Em Bangladesh, a economia da exclusão

Como governos, ONGs e uma crescente leva de empreendedorismo aplacam parte da tragédia humanitária da etnia Rohingya

COX’S BAZAR, BANGLADESH – Desde agosto de 2017, após escapar de ataques que mataram 7.000 pessoas e arrasaram centenas de vilas, cerca de 655.000 Rohingya deixaram Mianmar, na maior crise de refugiados desde década de 90. Os membros da minoria muçulmana andaram por dias até chegarem famintos, traumatizados e só com a roupa do corpo ao distrito de Cox’s Bazar, a cerca de 80 quilômetro de distância, no sul da vizinha Bangladesh. Quando os quatro acampamentos da área lotaram, as florestas do entorno deram lugar a outros seis, erguidos às pressas sobre a lama das monções e sem estrutura sanitária ou de habitação.

Diferentes agências da ONU e uma centena de ONGs nacionais e internacionais já atuavam na região com outros 212.000 Rohingya sobreviventes de perseguições do tipo nas últimas décadas, mas viram suas iniciativas e orçamento insuficientes frente ao volume e à rapidez da catástrofe mais recente. E começaram a intensificar a escala dos esforços para dar conta do recado. Desde então, criou-se uma rede de apoio para aplacar parte da tragédia com alimentos, remédios, moradia e, em menor escala, oportunidade de trabalho. É a economia da exclusão.

O governo local e o de outros países aumentaram repasses de dinheiro, comida e material. E em locais como Kutupalong, hoje o maior acampamento de refugiados do mundo, com cerca de 600.000 pessoas, o empreendedorismo tornou-se alternativa para complementar o auxílio insuficiente de fora. Somados os esforços, os recém-chegados recebem o equivalente a cerca de 5,60 dólares por dia em ajuda.

Para proteger o mercado de trabalho, dificultar a assimilação dos refugiados e até desencorajar novos pedidos de asilo, Bangladesh restringe diversos direitos dos Rohingya. É proibido exercer atividade remunerada, estudar além do Ensino Fundamental, casar com cidadãos do país ou mesmo deixar os acampamentos. Mas o governo faz vista grossa ao comércio.

O alfaiate Mohammad Rashid, de 46 anos e sete filhos, é um dos muitos recém-chegados financiando pequenos negócios à revelia das autoridades. No contêiner em forma de cubículo que divide com um conterrâneo por 1.700 takas por mês (20 dólares), uma máquina de costura velha é a esperança de recomeço.

“Em Mianmar eu tinha cinco máquinas e duas lojas. Agora tenho só essa, que ainda não terminei de pagar”, diz. O montante já quitado veio das semanas trabalhando como funcionário de outro alfaiate refugiado. Mas as cerca de 240 takas (2,90 dólares) que fatura por dia atendendo os outros Rohingya ainda não animam.

Entre os clientes há quem tenha conseguido escapar com parte das economias. Outros revendem a própria ajuda humanitária, como cotas de comida e até colchões excedentes, para poder arcar com gastos supérfluos como um serviço de corte e costura. “Mas ninguém tem dinheiro para mandar fazer roupas, todos só pedem reparos nas que têm”, diz.

O sorriso fácil do alfaiate só desaparece quando ele começa a contar do ataque brutal à vila de Riazuddin Para, onde além de prisões e abusos 26 pessoas foram mortas pelo exército birmanês. “Ainda tentamos retomar a vida depois daquilo. Ouço que o governo quer nos repatriar, mas prefiro morrer aqui”, diz.

O ALFAIATE MOHAMMAD RASHID: ele fatura 2,90 dólares por dai remendando as roupas de outros refugiados / Foto: Ruben Luz

O cabeleireiro Shamsul Alam, 35, perdeu um tio no ataque à vila de Fakira Bazar e fugiu com a esposa e seis filhos. Usando uma camiseta alguns números maior e lungi, tipo de saia masculina, não para de cortar o cabelo de clientes enquanto conta como montou o salão em setembro, semanas após chegar.

Um empréstimo de 4.000 takas (48 dólares) da ONG muçulmana inglesa Al Mustafa Welfare Trust pelos equipamentos e pelo cubículo de lata alugado é um exemplo de como a tragédia movimenta uma economia própria. “É muito difícil pra mim… O dinheiro que faço aqui não é suficiente e sou o único trabalhando porque meus filhos são muito pequenos e ainda estão doentes meses depois da viagem”, diz.

Os recém-chegados a Kutupalong, como Mohammad e Shamsul, são novas vítimas de uma tragédia antiga. Mianmar retirou a cidadania dos Rohingya em 1982 e o rebaixamento aumentou a violência sectária da maioria budista, apoiada pelo exército. Conflitos armados e ataques militares tornaram-se mais frequentes a partir do início da década de 90 e o fluxo de refugiados muçulmanos cruzando a fronteira não parou desde então.

Usnar Ara Begum, 40, fugiu com sua família da perseguição e das torturas do exército birmanês em 1991 e mora no acampamento desde então. Em 2017 perdeu a fonte de renda do corte de madeira quando viu as árvores do entorno darem lugar a barracos enquanto a população do local aumentava em 600%. Mas há dois meses ela aproveitou o maior movimento para abrir uma lojinha com o mais velho dos cinco filhos.

Viúva há oito anos, de semblante fechado e dentes manchados de paan, mistura de folhas e sementes muito mascada na região, Usnar é das poucas mulheres que trabalham fora de casa nos acampamentos dos Rohingya. Vende de chips a relógios e de cigarros a doces e já pagou 2.000 das 10.000 takas (24 de 120 dólares) que pegou emprestado de parentes. No barraco com goteiras vão outras 1.000 takas (12 dólares) de aluguel, pagas para um morador da vila próxima. “Quero casar minhas filhas e mudar para uma loja maior. Tenho muitos sonhos”, afirma.

O rendimento médio mensal entre 7.500 e 15.000 takas (de 90 a 180 dólares) de comerciantes como ela não é o suficiente para pequenos luxos. Como o de diversificar a dieta de arroz e lentilha com legumes, carne, frango e peixe dos mercados próximos, e o de poder comprar de bolachas e doces até vestidos e celulares.

Abdul Hafez, 15, sonha em ter sua própria loja de roupas no acampamento onde nasceu e viveu a vida toda. Enquanto não chega lá, nos últimos meses passou a se arriscar escondido em táxis para burlar quatro barreiras militares até a cidade de Cox’s Bazar, a 30 quilômetros de Kutupalong.

A viagem é perigosa porque os refugiados Rohingya, novos e antigos, não podem deixar a área. Mas os carrinhos, bolas de plástico e as muitas armas de brinquedo que exibe em um lençol na rua fazem o aperto valer a pena. As crianças recém-chegadas e até o único concorrente, um menino cinco anos mais velho, são os maiores clientes.

O irmão mais novo, de dez anos, assume as vendas na parte da manhã e Abdul, dá expediente de tarde. “Meus pais não podem trabalhar, então eu ajudo”, explica. Parte das 500 takas (6 dólares) que fatura por dia compra calças jeans novas e camisas polo. “Se a criança não tem dinheiro, mas paga o que eu gastei para comprar os brinquedos às vezes eu vendo também”, confessa generoso.

ABDUL HAFEZ: com 15 anos, ele vai escondido à cidade comprar brinquedos para vender aos refugiados / Foto: Roberto Saraiva

Um modelo para boa parte dos empreendedores do acampamento é Addur Rohim. Chegou há 12 anos e há sete, após a morte da mãe, abriu uma quitanda num puxadinho em sua casa. Um sócio de Bangladesh fornece os legumes e frutas bonitas, mas cobertas de moscas, que ele pesa e vende sem parar. “Todo o dinheiro da loja vai para a minha esposa e meus três filhos. Não quero depender de ajuda humanitária, por isso abri o negócio”, explica.

A improvável combinação de paletó cinza, camisa azul, calça social vinho e um grande relógio reflete as boas vendas, um faturamento que chegou a 4.000 takas (48 dólares) por dia com a chegada de mais refugiados. Addur não se ilude em relação às possibilidades de se naturalizar em Bangladesh ou mesmo de voltar a Mianmar com cidadania. O dinheiro paga por uma vida independente e pelo conforto possível em um lugar como Kutupalong.

Ajuda que vem de fora

A maioria dos refugiados depende, e muito, de ajuda humanitária. Um grande grupo de coordenação divide as necessidades básicas dos Rohingya em diferentes frentes e impede que as centenas de organizações em campo acabem se atropelando na hora de tentar ajudar. Saúde, Segurança Alimentar, Proteção e outros setores são lideradas por agências das Nações Unidas que direcionam as ONGs parceiras.

A comida é responsabilidade da WFP (World Food Programme), braço da ONU que enfrenta emergências alimentares em crises humanitárias. O time de 24 ONGs entrega até 60kg de arroz, 13,5kg de lentilha e seis litros de óleo de cozinha por família de oito ou mais pessoas em uma grande rodada de distribuição a cada 15 dias.

A OMS (Organização Mundial da Saúde) conta com os recursos e pessoal de 80 organizações, entre elas a Médicos sem Fronteiras, Cruz Vermelha e BRAC, gigante local focada em saúde e desenvolvimento com cerca de 100.000 funcionários diretos e indiretos. A missão principal é combater infecções como a difteria, responsável por 4.000 casos suspeitos e 31 mortes até o momento. As campanhas de vacinação do grupo já imunizaram 83% das crianças.

Um em cada dois Rohingya em Bangladesh tem menos de 15 anos segundo a agência da ONU para refugiados. Para as crianças desacompanhadas é alto o risco de sequestro, trabalho infantil e casamento precoce, traço cultural exacerbado pela necessidade, já que novas famílias têm direito a cotas próprias de comida da WFP. A proteção a elas e às mulheres fica com duas agências da ONU, a UNFPA, para populações, e a UNICEF, para a infância.

Cerca de 90% da água consumida nos barracos está contaminada por conta das condições sanitárias precárias causadas pela superpopulação. Para melhorar o quadro, um grupo de 42 ONGs liderado pela Ação Contra a Fome e a UNICEF instalou 5.301 poços manuais e 44.493 banheiros temporários. O desafio agora é garantir que as latrinas sejam limpas com frequência e resistam à temporada dos ciclones, que começa em maio e pode provocar um surto catastrófico de cólera.

Pequenas organizações não-governamentais de Bangladesh trabalham em várias dessas frentes ao mesmo tempo e tentam transcender seu alcance, mão de obra e recursos limitados.

Com menos de dez funcionários próprios, por exemplo, a Moonlight Development Society depende de doações e do trabalho voluntário de médicos, nutricionistas e dentistas, a maioria estrangeiros, para operar um campo médico e um “Friendly Space” para crianças no acampamento de Chakmarkul.

Para as refugiadas, conversas sobre higiene íntima e “alarmes de segurança”, pequenos aparelhos que quando ativados fazem barulho e desencorajam possíveis ataques sexuais. Cerca de 5.500 casos de violência de gênero já foram registrados nos acampamentos, inclusive estupros. “Estamos aguardando autorização do governo para abrir outra enfermaria, um espaço para mulheres e um centro de alimentação para crianças e mães desnutridas”, conta Zannat Haque, uma das coordenadoras.

Já a Dole International, que financia suas atividades fechando parcerias com ONGs islâmicas, principalmente da Turquia, foca suas ações em Kutupalong. Três vilas modelo, com cerca de 100 casas cada uma, madressa (escola islâmica), salão de orações e cozinha já foram construídas.

Outras iniciativas incluem a distribuição de refeições quentes, importante para variar a dieta dos refugiados, e até mutirões de circuncisão. “Somos todos profissionais de diferentes áreas, mas sentimos que precisávamos nos juntar e fazer algo pelos Rohingya”, explica o fundador da ONG, Saidul Rizvee.

O CAMPO DE REFUGIADOS DE KUTUPALONG: 600.000 pessoas conta com doações e multirões para superar uma situação especialmente difícil para crianças e mulheres / Foto: Ruben Luz

O papel dos países 

A crise humanitária mobilizou governos de diferentes matizes ideológicas e até alinhados com diferentes lados do conflito. Apesar de já estar negociando a repatriação dos Rohingya com Mianmar, Bangladesh não teve muita escolha a não ser abrir os bolsos para garantir uma estrutura mínima para eles e para a ONU e ONGs.

Os dois países mantém relações cordiais e marcadas pelo fluxo de refugiados. A proximidade cultural, linguística e religiosa, e uma fronteira porosa, faz de Bangladesh um destino óbvio para os Rohingya sempre que a violência sectária explode em Mianmar.

O exército bangladeshi comanda a abertura de estradas dentro dos acampamentos e ligando uns aos outros, obras avaliadas em 5 milhões de dólares. Os soldados também construíram 10.000 banheiros. E o país cedeu equipes médicas para atuar diretamente nos acampamentos.

É dos Estados Unidos, porém, a ajuda mais vultosa. Depois de chamar a ação de Mianmar de limpeza étnica e suspender a ajuda militar, os americanos destinaram 83 milhões de dólares para o trabalho de agências como a IOM (Organização Internacional para Migração), UNHCR, UNICEF e WFP na região.

A Inglaterra enviou 40 médicos, enfermeiros e bombeiros para Bangladesh no fim do ano passado para ajudar no combate à difteria. Com doações a ONGs parceiras em solo, a administração britânica estima ter gastado cerca de 81 milhões de dólares desde o início da crise, em 25 de agosto.

O governo canadense decidiu dobrar o valor doado por pessoas físicas a qualquer ONG da Aliança Humanitária, grupo que concentra respostas a emergências internacionais. Desembolsou 12,5 milhões de dólares e colocou mais 25 milhões para financiar iniciativas dos dois lados da fronteira.

A China, aliada do governo de Mianmar e uma das barreiras à imposição de sanções ao país na ONU, destinou 150 toneladas de materiais para os refugiados, sendo 2.000 barracas e 3.000 cobertores. O Brasil manteve-se distante da crise até o momento e não fez nenhuma doação.