Embargo dos EUA a Cuba completa meio século e poderá piorar

Segundo Havana, até 2010 as perdas pelo embargo superavam os 104 bilhões de dólares, mais que o triplo do Produto Interno Bruto da ilha

Washington – O embargo americano sobre Cuba completou nesta sexta-feira 50 anos em meio às reformas de Raúl Castro na ilha e de uma campanha eleitoral nos Estados Unidos na qual os republicanos prometem endurecê-lo.

“Mil novecentos e sessenta e dois. O então presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, emite a Proclamação Presidencial 3447, que impõe o bloqueio econômico total desse país a Cuba”, lembrou o jornal oficial Granma em sua coluna “hoje na história”.

A medida fazia parte de um esquema legal contraposto às nacionalizações das propriedades americanas após a vitória da revolução de Fidel Castro em Cuba em 1959, dentro de uma atmosfera política fria entre os dois países, que tinham rompido suas relações diplomáticas em 3 de janeiro de 1961.

Apontado pelo papa João Paulo II como “injusto” e “eticamente inaceitável”, em sua histórica visita à ilha em janeiro de 1988, o embargo foi condenado pela Assembleia Geral das Nações Unidas todos os anos desde 1992.

A condenação de 2011 teve 186 votos a favor, dois contra (Estados Unidos e Israel) e três abstenções (Ilhas Marshall, Micronésia e Palau).

Segundo Havana, até 2010 as perdas pelo embargo superavam os 104 bilhões de dólares, mais que o triplo do Produto Interno Bruto (PIB) da ilha, e tem impacto em setores sensíveis como saúde, alimentação e educação: atinge “indiscriminadamente” a população, disse João Paulo II.

O embargo foi reforçado pelas leis Torricelli, de 1992, e Helms-Burton, de 1996.

A chegada de Barack Obama à Casa Branca em 2009 fez alguns pensarem que o fim do embargo estava próximo, mas o presidente “teve que fazer uso de repetidos pretextos para justificar o bloqueio e inventar outros cada vez mais insustentáveis”, segundo o presidente cubano, Raul Castro.

Críticos do governo comunista de Havana o acusam de invocar o embargo americano para justificar o fracasso de políticas econômicas que provocaram o estancamento e retrocesso na ilha.

O próprio Raúl Castro exigiu que os líderes cubanos deixem de “colocar a culpa no bloqueio” e trabalhar com disciplina e eficiência.

Para isso, o presidente impulsiona mais de 300 reformas, aprovadas pelo VI Congresso do Partido Comunista em abril de 2011, destinadas a “atualizar o esgotado modelo econômico de tipo soviético, prevendo que o embargo seguirá vigente no futuro”.

“Com equanimidade e paciência, nos dedicaremos a cumprir os acordos do Congresso enquanto transcorrem as eleições americanas. Sabemos que o bloqueio continuará”, disse Raúl Castro em 23 de dezembro diante do Parlamento.

A campanha eleitoral nos Estados Unidos preludia um endurecimento do embargo, ao menos no discurso, toda vez que os pré-candidatos republicanos que visitam a Flórida, estado-chave na contenda e meca do exílio anticastrista, prometeram mão dura com Havana se chegarem à presidência.

No entanto, parte dos exilados cubanos radicados nos Estados Unidos desaprovam o embargo e parece interessado em inserir-se no processo de reformas na ilha.

“Poucos fatores podem atingir com mais força o embargo norte-americano que uma abertura nas relações entre Cuba e seus emigrados”, opinou o acadêmico cubano Arturo López Levy, da Universidade de Denver (Colorado, EUA), em um debate publicado nesta sexta-feira pela revista católica Espacio Laical.

Afirmou que para isso Cuba deve modificar suas leis migratórias.

“É hora de integrar a capacidade dos emigrados para a criação na ilha de novas empresas privadas ou mistas com o extraordinário capital humano desenvolvido em Cuba nas últimas décadas”, disse.