Crise: contaminação do Brasil dependerá da China, diz Gustavo Loyola

Ex-presidente do Banco Central avalia que, se a China conseguir manter um bom ritmo de crescimento, o Brasil não sofrerá tanto

São Paulo – O desempenho da China vai determinar o grau de contaminação do Brasil em caso de agravamento da crise nos países desenvolvidos, na avaliação do economista Gustavo Loyola.

Em entrevista a EXAME.com, o ex-presidente do Banco Central diz que os preços das commodities exportadas pelo Brasil dependerão da atividade doméstica chinesa.

Em um eventual cenário de esfriamento da economia brasileira, Loyola sugere que o governo utilize instrumentos monetários (juros e compulsório) para aquecer o consumo. “Há menos espaço do lado fiscal, pois a gente abusou um pouco na última crise.”

O economista, que é sócio da Tendências Consultoria, afirma que a recente intervenção do governo no câmbio “foi uma decisão totalmente equivocada”. Veja os principais trechos da entrevista.

EXAME.com – Como o senhor avalia o atual cenário econômico?

Gustavo Loyola – Eu acho que as perspectivas são de, no mínimo, uma crise de crescimento principalmente na Europa, nos Estados Unidos e no Japão. Aquela recuperação que vinha ocorrendo nos Estados Unidos acabou se mostrando menos vigorosa e os problemas fiscais, principalmente na Europa, têm aumentado a aversão ao risco e causado quedas de preços das ações, enfim, houve reavaliação do cenário em todo o mundo.

EXAME.com – O quadro é realmente grave?

Loyola – Eu particularmente não acho que exista um risco fiscal que possa ser levado muito a sério. No caso dos Estados Unidos, esse rebaixamento do rating – embora seja algo inédito – não tem muitas consequências se visto isoladamente. A questão é que a sinalização nos próximos anos é de que faltarão instrumentos nos países desenvolvidos para lidar com uma economia de baixo crescimento e é isso que está causando essas incertezas.


EXAME.com – Quando o senhor fala em baixo crescimento, não chega a ser um duplo mergulho recessivo, certo?

Loyola – O duplo mergulho não é um cenário a ser descartado, mas o mais provável é de um crescimento baixo durante um período mais longo. Evidentemente, os países emergentes terão um desempenho melhor do que o dos países desenvolvidos. Porém, tudo acontecerá em um contexto de crescimento global menor que, evidentemente, acaba atingindo também esses países.

EXAME.com – Há algo mais que o Federal Reserve possa fazer para impulsionar a economia americana?

Loyola – Eu acho que não. A única coisa que eles poderiam fazer é não recolher o quantitative easing 2 (QE2), mantendo-o por mais tempo, assim como a taxa de juros deve permanecer baixa. Acho que seria muito cedo falar em um quantitative easing 3.

EXAME.com – De que forma isso tudo poderá respingar na economia brasileira?

Loyola – São basicamente dois canais. O primeiro é o canal dos fluxos de capitais. Uma reversão nos fluxos não preocupa tanto porque o Brasil tem reservas elevadas em moeda estrangeira, mas pode tirar a liquidez do mercado e afetar a taxa de câmbio. O segundo canal é o de commodities. Se o cenário mundial de menor crescimento ou até recessivo trouxer uma queda nos preços de commodities, o Brasil, como grande produtor e exportador, acaba sendo atingido.

EXAME.com – Nesse contexto de commodities, a chave é a China?

Loyola – Sim, a chave é a China. Se ela conseguir manter um mercado interno vibrante, anulará os efeitos negativos da queda das suas exportações. E se ela conseguir isso, mantem-se um certo nível de demanda por commodities, impedindo uma queda muito forte dos preços dessas mercadorias. A China é um peão muito importante nessa questão. Se houver a manutenção de um mínimo de atividade econômica na China, digamos, um crescimento de 8%, os efeitos serão relativamente modestos no Brasil.


EXAME.com – O que deve fazer o Banco Central do Brasil?

Loyola – Olhando estritamente as condições inflacionárias no Brasil, deveríamos ter ainda aumento de juros. Dadas as incertezas, no entanto, se a reunião do Copom fosse hoje, eu diria que o Banco Central talvez optasse por uma parada técnica para observar melhor o que está acontecendo. No dia da reunião do Copom (no final de agosto), essas incertezas provavelmente ainda estarão presentes, tornando grandes as chances de o Banco Central não aumentar os juros.

EXAME.com – Além de mexer nos juros, o que mais o governo pode fazer em caso de agravamento da crise?

Loyola – Se houver uma redução muito forte da liquidez aqui dentro, o governo pode liberar os depósitos compulsórios. Eu acho que há menos espaço do lado fiscal. A gente abusou um pouco da expansão fiscal na última crise, inclusive através de empréstimos do BNDES. Além disso, em 2012, haverá uma piora do superávit por causa do aumento do salário e da necessidade de se investir em infraestrutura, o que sugere uma reação do governo mais do lado monetário do que fiscal. Eu acho que a política fiscal deveria seguir uma linha mais conservadora no ano que vem ainda que num contexto de baixo crescimento.

EXAME.com – O senhor destacou no início da entrevista que o dólar pode subir em caso de agravamento da crise. O governo não foi muito precipitado ao adotar medidas cambiais?

Loyola – Eu acho que o governo errou principalmente na decisão de taxar os derivativos. Só serve para prejudicar o exportador e logo num momento em que tudo indicava que a tendência maior era de depreciação do real. Não achei que foi brilhante, não, para dizer o mínimo. Foi uma decisão totalmente equivocada.