Coimbra, do IBMEC: quem ganha com a greve

Para Márcio Coimbra, do Ibmec, pauta ampla nas manifestações mais atrapalha do que ajuda

A sexta-feira foi de paralisações e protestos em todos os estados do país, fruto de uma greve geral convocada por centrais sindicais contra as reformas trabalhista e da Previdência. Para a oposição ao governo, as manifestações foram um sucesso; para o governo, um fracasso que consolida a agenda de reformas. Quem tem razão? Márcio Coimbra, coordenador dos cursos de Relações Institucionais e de Gestão e Políticas Públicas do Ibmec em Brasília falou a EXAME Hoje sobre as consequências políticas desta sexta-feira.

Qual o balanço das manifestações? O governo sai fortalecido ou enfraquecido?
O governo não sai nem fortalecido, nem enfraquecido. Até porque não era esse o objetivo dos protestos, o objetivo era lutar contra as reformas. Em termos de desestabilização do governo, então, nada aconteceu. Para a oposição, acabou sendo um tiro no pé, que mostrou uma divisão ainda maior em dois Brasis. Isso acabou dando discurso não para o governo, mas para eventuais candidatos, como o João Doria. Pela manhã, ele saiu de casa para ir à prefeitura antes de os manifestantes que tentariam o impedir de chegar e ainda tirou onda sobre isso em entrevistas. Algumas prefeituras fizeram acordos com serviços de transporte. A maioria da população é neutra ou contrária ao que está acontecendo hoje, então isso dá combustível para fortalecer outsiders, ou quem quer se vender como uma via alternativa. Então, na verdade, isso não deu discurso para o governo, nem para a oposição, mas para novos políticos que tentam aparecer como novos caminhos, como o Doria e o Marchezan Jr, prefeito de Porto Alegre, que são pessoas que tentam se credenciar como uma terceira via no futuro.

Muitos analistas criticaram as manifestações de hoje por elas não terem um ponto específico de reclamação, serem generalistas contra as duas reformas. O senhor acha que isso atrapalha o sucesso das reivindicações?
Acho. Quando a discussão não é pontual, ela acaba se perdendo. Como foram as manifestações que vimos em março, que eram em defesa da Lava-Jato, contra o projeto de abuso de autoridade e etc.. Como não se tinha um foco específico, a reivindicação se perde. Quando foi o impeachment do Collor, o impeachment da Dilma, a população se mobilizou.

Algum evento específico, uma manifestação de violência contra manifestantes, por exemplo, pode ser o começo de uma escalada nos protestos?
Pode. As manifestações podem ter um estopim. O Brasil está vivendo sob muita tensão. Para a gente alimentar uma manifestação nas ruas, precisa de uma faísca. Em 2013, foi uma coisa banal, o aumento das passagens de ônibus; agora, se tivermos algum acontecimento, o Brasil pode incendiar sim. Quando se tem manifestação, acirramento de ânimos, com o establishment todo de um lado, se defendendo do avanço da Lava-Jato, qualquer evento pode ser o estopim para uma escalada nas manifestações. Como disseram os procuradores, nada mete mais medo na Lava-Jato do que o PMDB, o PSDB e o PT do mesmo lado, contra a operação. E agora, depois da queda da Dilma, todos estão no mesmo barco, então a possibilidade de todo mundo se ajudar é muito maior.

As manifestações aumentam a pressão sobre os parlamentares que votarão as reformas?
Não acho que isso aumente a pressão nos parlamentares. O governo vai passar uma reforma da Previdência, seja qual for. Mesmo que seja cosmética, que mude pouca coisa. A mensagem que ele quer passar para o mercado é mais importante do que a reforma em si. É mais uma sinalização do que efetivamente algum resultado concreto. A reforma trabalhista, por exemplo, é muito mais importante para a economia que a da Previdência. Quando tratamos da Previdência, estamos falando das contas do governo, já quando abordamos a trabalhista, falamos de retomada da economia de forma mais rápida, que, em última instância, é o que vai levar à melhoria do ambiente e, inclusive, à melhoria das contas públicas. A gente vê isso pelo discurso do relator, que foi muito forte na Câmara [deputado Rogério Marinho (PSDB-RN)]. Agora, a tendência é que ela passe no Senado facilmente.

O senador Renan Calheiros está atuando praticamente como oposição, criticando diariamente a reforma trabalhista. Ele pode causar alguma dificuldade na tramitação da reforma no Senado?
Não acho que o Renan esteja atuando como oposição, ele está atuando como bombeiro dele mesmo. Ele está criando dificuldade para vender facilidades, para tentar se fortalecer e escapar da Lava-Jato. Ele vai criar os empecilhos que ele puder criar, e faria isso mesmo que fosse na reforma de um quarto do Palácio da Alvorada. O Renan vai arranjar problema em tudo que acontecer, para tentar vender a facilidade. A gente tem que lembrar que ele vai concorrer à reeleição em 2018 e que é uma reeleição muito difícil em Alagoas. Ele tem circulado muito pelo interior de Alagoas para tentar fortalecer seu nome. Isso porque está em desespero por saber que, se perder o foro privilegiado, vai ter que se explicar para o Sergio Moro em Curitiba. Esse é o grande medo dele. Se síndico de prédio der foro privilegiado, ele tentará ser síndico.