Como usar a economia para arrumar um(a) namorado(a)

Para economista, arrumar namoro não é muito diferente de arrumar emprego: todo mundo exagera no currículo e não dá para ter expectativas irreais

São Paulo – Aos 47 anos e com o fim de um longo casamento, o economista Paul Oyer se viu obrigado a mergulhar no temível mundo do namoro online.

Depois de alguns encontros, ele percebeu que poderia aplicar na busca por uma parceira as mesma ideias que ensina como professor na Universidade de Stanford, na Califórnia.

As analogias eram tão frequentes que Oyer decidiu escrever um livro sobre o assunto.

“Everything I Ever Needed to Know about Economics I Learned From Online Dating” (“Tudo que eu Precisava Saber sobre Economia eu Aprendi com Namoro Online”) foi publicado no início deste ano pela Harvard Business Press e não tem previsão de lançamento no Brasil.

Recentemente comprometido, Oyer concedeu a seguinte entrevista para EXAME.com:

Paul Oyer, economista da universidade de Stanford

 (Stanford/Divulgação)

De um ponto de vista econômico, porque algumas pessoas se juntam cedo e outras ficam solteiras por muito tempo ou nunca se comprometem?

Uma parte é a própria irracionalidade: expectativas irreais podem te levar a ficar solitário para o resto da vida. Você vai procurar por aí achando que pode encontrar algo melhor até perceber que não pode. Desse jeito, você não vai sossegar na hora apropriada.

Claro que também acontece o contrário: muitas pessoas se comprometem muito cedo e depois se arrependem por não terem explorado mais o mercado quando eram jovens. Os mais novos devem mesmo ser mais pacientes do que os velhos. No meu caso, eu voltei para o mercado com quase 50 anos. Um ano procurando? Um ano de solidão? Esses são custos maiores aos 50 anos do que aos 25.

Quando você voltou ao mercado, muitas mulheres não queriam sair com você porque no seu perfil dizia “separado”. Muitos chamariam isso de puro preconceito ou estereótipo, mas você chama de “discriminação estatística”. Qual a diferença?

Preconceito tem uma conotação negativa porque implica que as pessoas tem um desgosto por certas coisas. Já a discriminação estatística é uma ideia econômica importante e que acontece o tempo todo. Ela causa as mesmas consequências no grupo discriminado, mas é diferente porque não é baseada em rejeição, e sim numa correlação estatística entre algum atributo e o que aquela pessoa está procurando.

No meu caso, muitas mulheres me escreviam para dizer: seu perfil parece legal, mas eu aprendi a duras penas que gente separada não está pronta para um novo relacionamento. Elas não tinham algo contra homens separados – afinal, saiam com divorciados, que já foram separados em algum momento – mas elas perceberam que alguns separados não estão realmente disponíveis, e por isso é mais fácil excluir todos do seu radar de uma vez só.

É a mesma força econômica por trás de empregadores relutantes em contratar mulheres na faixa dos 20 aos 30 anos porque acham que elas vão sair do trabalho para virarem mães. Há muitos que não tem nada contra mulheres, mas não querem empregá-las por causa deste medo.

As implicações para as mulheres nesse caso são mais amplas porque não dizem respeito só às que não estão sendo contratadas, mas toda a sociedade. É um problema muito maior e com mais ramificações do que o problema dos separados na internet – que foi uma pequena inconveniência para mim, rapidamente resolvida.

Você nota que as pessoas tendem a se associar com pessoas basicamente iguais a elas em vários aspectos: educação, renda, beleza. A ideia de que os opostos se atraem é um mito?

É um mito nas dimensões que você citou. Do ponto de vista psicológico, pode haver uma atração entre introvertidos e extrovertidos, pessoas carinhosas e auto-centradas, etc. Certamente existem estudos sobre isso, mas eu não posso opinar.

O que eu sei é que essa ideia de que você vai realizar seus sonhos encontrando alguém de uma classe social diferente e que por isso vai ter um relacionamento excitante tende a ser fantasia e não realidade.

Nós encontramos pessoas que são muito parecidas conosco porque essa é a posição onde nos colocamos – se você vai pra faculdade, vai conhecer pessoas que também foram – mas também porque é isso que nos atrai naturalmente. Você pode tentar lutar contra, e que ótimo se você quer realmente achar alguém fora do seu estrato social, mas dá mais trabalho.

Como o conceito de “custos de busca” explica o mercado de namoro online?

Os custos de busca estão no cerne de quase todas as questões econômicas. Se eu pudesse simplesmente sair e achar a melhor coisa pra mim em qualquer mercado, eu sempre teria exatamente o que eu quero: o melhor. Mas algumas vezes precisamos buscar o que queremos.

Pode ser algo simples, como ir atrás do seu cereal preferido no supermercado, ou algo mais difícil como comprar uma casa – você precisa olhar cada uma, decidir o que é melhor, e em algum momento se dar conta de que provavelmente há uma casa melhor por aí, mas você tem outras coisas pra fazer e não tem tempo para procurar eternamente, então deve ficar com essa mesmo.

É muito anti-romântico dizer isso, mas o mesmo princípio se aplica à procura do seu parceiro. Você chega com essa noção romântica de que existe o encaixe perfeito e que você só precisa encontrá-lo, mas não é assim que funciona, infelizmente.

Você precisa saber que existem milhões de parceiros em potencial, mas que se essa pessoa que eu tenho agora é ótima, eu preciso fazer todas essas outras coisas então vou parar por aqui. De fato, não é muito diferente de comprar uma casa ou um par de calças.

Mas você diz que o processo de encontrar um parceiro é mais próximo do processo de encontrar um emprego do que o de encontrar uma casa.

Os paralelos do mercado de namoro online ou offline com o mercado de trabalho são impressionantes e quase ilimitados. Há um par de diferenças: por exemplo, nós recebemos referências de ex-empregadores, mas não de ex-namorados(as).

O mercado imobiliário é parecido com o de trabalho e de parceiros em algumas dimensões: uma é que todas as casas são diferentes, então você tem aquela mesma sensação de que precisa continuar procurando porque pode encontrar algo melhor.

O que é particular dos mercados de trabalho e de parceiros é que são mercados de dois lados que precisam se escolher, e você não precisa se preocupar se a calça vai gostar de você. Se você tiver dinheiro, terá as calças (risos).

E a diferença entre o mercado de namoro online e o mercado no mundo real, que acontece em bares e outros locais de encontro?

Admito que existam muitas respostas não econômicas para essa questão, afinal conhecer pessoas na internet revela certas características muito cedo: você logo fica sabendo dos filmes preferidos da sua parceira, enquanto quando você conhece alguém ao vivo você percebe seu aspecto e seus tiques rapidamente. E claro que essas diferenças podem afetar o resultado do encontro – mas como economista, não sei muito sobre isso.

De uma perspectiva econômica, diria que você precisa pensar no tipo de pessoa que você está procurando e na sua utilidade – o termo econômico para satisfação ou felicidade – ao procurar de uma determinada maneira.

Para mim, por exemplo, bares de solteiros são um investimento terrível: eu odeio eles! Não gosto de ficar tentando impressionar os outros, não é o meu talento, então para mim o custo de procurar uma mulher em um lugar assim é bem alto.

Eu não amo perder tempo navegando por perfis em um site de namoro – poucas pessoas realmente amam – mas ir a um site desses não é tão desagradável, e posso aprender de forma rápida sobre várias pessoas individualmente. De uma perspectiva da eficiência, dadas as minhas preferências, isso é valioso.

Mas se você gosta de ir para bares e acha que o tipo de pessoa que você quer encontrar está neles, o que pra mim não era o caso, então é aí que o mercado é “espesso”, como dizem os economistas, e você deveria ir atrás disso.

E qual é a diferença entre o mercado online dos heterossexuais e dos gays?

Os princípios são basicamente os mesmos, mas uma dinâmica é diferente. No eBay, por exemplo, os compradores sabem quem são os vendedores e vice-versa, e eles tentam se combinar. É mais ou menos assim que os sites de namoro funcionam no mundo heterossexual. Em um site gay, todo mundo é os dois: você não sabe quem é a sua competição e quem são os seus parceiros potenciais.

E o “efeito superstar”? Ele é considerado uma das causas do aumento da desigualdade, mas você também o menciona como importante no mercado do namoro online.

O “efeito superstar” no mercado de trabalho é causado pela tecnologia. Antigamente, se você era um comediante, cantor ou atleta, você tinha que se apresentar ao vivo na frente de 100 ou 1000 pessoas. Por causa disso, eles eram sempre locais. Daí veio a tecnologia e subitamente todo mundo podia assistir ao mesmo cantor de ópera ou rock. Claro que as pessoas ainda vão para shows, mas agora aqueles que são os melhores de repente tem a possibilidade de um impacto nacional ou mesmo mundial.

Os músicos e atletas mais bem-sucedidos ganham mais dinheiro hoje do que ganhavam no passado, o que torna o pagamento dentro desses setores muito mais desigual do que antes. Isso é parte da explicação de porque executivos hoje ganham tanto dinheiro: com a tecnologia, eles tem um poder de controle muito maior sobre as grandes empresas do que costumavam ter.

O que isso tem a ver com o namoro online?

O namoro online não funciona exatamente assim, porque mesmo os mais populares não podem namorar outras cem pessoas. O que mudou é que agora podemos ver as pessoas mais atraentes online e de repente todo mundo está interessado em mandar mensagens para elas.

Em um bar, claro, pode ser que todo mundo também ficasse interessado nela, que receberia várias propostas em uma noite. Mas agora, em um site, esta mesma pessoa pode ser abordada por literalmente milhares de pessoas. Isso mudou o jogo um pouco, e acho que este é um dos casos em que a racionalidade é problemática: se as pessoas em um site focarem apenas nos mais atraentes, isso vai levar a problemas e expectativas irreais.

Porque é tão difícil ser honesto nestes sites mesmo sabendo que seria melhor para todo mundo se as informações fossem precisas?

Vamos supor que estamos em um grupo e todos prometeram ser honestos, mas daí uma pessoa de repente começa a exagerar suas credenciais. Isso muda os incentivos para todo mundo! Eu posso até querer ser muito honesto, mas se algumas pessoas não estão sendo, então todo mundo vai supor que eu não estou sendo também. Como resultado, eu quase não tenho escolha a não ser exagerar na minha situação.

Novamente, vemos paralelos com o mercado de trabalho: as pessoas tendem a exagerar um pouco seus currículos. Se você perguntar, o candidato vai dizer: bom, eu quero ser honesto, mas preciso considerar que todos os outros também estão exagerando seus currículos.

O que a economia diz sobre qual tipo de site é melhor – o maior ou aquele de nicho voltado para alguma característica que você considera importante?

Um princípio econômico que dá para aplicar aqui é que você deve procurar um mercado “espesso” – maior e com mais escolhas. Para um site de nicho dar certo, o nicho precisa ser grande o suficiente para que se muitas pessoas que se interessam naquele assunto forem naquele site, aquele mercado será espesso também.

Há alguns sites de nicho muito bem sucedidos – o Christianmingle.com, por exemplo, para cristãos muito religiosos. Ele faz sucesso porque existem muitos cristãos bem religiosos e porque as pessoas nesse site consideram namorar cristãos algo absolutamente fundamental. Outro destes sites que deu certo é para pessoas que procuram um caso extraconjugal. Há muitos, então dá para ser um site grande, e eles são honestos sobre isso para que o site seja conveniente.

Eu já fui dar uma olhada em um site que era para quem joga tênis: eu jogo, adoraria ter uma namorada que jogasse, mas ele não dá muito certo porque não tem muita gente que considere isso tão importante assim a ponto de limitar seu mercado.

Você diz que beleza e dinheiro são os principais fatores de sucesso no mercado de namoro online. É verdade?

Sim, sinto dizer. As pessoas são muito vazias (risos). Dinheiro e beleza são os melhores indicativos. Não estou dizendo que não existam outras coisas, afinal indivíduos tem preferências diferentes, mas se você olhar para o grupo geral, nada é mais importante do que beleza e dinheiro.

O que sobra para os outros, que não tem nem um nem outro?

(risos) Para eles, eu diria: seja realista, paciente e você vai encontrar um bom encaixe com alguém, mesmo que não seja a supermodelo que você imaginava. Não há muito mais que se possa fazer (risos).

Qual conselho você daria para alguém que está no mundo do namoro online?

Uma é escolher um mercado espesso e o outro é manter em mente essa ideia dos custos de busca, ou seja: seja seletivo, porque você quer ser feliz, mas não seja tão idealista que você acabe “romanticamente desempregado” para o resto da vida.

Aplique o conceito da “discriminação estatística” de forma prática: peça para outra pessoa, de preferência alguém que não te conhece tão bem, ler o seu perfil online e te contar quais suposições ela faz e que você nem imaginava. Lembre-se: o importante não é só o que você diz, mas também o que você não diz e as pessoas inferem.

No meu caso, foi a ingenuidade de colocar “separado”, mas já vi pessoas que colocam coisas que elas acham que as fazem parecer divertidas, como gostar de beber, e daí os outros fazem suposições como ‘esse cara não é sério, não seria um bom pai, etc’.

Devem ser bons conselhos, já que você acabou tendo sucesso na sua busca. Você continua com a Kathryn?

Sim, continuo. Está indo muito bem, apesar do livro (risos).