Europeus recorrem a emprego falso em empresa falsa, diz NYT

Desempregados e sem perspectiva, europeus participam de empresas "virtuais" para manter algum vínculo com o ambiente de trabalho

São Paulo – Milhares de companhias falsas têm servido como última alternativa para um exército de desempregados ao redor da Europa.

De acordo com uma reportagem do jornal americano The New York Times publicada hoje, estas companhias tem fornecedores, planilhas, gastos e receita.

Elas fabricam produtos que vão de porcelana a móveis e tomam empréstimos de bancos; algumas tem até greves. Com um detalhe: é tudo de mentira. A exceção são os funcionários, que mesmo não recebendo salário, ganham experiência e uma forma de ocupar o dia. 

“Estas empresas são parte de uma rede de treinamento elaborada que opera efetivamente como um universo econômico paralelo. Por anos, seu objetivo era treinar estudantes e trabalhadores desempregados que desejassem fazer uma transição para diferentes indústrias. Agora, elas estão sendo usadas para combater o aumento alarmante no desemprego de longo prazo”, diz a reportagem.

Há mais de 100 companhias desse tipo só na França e milhares na Europa. Todas as regras e procesos são levados a sério, e as que não são bem geridas vão “à falência”, enquanto outras novas são criadas – assim como no mundo real.

A taxa de sucesso é alta: de 60% a 70% dos treinados conseguem um emprego depois, mas só uma pequena parte é de longo prazo ou com bons salários.

Ambiente 

23,7 milhões de homens e mulheres estão desempregados nos 28 países da União Europeia. A taxa chega a quase um em cada quatro cidadãos em países como Espanha (23%) e Grécia (25,7%) e é quase o dobro entre os jovens (50% nestes países e 43% na Itália).

Metade dos desempregados da UE estão sem trabalho há mais de um ano: a taxa é de 61% na Itália e 43% na França.

Os últimos dados mostram que a atividade econômica está reagindo, mas isso não significa um mercado de trabalho sólido em algum futuro próximo: metade dos novos empregos criados na UE são temporários.

“Quando você está desempregada, você fala para si mesma que será só por pouco tempo. Daí vira 6 meses, então um ano. E nada acontece, e você diz ‘não posso mais aguentar isso’. Eu não quero assistência – eu quero trabalhar”, diz ao NYT Julia Moreno, ex-babá que sofreu danos na espinha cervical.

Ela não conseguiu um emprego novo e hoje trabalha na Animal Kingdom, empresa “virtual” de produtos e serviços para animais de estimação.

Consequências

O fenômeno das companhias de mentira serve como lembrete de que o emprego tem um papel social e psicológico que vai além do econômico. 

Estudos mostram que o desemprego de longo prazo tem efeitos duradouros sobre a satisfação pessoal e até sobre a taxa de suicídios.

Recentemente, um estudo publicado pelo Journal of Applied Psychology mostrou que quem procura e não acha trabalho sofre consequências até na sua própria personalidade.