Em clima tenso, ministros de Alemanha e Espanha se reúnem

O encontro esteve rodeado de segredo, já que ambas partes decidiram não realizar posteriormente nenhum encontro com os meios de comunicação

Berlim – O ministro da Economia da Espanha, Luis de Guindos, e o titular de Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, se reuniram nesta terça-feira em Berlim para analisar a situação da Espanha, horas depois do anúncio da nova avaliação da nota da dívida soberana da Alemanha pela agência Moody”s.

O prêmio de risco espanhol – que mede a diferença entre o bônus espanhol a dez anos e o alemão de mesmo prazo – se manteve hoje em máximos históricos com 638 pontos.

Ao mesmo tempo, em círculos econômicos da Alemanha, a principal economia da zona do euro, reverberava o eco da decisão da Moody”s de situar ”em perspectiva negativa” a qualificação que atribui a sua dívida soberana e colocá-la em observação para um possível rebaixamento.

O encontro esteve rodeado de hermetismo, já que ambas partes decidiram não realizar posteriormente nenhum encontro com os meios de comunicação nem divulgar os temas da agenda, argumentando que se trata de uma reunião informal estipulada antes do aumento das tensões.

No entanto, analistas e jornalistas alemães indicaram que a reunião se centraria principalmente na delicada situação da Espanha, que segue duramente acossada nos mercados financeiros apesar do último programa de cortes de 65 bilhões de euros e da aprovação da ajuda aos bancos espanhóis por parte do Eurogrupo.


De Guindos tinha a incumbência de detalhar a Schäuble o último plano de ajustes aprovado pelo governo presidido por Mariano Rajoy, que inclui uma alta do Imposto sobre o Valor Agregado (IVA), a eliminação do pagamento extra de Natal aos funcionários e um rebaixamento do seguro-desemprego, entre outros pontos.

Fora da agenda ficou, segundo De Guindos afirmou ontem, a possibilidade de a Espanha averiguar com a Alemanha um eventual resgate completo, perante as crescentes dificuldades para financiar-se nos mercados.

Segundo antecipou De Guindos, também não foi abordada a reivindicação espanhola – reiterada nos últimos dias pelo governo de Rajoy – para que o Banco Central Europeu (BCE) volte a adquirir bônus soberanos no mercado secundário.

O ministro de Relações Exteriores espanhol, José Manuel García-Margallo, já tachou o BCE de ”banco clandestino” por não diminuir tensões, algo ao que Mario Draghi, presidente da entidade, respondeu assinalando que sua incumbência não é ”resolver os problemas financeiros dos países”.

Por sua parte, a porta-voz do Ministério de Finanças da Alemanha, Marianne Kothé, tirou ontem da lista de assuntos em debate o resgate das comunidades autônomas com dificuldades financeiras, alegando que se trata de um ”assunto interno” espanhol.

A reunião aconteceu pouco depois que a Catalunha se tornou a terceira comunidade autônoma em reconhecer abertamente que recorrerá ao respaldo do fundo de liquidez autônomo (FLA), embora não tenha quantificado o volume da ajuda que necessita.


A Moody”s, por sua parte, se encarregou ontem de incluir um novo ponto na agenda do encontro entre Schäuble e De Guindos.

Ao degradar de ”estável” para ”negativa” as perspectivas financeiras de Alemanha, Holanda e Luxemburgo, a Moody”s destacou o estreito vínculo entre as contas públicas do saneado norte e do deficitário sul da eurozona, ligadas através dos fundos de resgate.

A Alemanha desdenhou imediatamente em comunicado a decisão de Moody”s, assegurando que a agência não leva em conta a solidez de sua economia, ao dar prioridade aos ”riscos de curto prazo” e ignorar ”as perspectivas de longo prazo de estabilização”

O Ministério de Finanças alemão destacou que ”as perspectivas para a Alemanha são sólidas” e que ”a confiança dos mercados internacionais” no país ”é alta”, como demonstram as taxas de juros – inclusive negativos – que Berlim paga para colocar sua dívida.

No entanto, a crise já está afetando os indicadores macroeconômicos da principal economia europeia, que está desacelerando seu crescimento, e a chanceler, Angela Merkel, reconheceu em várias ocasiões nas últimas semanas que ”as forças” da Alemanha ”não são ilimitadas”.