Desaceleração do setor de serviços não deve aliviar inflação

Desempenho fraco do setor não deve reduzir inflação a curto prazo. Para economista, alívio nos preços deve ocorrer somente a partir da metade do ano

São Paulo – O fraco desempenho da atividade do setor de serviços em 2014, reforçado pela Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) de novembro, deve se consolidar nos próximos meses, mas não necessariamente vai se traduzir em grande alívio para a inflação deste segmento no curto prazo. A avaliação é de economistas consultados pelo Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, que alertam para a grande pressão de custos que deve limitar a reação dos preços à queda da demanda.

Segundo o IBGE, a receita bruta nominal dos serviços subiu 3,7% em novembro de 2014, ante igual mês de 2013, no pior resultado da série histórica iniciada em janeiro de 2012, com altas de 6,2% no ano e de 6,4% em 12 meses, até novembro. Cálculos realizados pelo economista sênior da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Fábio Bentes, apontam, a partir dos número do IBGE, que a receita real caiu 4,7% em novembro na comparação anual. A projeção do economista para 2014 é de que a receita real de serviços fique negativa entre 2% e 2,5%, o que seria a primeira queda anual da receita real do setor na série histórica.

Diante desse cenário e de todas as medidas de aperto monetário e fiscal que estão em curso, é de se esperar um ritmo menor da alta de preços de serviços, que em 2014 acumularam inflação de 8,32% pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Na avaliação dos analistas, esse arrefecimento virá em ritmo lento, dado o aumento de custos importante na inflação subjacente de serviços, como o avanço dos salários, principalmente o mínimo, e de preços administrados, que estão rodando acima da inflação geral.

“Trabalhamos com previsão de 7,3% para inflação de serviços este ano. É um patamar ainda alto porque ainda vai se materializar o efeito da desaceleração econômica e o impacto sobre os preços se dará aos poucos”, afirmou a economista de inflação da MCM Consultores, Basiliki Litvac.

Para o economista Pedro Ramos, do Banco Cooperativo Sicredi, é mais plausível pensar num alívio nos preços somente a partir da metade do ano, quando o mercado de trabalho deve estar mais pressionado pelos efeitos do aperto monetário e fiscal. Segundo ele, em termos de atividade, o quadro para os serviços não é tão favorável, mas está longe do que vem ocorrendo com a indústria, que está parada. “Deve haver alguma dificuldade de repassar aumento de custos e as margens estarão mais espremidas, mas algum repasse vai haver”, disse o economista, que vê o acumulado no final do ano “mais perto de 8% do que de 7%”.

Ramos destacou ainda que o setor tem um perfil bastante heterogêneo, com alguns segmentos mais ou menos sensíveis à renda. “Educação e Saúde, por exemplo, são intensivos em mão de obra e, com isso, bastante indexados e não devem ter problema com demanda”, observou. Na visão do economista, caso a queda da demanda não deixe espaço para recomposição de preços afetados pelo custo, o setor pode começar a demitir. “Se os ajustes via dissídio pressionarem demais, pode ser que os empresários repensem a mão de obra, mas não vejo quadro catastrófico de demissão massiva”, disse.

O economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luis Otávio de Souza Leal, acredita ser praticamente impossível a inflação de serviços desacelerar para uma taxa inferior a 7% este ano, dada a pressão de preços como os de aluguel, mensalidades e material escolares, além de empregado doméstico, que tendem a ter altas significativas em 2015. “Só esses três itens são um terço de serviços. Mesmo que a tendência natural do setor seja de desaceleração, são três itens que vão afetar fortemente. É praticamente impossível os serviços saírem dos níveis de 8%, 9% para abaixo de 7%”, analisou.

Um arrefecimento, disse, pode acontecer somente a partir de 2016, diante de um provável aumento real zero do salário mínimo, menor pressão dos serviços “intuitivos” (prestadores de serviços) e provavelmente redução nos preços dos aluguéis por conta de um eventual desaquecimento do mercado imobiliário. “Devem ajudar na convergência da inflação (para o centro da meta de 4,5%) mais para 2016”, estimou.

O estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno, acredita que o grupo Serviços comece a perder o papel de grande vilão da inflação doméstica dos últimos anos somente no médio a longo prazo. Segundo ele, diante da necessidade de reajustar os preços administrados e de repassar o efeito da desvalorização do câmbio de 2014 para 2015, o setor pode trazer algum alívio mais significativo para a inflação apenas em 2016. “E isso tem que vir também por meio do desaquecimento da atividade e, consequentemente, do emprego”, disse. “A desaceleração de serviços deve acontecer de forma gradual. É um setor mais resiliente ao arrefecimento econômico”, explicou.

Rostagno acredita que a inflação de serviços engate trajetória descendente, devido à mudança no mix de crescimento econômico, saindo de consumo para investimento. “A partir de 2016, os preços administrados já passariam a subir mais em linha com a meta de inflação, assim como os serviços e também os ‘tradables’ (produtos que sofrem influência do câmbio), em virtude da expectativa de que o ritmo de desvalorização do câmbio diminua, com a Selic mais alta e os ajustes fiscais que estão sendo feitos”, analisou.