Brasil e EUA devem manter juros. Mas até quando?

Expectativa é que o banco central americano, e o Comitê de Política Monetária brasileiro, mantenham as taxas de juros em 2,25% e 6,5%, respectivamente

A quarta-feira será de divulgação das novas taxas de juros no Brasil e nos Estados Unidos, dois indicadores que tendem a mexer com os mercados aqui e lá fora. Ou não. A expectativa é que tanto o Fed, o banco central americano, quanto o Comitê de Política Monetária brasileiro, mantenham as taxas de juros nos dois países.

No Brasil, a taxa de juros Selic deve ser mantida em 6,5% ao ano. Mas analistas estão na expectativa de alguma sinalização sobre a condução da política de juros na gestão do novo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. A taxa Selic, caso mantida em 6,5%, completará um ano em seu piso histórico, numa estabilidade que tem ajudado a impulsionar investimentos em renda variável, como na bolsa, que atingiu na segunda-feira a marca histórica de 100 mil pontos.

Nos últimos dias, uma leve alta na inflação IPC-Fipe e IGP-M em março, acima da média dos últimos anos, fez analistas avaliarem que o Banco Central não deve cortar os juros ao longo de 2019. A pressão pode começar a crescer nas próximas semanas caso as previsões de crescimento do PIB para 2019 continuem se deteriorando. A previsão mais recente, divulgada na segunda-feira, é de avanço de 2,01%, ante 2,28% calculado anteriormente.

Nos Estados Unidos, a economia também vem dando reiterados sinais de desaceleração. A previsão é de avanço de 2,5% em 2019, mas os mais cautelosos já preveem uma possível, porém ainda improvável, retração em 2020, ano de eleição presidencial. Ainda assim, o Fed deve manter os juros norte-americanos no intervalo entre 2,25% e 2,5%. Os principais índices acionários americanos fecharam o dia de ontem estáveis à espera do resultado de hoje. A expectativa é por uma indicação mais contundente de quantas altas teremos este ano: duas, como previsto anteriormente, ou uma, como fica cada vez mais provável.

A dependência global da sinalização dos juros americanos é tanta que Andrés Velasco, professor de Columbia e colunista de EXAME, chama atenção para o fim da independência monetária sobretudo de países emergentes. Em 2018, a perspectiva de aumentos nas taxas de juros americanas fez, segundo Velasco, “os mercados emergentes entrarem em parafuso”. Mas as novas indicações do Fed, que afastaram a possibilidade de novos aumentos, têm impulsionado as moedas e os mercados acionários de diversos países.

“Ao acompanhar o Fed tão de perto, bancos centrais da América Latina estão deixando de lado a flexibilidade politica — ou a chama independência monetária — que os regimes de câmbio flutuante de seus países supostamente permitem”, afirma. “As condições locais não deveriam determinar as taxas locais de juros?”. A resposta de Campos Neto deve começar a ser dada nesta quarta-feira.