Economia da Nigéria passa África do Sul, mas oculta pobreza

Maior produtor de petróleo da África vive um paradoxo onde quanto mais se enriquece, mais nigerianos vivem na pobreza

Abuja – À medida que a Nigéria se enriquece, mais nigerianos vivem na pobreza. É o paradoxo do crescimento no maior produtor de petróleo da África, o país mais populoso do continente e, possivelmente, sua maior economia a partir do dia 31 de março.

A Secretaria Nacional de Estatística está recalculando o valor do PIB conforme os padrões de produção em 2010, a primeira reforma dos dados em duas décadas. Isso poderia aumentar o tamanho da economia em até 60 por cento para entre US$ 384 bilhões e US$ 424 bilhões, conforme a Renaissance Capital Ltd., com sede em Londres, o que colocaria a Nigéria acima da África do Sul e próxima da Áustria e da Tailândia na lista da liga global do Banco Mundial.

Contudo, a pesquisa mais recente sobre pobreza da agência nigeriana de estatística, publicada em 2012, mostra que 61 por cento dos nigerianos viviam com menos de um dólar por dia em 2010, frente a 52 por cento em 2004. Na região desértica do norte do país, onde Anistia Internacional estima que mais de 600 pessoas tenham sido assassinadas neste ano enquanto o governo luta por reprimir uma insurgência islamita violenta, a pobreza é ainda mais dura.

“A redução da pobreza e da iniquidade não requer somente um crescimento econômico justo, mas também a criação de empregos e investimentos para melhorar a capacidade produtiva da economia e do seu povo”, disse por e-mail Giulia Pellegrini, economista da JPMorgan Chase Co. para a África Subsaariana em Londres.

Essas tensões ressaltam as insuficiências da potência econômica da região, cujo potencial de crescimento estimulou investimentos de empresas como a Procter Gamble Co., com sede em Cincinnati, e o MTN Group Ltd., a maior operadora de celulares da África. Embora a economia da Nigéria tenha se expandido 6 por cento por ano desde 2006, conforme o Banco Mundial, o fornecimento de energia do país é de menos de um décimo do da África do Sul.

Dependência do petróleo

A produção de petróleo está concentrada no sul. A receita representa cerca de 80 por cento dos fundos do governo e mais de 95 por cento da renda estrangeira, segundo o Ministério das Finanças. O governo antecipa uma renda com petróleo e gás de 7,16 trilhões de naira (US$ 44 bilhões) em 2014.


A taxa de desemprego entre os nigerianos jovens poderia solapar o progresso econômico em um país onde 23,9 por cento da população em idade laboral está desempregada, conforme dados do World Factbook da CIA. A publicação estima que 62 por cento dos 177 milhões de habitantes do país tenham menos de 25 anos.

O norte é particularmente vulnerável, com taxas de pobreza estimadas de cerca de 80 por cento, segundo Oyin Anubi, economista do Bank of America Merrill Lynch para a África Subsaariana em Londres.

Uma das razões pelas quais dezenas de milhões de nigerianos ainda vivem na pobreza é que o crescimento se concentrou em setores com um emprego menos intensivo de mão de obra, como o petróleo, as telecomunicações e a banca. O desenvolvimento da agricultura, a maior empregadora da economia, foi em grande parte ignorado pelo governo até recentemente, disse Funmi Akinluyi, diretor de investimentos da Silk Invest, especialista em mercados fronteiriços com sede em Londres.

Ranking empresarial

Embora o impulso do PIB possa melhorar a perspectiva de investimentos para a Nigéria, o progresso social é lento. A Nigéria é, junto com o Afeganistão e o Paquistão, um dos únicos três países no mundo onde a poliomielite ainda é endêmica, conforme a Federação Internacional de Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho .

O salto da Nigéria na lista da liga de riqueza poderia intensificar o escrutínio da administração do presidente Goodluck Jonathan.

“A maior visibilidade econômica deve aumentar a pressão para que o governo federal realize reformas econômicas, obras de infraestrutura e a criação de empregos necessários para sustentar a atual trajetória de crescimento do PIB”, disse Adewale Okunrinboye, analista da ARM Asset Management, com sede em Lagos, que gerencia o equivalente a cerca de US$ 2,7 bilhões em ativos, em resposta por e-mail a questões.