FMI faz alerta ao Brasil sobre crédito e inadimplência

O Fundo destaca o rápido crescimento do crédito no Brasil nos últimos anos, especialmente o papel do BNDES nesse processo

Nova York – O Relatório de Estabilidade Financeira Global, divulgado nesta quarta-feira pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), demonstra preocupação com o nível de inadimplência no Brasil e os limites do uso do crédito para conter a crises. O documento destaca o rápido crescimento do crédito no Brasil nos últimos anos, especialmente o papel do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) nesse processo.

Segundo o FMI, o País experimentou um crescimento anual do crédito de cerca de 20% entre 2008 e 2011 e esse rápido crescimento tem sido liderado pelo BNDES, cuja atuação ajudou a limitar o impacto do colapso do Lehman Brothers na economia brasileira ao longo de 2009.

“Mas a contínua expansão dos balanços patrimoniais dos bancos públicos e privados já tem provocado aumento nas taxas de empréstimos inadimplentes, particularmente no segmento de pessoas físicas”, observa o relatório. “Nessas circunstâncias, o espaço para o uso do canal de crédito para conter choques negativos pode se mostrar limitado”, alerta o FMI.

Riscos globais

No documento, o FMI reconhece que o cenário financeiro global está melhor agora do que no ano passado, mas reconhece os perigos que há no caminho. “Os riscos à estabilidade financeira global permanecem elevados”, diz o FMI, no Relatório. Para o FMI, a recuperação duradoura da confiança dos mercados “levará tempo”.

O Fundo ressalta que financiar a dívida pública ainda pode se mostrar um desafio para alguns países na zona do euro. O FMI diz que as autoridades souberam agir para estabilizar os mercados soberanos, mas que agora precisam aproveitar para implementar políticas que garantam estabilidade mais duradoura. E esse é um recado não somente para a zona do euro.

“Os altos déficits dos Estados Unidos e do Japão impõem riscos elevados à estabilidade financeira”, diz o documento. “Houve pouco progresso até agora em colocar em prática estratégias para tratar do problema, em contraste com o que está ocorrendo na Europa”. Segundo o FMI, esses dois países precisam adotar planos críveis de vários anos para reduzir seus déficits.


Emergentes

O FMI destacou em Relatório que o fluxo de entrada de capital retornou fortemente aos mercados emergentes uma vez que os temores em relação aos riscos vindos da Europa diminuíram, mas mostrou dúvida sobre se esse movimento deve continuar por muito tempo. “A volatilidade no fluxo de capitais para os emergentes aumentou, mas a direção é altamente incerta”, diz o FMI.

Os emergentes, na avaliação do Fundo, devem estar preparados para uma saída repentina de capital caso o cenário global se torne novamente mais adverso e cresça de novo a aversão ao risco. As autoridades também devem estar prontas para usar o espaço de políticas existentes para amortecer choques externos negativos. “O desafio chave será controlar potenciais contágios da zona do euro na Europa emergente e em outras economias mais expostas”, diz o FMI.

O relatório lembra que o otimismo renovado mais recente tem estimulado um rali no mercado de ações especialmente no Brasil, Índia e Turquia e que como resposta ao pesado fluxo de capital, autoridades têm adotado o uso apropriado de políticas macroeconômicas. “O uso cauteloso de medidas para fluxo de capital pode ter uma papel de apoio”, diz.

Zona do euro

O FMI também afirma no Relatório que a resposta das autoridades à crise na zona do euro foi sem precedentes, mas a questão é saber se o que feito será suficiente para trazer de volta a estabilidade dos mercados. “Muitos soberanos na zona do euro continuam em zona de vulnerabilidade”, afirma o FMI.

O documento destaca que os novos governos da Itália e da Espanha responderam às pressões adotando medidas importantes para reduzir déficits fiscais e tratar da fraqueza de suas economias. No entanto, reconhece que as ações recentes ainda não trouxeram de volta a confiança e que, embora a situação do mercado de bônus na região tenha melhorado, ela ainda é frágil.

De acordo com o FMI, os bancos da região vêm passando por um processo de desalavancagem que deve continuar e se ampliar, com as instituições ainda procurando sanear seus balanços patrimoniais e procurando ficar mais bem capitalizadas. O relatório alerta, no entanto, que uma deterioração do cenário na zona do euro que leve a uma redução em larga escala de ativos pelos bancos poderia provocar uma crise de crédito.