Debate euro-dracma e austeridade marcam campanha grega

Os conservadores do Nova Democracia (ND) acusam os esquerdistas do Syriza de planejarem revogar o memorando assinado com a União Europeia (UE)

Atenas – As eleições de 17 de junho na Grécia serão, para os cenários interno e externo do país, como um plebiscito sobre a continuidade do país na zona do euro, apesar de os dois partidos favoritos defenderem a permanência na moeda única, embora com claras diferenças.

Os conservadores do Nova Democracia (ND) acusam os esquerdistas do Syriza de planejarem revogar o memorando assinado com a União Europeia (UE) – que define o resgate de até 130 bilhões de euros em troca de mais medidas de austeridade – e levar o país de volta ao dracma.

O Syriza acredita que a substituição das medidas de austeridade por outras de crescimento seja a única maneira de continuar na zona do euro, e vê o memorando como a via “automática” para a quebra do Estado e o abandono da moeda comum.

As contas do Estado grego não estão claras, apesar da redução da dívida, em março, de quase 370 bilhões para 280 bilhões de euros (ainda falta somar os empréstimos dos parceiros à Grécia). Segundo a imprensa grega, a arrecadação de impostos caiu 20% em maio pela instabilidade no país e a incerteza, entre outras causas.

Além disso, o governo dos social-democratas e conservadores aprovou o adiamento no pagamento de declarações da renda anual. Os temores de que o Estado entrará em moratória nas próximas semanas ou meses aumentaram, enquanto a falta de liquidez já começou a afetar o funcionamento de hospitais e distribuição de remédios.

Em entrevista ao jornal belga “De Tijd”, o ex-primeiro-ministro Lucas Papademos disse que o novo governo “terá pouca margem de manobra”.

A Comissão Europeia também já se manifestou sobre o assunto. “A Grécia deve pôr em prática as medidas descritas no memorando assinado em 14 de março. A assistência financeira integrada da comunidade internacional só será implementada por meio de melhorias”, disse.


Segundo a Comissão, a economia grega se contrairá em 2012 pelo quinto ano consecutivo em 4,75%, embora alguns analistas acreditem que o número se aproximará dos -6,9% registrado no ano passado.

A recessão e a austeridade provocaram um aumento do desemprego de até 22%, fechamento de um terço de estabelecimentos comerciais de Atenas e queda do poder aquisitivo de grande parte dos gregos pela metade, enquanto mais de um quarto da população vive abaixo da linha de pobreza.

Diante de tal cenário, o Syriza defende uma mudança radical: o fim da austeridade, a investigação da dívida contraída por governos anteriores e a nacionalização de bancos e empresas. Com o plano, a esquerda pretende conseguir o voto dos descontentes.

O problema é que estas medidas demandam fundos dos quais a Grécia não dispõe atualmente, a não ser que o país decrete uma moratória da dívida. No entanto, essa decisão faria com que o país provavelmente enfrentasse seus parceiros europeus (que possuem 75% da dívida grega).

“Achamos que a Alemanha não nos deixará cair, porque seríamos seguidos por Espanha, Portugal e, inclusive, a Itália, o que provocaria a quebra da zona do euro”, disse uma fonte do Syriza à Agência Efe.

“O programa do Syriza não representa a saída da UE ou da zona do euro, mas é o único caminho para deixar a crise”, disse na última sexta-feira o líder da legenda, Alexis Tsipras, em reunião com representantes diplomáticos dos países do G20. O político definiu seu partido como “a esquerda do século XXI”, tentando unir socialismo com democracia e liberdade.

“Queremos buscar uma solução com nossos parceiros, mas esta solução deve cessar a destruição atual, a redução do PIB, o aumento do desemprego, a redução dos salários e as despesas vitais do Estado com saúde e segurança”, acrescentou.

Antonis Samaras, líder do ND, criticou o “populismo” de Tsipras, acusando que a “verdadeira agenda” da formação é tirar o país da moeda comum, o que significaria a “morte” para a Grécia.

No entanto, a questão é que, em sua campanha eleitoral, Samaras também criticou o memorando, apesar de em fevereiro ter enviado uma carta aos parceiros europeus se comprometendo a cumpri-lo.