Fed, emergentes e protecionismo: os catalisadores de crise ainda evitável

O FMI, que encerra neste domingo (14) a sua reunião anual em Bali, na Indonésia, assinala uma combinação de riscos "inédita"

Estamos caminhando para uma nova crise financeira planetária? As taxas dos Estados Unidos, os países emergentes sob pressão e a guerra comercial são um coquetel tóxico, mas uma forte conjuntura mundial poderá impedir sua explosão, analisam o FMI e os ministros das Finanças mundiais.

O Fundo Monetário Internacional (FMI), que encerra neste domingo (14) a sua reunião anual em Bali, na Indonésia, assinala uma combinação de riscos “inédita”, apesar de celebrar um crescimento mundial suficientemente sólido (3,7% esperado em 2018 e 2019) para evitar o pior.

O primeiro risco de se materializar tem sido a escalada protecionista em um contexto no qual a guerra comercial entre China e Estados Unidos se intensifica com base na imposição de tarifas punitivas.

“As relações entre as grandes economias parecem com (a série) ‘Game of Thrones’, cujo cruel universo confronta poderosas famílias a pagar um ‘preço trágico'”, ironizou o presidente indonésio, Joko Widodo, ante a assembleia do FMI.

A diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, lamentou “o questionamento do multilateralismo”, fonte de “um nível de incerteza nunca visto”.

Por conta das acusações dos Estados Unidos, a China mostra a sua boa vontade: “Buscamos uma solução construtiva” às tensões comerciais, “com as quais todos perdem”, afirmou neste domingo Yi Gang, dirigente do Banco Central chinês.

Embora a administração americana suspeite abertamente que Pequim desvaloriza a sua moeda em prol de seus exportadores, Yi reiterou que seu país “não usaria as taxas de câmbio como arma” comercial. E os membros do FMI se comprometeram por unanimidade em Bali a evitar qualquer “guerra de divisas”.

Efeitos colaterais

O Federal Reserve americano (Fed), que elevou as suas taxas pela terceira vez este ano para frear o superaquecimento na primeira economia mundial, é outra fonte de preocupação.

Este aumento das taxas de juros é “legítimo” e “necessário”, visto o forte crescimento americano, acompanhado de um aumento da inflação e do baixo desemprego, mas intensifica a pressão sobre os mercados emergentes, observou Lagarde.

Esses últimos estão sofrendo fuga de capital, atraído em outros lugares por investimentos mais lucrativos em dólares. Especialmente Argentina, Turquia e Indonésia viveram uma forte queda de sua moeda.

“Muitos mercados emergentes e países em desenvolvimento aproveitaram custos de financiamento extremamente baixos” nos últimos anos “subscrever empréstimos denominados em dólares” e se encontram presos pelo encarecimento do dólar, explicou Lagarde.

Mas ninguém contempla uma mudança de rumo do Fed, apesar das duras críticas do presidente americano, Donald Trump.

O presidente da instituição, Jerome Powel, se mostrou “muito claro em Bali” sobre a sua “vontade de continuar subindo as taxas”, declarou à AFP François Villeroy de Galhau, dirigente do Banco de França.

Ao contrário, “existem medidas para que os emergentes amortizem” este impacto: as flexibilidades de suas taxas de câmbio e a gestão supervisionada dos movimentos de capitais, indicou.

“Amnésia”

O FMI pede aos bancos centrais que endureçam pouco a pouco a sua política monetária, a fim de ter amplas margens de manobra em caso de crise.

Esses “colchões” financeiros são desejáveis em face da expansão de um “financiamento paralelo” pouco regulado(créditos e produtos financeiros opacos e arriscados), em um contexto de aumento alarmante da dívida mundial pública e privada, de até o dobro do PIB global de 2017.

Mas Christine Lagarde lembrou na quinta-feira a crise financeira global de 2008 e outras catástrofes do passado.

“Espero que não sejamos vítimas de uma amnésia coletiva sobre o que aconteceu (no passado) quando as tensões geopolíticas adicionadas ao protecionismo causaram acontecimentos terríveis”, lembrou.