Franzen, Hollywood e a crise da imprensa

Em cerca de um mês, no final de maio, começa a chegar nas livrarias brasileiras Pureza, o quinto livro de Jonathan Franzen, um dos escritores americanos mais elogiados dos últimos tempos. A obra, publicada no final do ano passado nos Estados Unidos, conta a história da jovem Pip, sua relação conflituosa com a mãe e a conexão que estabelece com um alemão criado à imagem e semelhança de Julian Assange, o hacker australiano fundador do WikiLeaks. Existem vários pontos em comum entre Pureza e os dois sucessos anteriores de Franzen – As Correções, de 2001, e Liberdade, de 2010. O leitor tem a impressão de estar imerso na vida dos personagens, há muita tensão entre pais e filhos e gente tentando dar significado à vida. Mas as semelhanças param aí.

Um dos muitos diferenciais de Pureza é que o livro examina o papel do jornalismo na sociedade atual. Dos cinco ou seis personagens principais, dois são jornalistas. É pura coincidência, mas ainda assim curioso que o livro de Franzen tenha sido publicado nos Estados Unidos um pouco antes de o filme Spotlight: Segredos Revelados, também sobre jornalistas, ganhar o Oscar de melhor filme e de melhor roteiro original. Parece que, de uma hora para outra, grandes formadores de opinião americanos decidiram olhar para a crise que se abateu sobre a imprensa tradicional nos últimos anos e mais: resolveram chamar a atenção para a importância que a atividade tem na sociedade contemporânea.

Pureza, obviamente, está muito longe de ser panfletário. Franzen não economiza críticas a jornalistas, mas o destaque, sem dúvida, é a defesa dos profissionais da área. Gente que corre atrás de informações, avalia a sua importância, busca a verdade e escreve de forma clara. Isso é o que faz Leila, uma das personagens que merecem um capítulo inteiro. Numa das passagens, Franzen diz: “Na mesa de jantar à noite, ela se viu fazendo um discurso inflamado sobre a falsa promessa de que a internet e as mídias sociais são substitutos do jornalismo – a ideia de que você não precisa de jornalistas em Washington porque pode ler os tweets dos congressistas, não precisa de fotógrafos porque hoje em dia todo mundo tem uma câmara fotógrafica no celular, não precisa pagar jornalistas profissionais quando é possível fazer crowdsource e financiar qualquer pessoa para escrever, não precisa de jornalismo investigativo quando gigantes como Assange, Wolf (personagem do livro) e Edward Snowden caminham sobre a Terra…”

O filme Spotlight: Segredos Revelados vai por outra linha. Não tem nada de ficção. Em pouco mais de duas horas, conta o feito da equipe de jornalismo investigativo do The Boston Globe no começo da década passada. Em janeiro de 2002, o jornal publicou uma série de reportagens sobre centenas de crianças molestadas sexualmente por padres. Tom McCarthy, o diretor, e Josh Singer, o roteirista, deixam claro o objetivo que tinham com o filme num texto sobre o trabalho da equipe do The Boston Globe. “A receita dos jornais americanos em 2014 foi menos da metade do que era dez anos antes, e milhares de jornalistas perderam seus empregos. É claro que houve inovação on-line nesse período.

Muitos irão ressaltar que temos hoje mais informação disponível do que antes e, por isso, alguns podem argumentar que o tradicional jornalismo investigativo não é mais necessário. Nós discordamos. (…) Para desencavar uma história como essa da Igreja Católica, um jornalista precisa de tempo. Quatro repórteres excelentes e experientes e dois editores sêniores investiram mais de um ano, trabalhando em tempo integral, fazendo horas extras. Um jornalista também precisa de recursos. Além de pagar salários e custos fixos, The Boston Globe arcou com custos legais. (…) Finalmente, na maioria dos casos, um jornalista precisa do respaldo de uma instituição, uma que tenha a força necessária para cobrar de outras instituições poderosas um comportamento decente”.

Uma solução definitiva para a crise da imprensa tradicional, infelizmente, ainda não foi identificada, mas, pelo menos, alguns daqueles que se dedicam a tratar dos grandes temas da atualidade estão cientes da gravidade do momento – e fazendo literatura e cinema de altíssimo nível.

(Eduardo Salgado)