Com Temer, juros de um dígito?

Com a iminente aprovação do afastamento da presidente Dilma Rousseff pelo Senado e a posse do vice-presidente Michel Temer, a aceleração da queda dos juros começa a aparecer no radar de investidores e analistas de mercado. Embora isso ainda não se tenha refletido plenamente no mercado futuro, nem nas estimativas do mercado financeiro compiladas pelo Banco Central (BC), cresce a percepção de que pode haver espaço para um corte mais acentuado das taxas num provável governo Temer, em especial se o banqueiro Henrique Meirelles, ex-presidente do BC, for confirmado como ministro da Fazenda e indicar alguém de sua confiança para o comando da instituição.

O cenário ainda é meio nebuloso, mas já há quem aposte que a taxa básica de juros (Selic), hoje de 14,25% ao ano, possa cair até dois pontos percentuais, para 12,25% ao ano até o final de 2016 e para até 10% ao ano em 2017. Se Temer permanecer no cargo até o final do governo, em 2018, e se houver a esperada recuperação da confiança de empresários e investidores na política econômica, fala-se até que ele poderá entregar o cargo a seu sucessor com juros ainda menores.

“Não me espantaria se a Selic caminhasse para um dígito até o final de um governo Temer”, diz o economista Felipe Miranda, sócio da empresa de consultoria financeira Empiricus, que despertou a ira do PT durante a campanha presidencial de 2014, ao dizer que a vitória de Dilma seria pior para a economia do país.

Mesmo com Dilma na presidência, as previsões já apontavam para uma diminuição nas taxas. Com a inflação em queda, puxada principalmente pela recessão, as estimativas do mercado vinham caindo de forma significativa nas últimas semanas. No último relatório Focus, divulgado no final de abril pelo BC, a previsão dos analistas era de uma queda da taxa Selic para 13,25% ao ano até o final de 2016 e para 12% em 2017.

O próprio BC, segundo a ata da última reunião do Copom, o comitê de política monetária da instituição, indicou uma possível queda das taxas a partir do segundo semestre deste ano, caso se confirme a tendência de queda da inflação. Com a perspectiva da saída de Dilma e a posse de de Temer, porém, um otimismo moderado sobre o futuro da economia do país parece contagiar os analistas.

“Com a manutenção de Dilma na presidência, a gente poderia até discutir se o corte nos juros seria maior ou menor, mas as condições já estavam dadas. Agora, com um novo governo, a queda nas taxas poderá ir um pouco além, se houver uma melhoria do ambiente fiscal, um maior controle das expectativas de inflação, afetadas pelo seguido descumprimento da meta inflacionária pelo presidente do BC, Alexandre Tombini, e uma apreciação do câmbio”, diz Miranda. “Tudo vai depender de como vão caminhar as reformas estruturais aqui no Brasil, para equacionar o quadro fiscal, e de quanto vão subir os juros nos Estados Unidos.”

Para os investidores, a farra dos juros ainda deverá continuar por algum tempo. Segundo o economista Evandro Buccini, da Rio Bravo, empresa de gestão de recursos que tem o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco como sócio, os juros reais (acima da inflação) ainda serão atraentes para os investidores em renda fixa, mesmo com a redução das taxas nominais. Ainda que os juros nominais caiam para 10% ao ano em 2017, as taxas reais deverão ficar perto do nível atual – algo entre 1,5% e 3% líquidos ao ano, conforme o porte do investidor – se a inflação cair para 5,7% no período, como preveem os analistas.

Se esse cenário se confirmar, na avaliação de Miranda, da Empiricus, lucrará mais quem apostar agora em aplicações com juros prefixados. Elas permitem ao investidor “travar” as taxas oferecidas hoje pelos bancos, que também não refletiram integralmente, em sua visão, uma possível aceleração do corte nos juros num provável governo Temer.

(José Fucs)