CEO ou Imperador?

CEO, China: The Rise of Xi Jinping
Autor: Kerry Brown.
Editora: I. B. Tauris & Company. 288 páginas.

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Joel Pinheiro da Fonseca

Para um país em tanta evidência como a China, em que cada novo indicador econômico ou ato diplomático vira notícia global, o funcionamento de seu governo continua sendo misterioso, bem como a mente de seu líder supremo, Xi Jinping, secretário-geral do Partido Comunista Chinês. Estando à frente do Estado chinês pelos últimos quatro anos, Xi já gera mais curiosidade que seu antecessor, Hu Jintao, homem discreto que chefiou o país durante uma das décadas de alto crescimento. Na atuação de Xi, que pode mudar para sempre a cara do poder na China, vê-se marcas fortes das duas maiores lideranças pós-revolução: Deng Xiaoping, cujas reformas capitalistas colocaram a China no caminho da prosperidade, e – isso é talvez o mais alarmante – o próprio Mao Tsé-Tung.

É para lançar alguma luz sobre um tema tão espinhoso que Kerry Brown, professor de Estudos Chineses no renomado King’s College, em Londres, nos oferece seu novo livro: CEO, China – the rise of Xi Jinping (“CEO, China – a ascensão de Xi Jinping”, numa tradução livre). Neste curto volume, recebemos uma verdadeira aula sobre a política chinesa recente, entendendo, ao menos em seus rudimentos, como funciona o Partido Comunista Chinês, bem como sua impressionante magnitude.

Em seu livro anterior sobre a China, The New Emperors (“Os Novos Imperadores”, numa tradução livre), Brown havia tratado do pequeno grupo de herdeiros dos políticos mais importantes da revolução chinesa que continuam a ocupar os cargos mais importantes do país. Xi faz parte desse grupo, embora não fosse nem de longe o mais bem colocado para chegar à posição suprema no Partido. Também não foi, do ponto de vista da ideologia meritocrática que supostamente determina as nomeações no governo, o mais destacado. Mas soube, como ninguém, pressentir as tendências dominantes no Partido para se utilizar delas e garantir o próprio poder, destacando-se dos demais “herdeiros” e, por fim, corroendo as bases do poder deles. Sua grande campanha nacional contra a corrupção serve, convenientemente, para enfraquecer todas as lideranças tradicionais do partido que pudessem constituir alguma ameaça a sua supremacia política.

Mao foi o pai da revolução chinesa, um líder carismático com intensa devoção popular, mas seu legado não é unânime nem dentro do partido cujo poder ele estabeleceu. Mao era um líder intensamente personalista, que fez muito para esmagar oposições internas que podiam existir dentro do partido e impedir que alguma força institucional fosse maior do que sua personalidade. A revolução cultural foi, em larga medida, uma política para eliminar possíveis concorrentes à chefia do Estado dentro do Partido Comunista. Por isso, ela é lembrada com muito amargor por figuras importantes do partido.

Ainda que tenha dado o ímpeto para a revolução, Mao basicamente arruinou a economia nacional, legando centenas de milhões à miséria como o grande resultado do culto insano à sua personalidade. Coube a seu sucessor (de facto, não de jure, posto que não ocupou formalmente o cargo de chefe de Estado ou do Partido) Deng Xiaoping corrigir muitos dos erros de política e, com uma paulatina abertura da China ao mercado, promover o crescimento mais espantoso da história da humanidade. Ao mesmo tempo em que manteve a estrutura autoritária do poder intacta, as reformas de Deng visavam impedir que um líder carismático viesse a ter mais poder do que o Partido em si. Desde Deng, para usar as palavras de Kerry Brown, “o Partido é o verdadeiro imperador da China”.

Xi é seguidor fiel de Deng nas ideias e na política de continuar o desenvolvimento econômico chinês baseado no mercado. Mas parece ser, no coração, um novo Mao. É o primeiro líder a ressaltar sua história de vida pessoal, incentivando o culto à sua personalidade. Toma medidas claras para eliminar a concorrência à sua liderança – ainda que hoje em dia os meios que Mao utilizou não sejam mais bem vistos. Na opinião de Brown, na esfera econômica não há muito o que inovar, então Xi deve deixar sua marca na organização política do país. Mas não esperemos democracia. Sua postura, pelo contrário, é de uma linha bastante dura com relação a uma possível abertura do Estado chinês.

CEO, China é uma leitura altamente informativa e contém análises muito elucidativas sobre a China contemporânea. Xi, ao combinar o ethos corporativo da China moderna com traços da era revolucionária, tem tudo para se perpetuar e continuar no centro das atenções mundiais.