Tesouro

"Vimos quanto dinheiro foi desperdiçado em projetos que não faziam o menor sentido", diz Ana Paula Vescovi em entrevista da Um Brasil antecipada para EXAME

São Paulo – “O investimento público por si só não é uma panaceia. Vimos recentemente no Brasil quanto dinheiro foi desperdiçado em projetos que não faziam o menor sentido”.

A frase é de Ana Paula Vescovi, secretária do Tesouro Nacional desde junho de 2016, em entrevista da UM Brasil antecipada com exclusividade para EXAME.

Ela diz que 2018 será um marco na gestão fiscal do Brasil pois estarão em vigor dois limites: o teto de gastos e a meta do déficit primário.

“Vamos cumprir as metas e temos os instrumentos para isso”, diz Ana, reconhecendo que o atual cenário só prevê equilíbrio entre receitas e despesas em 2021.

“E não basta equilibrar, temos que ter algum superávit nessa conta para equilibrar também as despesas financeiras e a dívida pública”, diz a Secretária.

Ela também nota que um dos motivos para conter gastos é abrir margem para investimento público e que isso passa necessariamente pela aprovação de uma reforma da Previdência.

A entrevista com a jornalista Thais Heredia foi gravada em dezembro, quando Ana Paula participou do Fórum “A Mudança do Papel do Estado – Estratégias para o Crescimento”.

O evento foi realizado pela UM BRASIL, uma iniciativa da Fecomercio SP, com a parceria do Columbia Global Centers do Rio de Janeiro, um braço da Universidade Columbia, de Nova York.

Gasto público

“Quando nós falamos em gasto público no Brasil, existe um imaginário e um inconsciente na sociedade de que gasto público por si só é bom, é algo positivo pois traz serviços à população”, diz Ana Paula.

“E eu acho que a realidade recente começa a mostra que isso não necessariamente é verdade. O gasto público também passa por desperdícios, ineficiência, sem dizer quando há processos de corrupção”, completa..

Ela afirma que uma das prioridades atuais do Tesouro Nacional é dar elementos para avaliar o gasto público de forma mais consistente e profissional e assim verificar quais políticas estão funcionando ou não: “Temos um gasto elevadíssimo e gastamos mal”.

Um exemplo de como o Estado brasileiro atua para reproduzir a desigualdade aparece na diferença de salários entre setor público e privado, a mais alta entre 53 países em comparação divulgada recentemente pelo Banco Mundial.

Ana Paula diz na entrevista que será essencial flexibilizar as amarras do gasto público, já que nosso Orçamento é “o mais engessado do mundo”, e definir prioridades claras.

Para isso há uma necessidade de convencimento, pois a decisão final de alocar os recursos é política. A boa notícia é que a crise foi tão aguda que está forçando esta discussão.

“Eu vejo sim crescendo esse debate no Congresso, na sociedade, nos meios acadêmicos. Acho que isso não tem volta”, diz ela.

Ana Paula Vescovi atuou por dez anos na Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda, onde foi secretária-adjunta de Macroeconomia entre 1997 e 2007.

Ela foi diretora-presidente do Instituto de Pesquisa do Governo do Estado do Espírito Santo e também atuou como assessora econômica do Senador Ricardo Ferraço entre 2011 a 2014.

Veja a entrevista na íntegra:

Comentários

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  1. ViP Berbigao

    Parabéns dotora se vc falar q 50% ou seja, metade do orçamento é para pagar juros da dívida que não tem retorno nenhum para a sociedade. Esse sim é gastar mal. Previdencia, saúde, educação e segurança pelo menos mal ou precária é algum alento. Mas o q vemos hj no orçamente q v.exa. administra é vergonhoso diante de um país desigual. Qdo vão começar a pelo menos discutir o que se quer na distribuição dos recursos do orçamento? Em prol da sociedade ou em benefício de menos de 1% da população? Essa piramide de 99% e 1% usufruindo está certo?