Paulo Guedes critica “patrulhamento” por conversar com Bolsonaro

"O cara é capitão e fala palavrão, então não pode? Isso é coisa de maluco”, disse o economista Paulo Guedes sobre sua associação com Bolsonaro

São Paulo – “O cara é capitão e fala palavrão, então não pode? Isso é coisa de maluco”, disse nesta terça-feira (30) o economista Paulo Guedes sobre sua associação com Jair Bolsonaro.

Em palestra no evento Latin America Investment Conference, realizado pelo Credit Suisse em São Paulo, Guedes repetiu o bordão já usado com EXAME: “Quer saber se a ordem está conversando com o progresso?”.

O economista foi citado no final de novembro pelo pré-candidato à Presidência e deputado federal pelo PSC do Rio de Janeiro como possível ministro da Fazenda em sua gestão.

O par causou estranheza devido ao histórico nacionalista de Bolsonaro, que só mais recentemente tem dado sinais de aderência a uma agenda liberal, associada a Guedes.

O economista nota que Bolsonaro pediu sua permissão antes de citar seu nome, o que demonstra ser “um cara correto”, mas que ainda “tem tempo” até as conversas se tornarem um programa de governo:

“Me chamou pra conversar, não pode? Vai ter patrulhamento? Se for um programa liberal-democrata pensando em governabilidade e em reformas políticas e econômicas com apoio costurado, por que não pode?”, questionou.

Diferenças

Bolsonaro diz que é contra a reforma da Previdência, mas Guedes tem posição oposta: ele afirma que a proposta em tramitação é insuficiente e defende uma transição gradual do atual sistema de repartição para um sistema de capitalização.

“Seu filho está desempregado para seu neto achar que vai ter Previdência”, afirmou antes de citar Estados Unidos e China como exemplos de sucessos econômicos onde não há encargo trabalhista e nem garantias previdenciárias: “Funciona de um lado, funciona de outro, será que não funciona aqui?”.

Guedes também aproveitou para elogiar o “extraordinário trabalho” de Ilan Goldfajn, presidente do Banco Central, que falou no evento mais cedo.

Ele disse que Bolsonaro se mostrava contrário à independência do BC e depois de conversarem mostrou posição oposta nas redes sociais, mudança a qual Guedes acredita poder ter influenciado.

Democracia corrompida

Guedes elogiou a disposição de Bolsonaro de admitir que não entende de Economia pois “a última que falou que entendia foi a Dilma e ela quebrou o país”.

Ele diz que foi procurado pelo candidato justamente por ser o economista “que estava na lua”, sem associação com as últimas gestões:

“Não tem nenhum erro que o PT fez que já não fizeram antes, só fizeram todos ao mesmo tempo e em dose alta”, resumiu.

Grande parte da fala de Guedes foi dedicada a um diagnóstico do que vê como o final de um ciclo político da social-democracia no Brasil, classificado como uma “democracia corrompida”.

Uma das ideias do economista para facilitar a governabilidade é uma reforma política que inclua uma cláusula de votação em bloco com fidelidade partidária.

Guedes defendeu que a maior briga não é entre direita e esquerda, mas entre a velha e a nova política, e que há em curso uma defesa natural da “sociedade aberta”, uma de suas expressões preferidas.

Perfil

Paulo Guedes já foi professor de macroeconomia na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), na Fundação Getúlio Vargas (FGV) e no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) no Rio de Janeiro.

Ele tem um Ph.D. pela Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, identificada como centro global do pensamento econômico liberal.

Guedes também é um dos fundadores do Instituto Millenium, que tem como missão disseminar o pensamento liberal, e publica regularmente textos no seu site.

No setor privado, Guedes foi um dos três fundadores em 1983 do Banco Pactual, depois comprado e transformado no BTG Pactual, o maior banco de investimento brasileiro.

Ele também foi um dos fundadores e chegou a presidir o Ibmec (atual Insper). Foi criador da BR Investimentos, uma empresa de private equity (investimento em ações privadas) que hoje integra a Bozano Investimentos.

Sua carreira no setor privado incluiu passagem também pelo conselho de administração de companhias como Localiza, PDG e Anima Educação, mas o interesse pela política ficou mais claro recentemente.