Crise chega ao holerite dos executivos

O que o executivo sente na pele já começa a ficar evidente nas pesquisas de salários feitas por consultorias de recursos humanos

São Paulo – Em 2013, o executivo Renato Urvaneja recebeu um convite difícil de recusar. Trocou a região de Campinas, em São Paulo, por Curitiba – onde o custo de vida é mais baixo – para assumir o posto de diretor financeiro na Plastic Omnium.

Dispensado do cargo em abril após um corte de custos do grupo francês, o executivo se depara, apenas dois anos mais tarde, com um cenário completamente diferente: o mercado agora está cheio de talentos, e as oportunidades são poucas.

“Fatalmente vou ter de aceitar um salário 25% a 30% mais baixo do que no meu último emprego”, diz Urvaneja, 50 anos.

O que o executivo sente na pele já começa a ficar evidente nas pesquisas de salários feitas por consultorias de recursos humanos. Um levantamento da Page Executive, divisão de altos cargos da Michael Page, mostra uma freada brusca na remuneração.

De 2013 para 2014, a renda anual total de um presidente de multinacional que fatura de R$ 100 milhões a R$ 500 milhões no Brasil havia subido 8,5%, para R$ 1,045 milhão.

Em 2015, no entanto, a renda anual caiu 11,2%, para R$ 928 mil. A retração real, no entanto, é maior, pois os números da consultoria não levam em consideração a inflação de 12 meses – que supera a marca de 9%.

Especialistas em captação de talentos afirmam que o humor do mercado mudou totalmente.

Segundo Fernando Andraus, diretor executivo da Page Executive, o tempo em que os profissionais qualificados podiam mudar de emprego a cada dois anos – e receber vultuosos aumentos a cada troca – ficou para trás.

A queda na remuneração total, segundo Andraus, pode ser explicada por dois fatores.

Em primeiro lugar, os salários mensais dos executivos, que ainda respondem pela maior parte da renda total mesmo no alto escalão, pararam de subir; em segundo, com a piora sensível dos resultados das empresas, os bônus pagos ao fim de cada ano foram reduzidos.

“Hoje, quando um executivo precisa se recolocar, ele provavelmente terá um pequeno decréscimo no rendimento”, diz Andraus. “A empresa, quando decide substituir alguém no alto escalão, vai provavelmente pagar um pouco menos para o novo contratado. Apesar disso, a gente ainda está muito longe do que aconteceu na Espanha há alguns anos, onde os salários caíram pela metade por causa da crise.”

No Brasil, diz Andraus, os salários não caem tanto porque existe deficiência de mão de obra qualificada.

Descompasso

As oportunidades, no entanto, só não secaram de vez porque, em muitas companhias, existe um “descompasso” entre o talento do executivo contratado há alguns anos e a necessidade dos negócios hoje. Até 2013, o mercado buscava gente capaz de levar o negócio ao crescimento, mesmo que isso significasse investir e contratar mais.

Hoje, a demanda é por um executivo bom de corte de custos, que possa “segurar as pontas” até que um novo ciclo de expansão se inicie.

“Quando a empresa está crescendo, pode até deixar ali o funcionário que está com desempenho mediano. Mas, num ambiente incerto, a tendência é a busca da melhor performance. É o que está movimentando o mercado de head hunting neste momento.”

Outra tendência de mercado, segundo Fabrizio Forti, consultor da consultoria Hay Group, é a migração para uma forma de remuneração que priorize o variável, como já ocorre nos Estados Unidos.

Ou seja: o executivo recebe conforme o lucro que traz para o negócio. Entre 2012 e 2014, segundo a consultoria, a participação do salário-base na remuneração do executivo caiu de 51% para 44%. Dados preliminares da Hay Group para este ano mostram uma nova redução, para cerca de 33%.

Outro consenso de mercado é que o tempo de espera para que a empresa bata o martelo referente a contratações deve aumentar. É outra tendência que o executivo Renato Urvaneja, que procura uma posição há três meses, já percebeu.

“Acho muito difícil que eu encontre uma oportunidade em menos de seis meses.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.