Derivados do trigo no IPC mostram repasse de câmbio

Segundo economista da FGV, pressão decorre de problemas climáticos, advindos das geadas nas regiões produtoras no Brasil e Argentina

São Paulo – O efeito da depreciação cambial já está aparecendo com mais força em alguns produtos vendidos no varejo, especialmente nos derivados do trigo. Os preços dos panificados e biscoitos saíram de queda de 0,18% em julho para alta de 0,97% em agosto no âmbito do Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M).

O índice geral no período ficou em 0,15%, ante 0,26%. “(Em julho) Os panificados ainda não estavam sofrendo as novas pressões do trigo (por causa do câmbio). E devem começar a aparecer mais neste mês de setembro”, avaliou o coordenador dos IGPs da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Salomão Quadros.

Segundo o economista, a pressão também decorre de problemas climáticos, advindos das geadas nas regiões produtoras no Brasil e Argentina.

Segundo ele, a cotação do trigo nos últimos quatro meses – período em que o câmbio começou a se desvalorizar de maneira mais intensa – teve alta de cerca de 19%.

No acumulado em 12 meses até agosto, a valorização do cereal é de mais de 56%. “É efeito de câmbio. O trigo também já subiu muito no ano passado. Alguns repasses estão acontecendo e vão continuar acontecendo”, afirmou. O pão francês também ficou mais caro em agosto, ao avançar 1,19%, ante 0,50%.

Além do aumento dos derivados do trigo, outros produtos alimentícios também ajudaram o grupo Alimentação, dentro do Índice de Preços ao Consumidor (IPC), a diminuir a queda em agosto, para -0,03%, após recuo de 0,48% em julho.

Quadros citou como exemplo os laticínios, que estão subindo há algum tempo, e avançaram 3,06% em agosto, depois de aumento de 2,74%, e as carnes bovinas (de 0,11% para 0,70%). “Reflete problema de oferta”, disse. Já os in natura cederam 1,75% contra deflação anterior de 6,64%.


De acordo com Quadros, a perspectiva é que o grupo Alimentação continue a pressionar os preços em setembro, influenciado com mais força pela alta do dólar. Ele, contudo, afirmou que, ao contrário de anos anteriores, o efeito cambial está ocorrendo de forma gradual sobre os preços, provavelmente em linha com a atividade mais fraca.

Quanto ao Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), que registrou, em agosto, variação de 0,31%, abaixo do resultado de julho, de 0,73%, Quadros traça um cenário mais otimista. “Não tem nenhuma data-base este mês, é um período de taxas modestas”, avaliou.

Atacado

Apesar dos reflexos do câmbio também no atacado, o pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Ibre/FGV) disse que o Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), que subiu 0,14% em agosto, depois de elevação de 0,30%, foi essencial para a desaceleração do IGP-M do período. “Como o IPA (60%) pesa mais que o IPC (30%), ele foi o principal motivo”, afirmou.

“As duas prévias do IGP-M ficaram próximas a esse resultado (de 0,15%). Só no finalzinho do mês é que tivemos algumas poucas acelerações, mas nada que tenha feito o índice ficar muito diferente”, disse, ao referir-se ao aumento da soja no mercado internacional recentemente por causa de temores de que o clima seco no Meio-Oeste dos EUA comprometa o rendimento das lavouras. O IGP-M da primeira leitura do mês ficou em 0,11% e acelerou a 0,13% na seguinte.

Depois de subir 4,92% no fechamento de julho, o preço da soja caiu 2,82% na primeira leitura de agosto, recuou 4,48% na segunda e encerrou o mês em baixa de 3,77%. “É uma queda que combina o efeito em Chicago com a desvalorização cambial”, disse.