Crise na Argentina corta 0,5 ponto do crescimento do Brasil, diz estudo

Estudo de Luana Miranda e Mayara Santiago, da FGV, calcula efeito da crise econômica do vizinho sobre as exportações brasileiras

São Paulo — O baixo crescimento da economia brasileira em 2019 pode ser explicado em parte pela crise na Argentina, de acordo com um estudo das economistas do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), Luana Miranda e Mayara Santiago. 

O cálculo é baseado em um modelo que considera a evolução histórica da quantidade exportada do Brasil para a Argentina e da taxa de câmbio real bilateral entre os dois países, assim como um cenário elaborado pelo FMI para o crescimento da demanda interna argentina no resto deste ano.

O efeito de perda do PIB brasileiro foi estimado em 0,2 ponto percentual em 2018, quando o país cresceu 1,1%, e de 0,5 ponto percentual sobre o crescimento de 2019, estimado em 0,85% pelo governo e em 1,1% pelo Ibre.

O principal impacto se dá pela redução do comércio, já que a Argentina é o terceiro principal destino das exportações brasileiras. De janeiro a agosto de 2019, foram exportados para o vizinho R$ 6,7 bilhões.

A título de comparação, a China comprou US$ 41,5 bilhões do Brasil no período e os Estados Unidos, no segundo lugar, US$ 19 bilhões, de acordo com o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços.

Crise

A Argentina viu uma piora da sua crise econômica a partir de 2018 devido a fatores como uma forte seca e aumentos dos juros do Federal Reserve, banco central americano, já que grande parte da sua dívida é denominada em dólar.

As exportações brasileiras para o vizinho começaram a cair no segundo trimestre de 2018 e se deterioraram rapidamente.

No terceiro trimestre de 2018, elas caíram 25% sobre o mesmo período do ano passado. No trimestre seguinte, a queda foi ainda maior: 45%, também no interanual.

Em 2019, a situação da Argentina se agravou diante da piora de indicadores financeiros com a perspectiva de derrota do atual presidente Mauricio Macri nas eleições de outubro.

“Um país que enfrenta recessão, explosão da inflação, moeda desvalorizada, aumento do endividamento e desemprego tem uma situação muito difícil. Com isso, a demanda doméstica argentina caiu muito”, explica uma das autoras do estudo, Luana Miranda.

60% das nossas exportações para a Argentina são de bens intermediários, que são partes e peças que compõe a cadeia produtiva. 

Além dos já conhecidos efeitos sobre a indústria automobilística, o Brasil também exporta para o vizinho produtos classificados como “insumos industriais elaborados”, que representam 31,5% das exportações.

A conclusão do estudo é que as exportações mais fracas daqui para lá teriam reduzido o crescimento de valor adicionado da indústria de transformação brasileira de 2,2% em 2018 para apenas 1,3%.

Em 2019, o setor deve crescer só 0,2% (projeção do próprio Ibre), muito abaixo do que o potencial anterior calculado em 2,1%.

Para a pesquisadora do Ibre, uma forma de compensar crises em parceiros é focar na melhora do ambiente interno.

“A gente precisa de reformas estruturais. Precisamos trabalhar para ter mais produtividade, para que as pessoas e o capital sejam mais produtivos”, diz ela.

Apesar das críticas de Jair Bolsonaro à chapa favorita para governar a Argentina a partir de 2020, formada por Alberto Fernández e Cristina Kirchner, o Brasil não pode escapar de lidar com o parceiro.

Na semana passada, os países assinaram um acordo que prevê livre comércio para o setor automobilístico e que será implementado ao longo de 10 anos. 

A abertura comercial é um dos eixos da política econômica do governo Bolsonaro. Além do entendimento com a Argentina sobre automóveis, o Brasil também firmou um acordo do Mercosul com a União Europeia, que ainda precisa ser aprovado, e tenta uma aproximação com os Estados Unidos.