Americanos substituem caixas eletrônicos por seus corpos

Diante da estagnação da renda nos EUA, americanos estão vendendo seus cabelos, leite materno e óvulos para se livrar de apertos financeiros

Washington – Cabelos, leite materno e óvulos estão substituindo caixas eletrônicos para alguns americanos em apertos financeiros, como April Hare.

Sem trabalho há mais de dois anos e prestes a ser expulsa da sua casa, Hare lembrou-se da novela escrita por Louisa May Alcott no século XIX e foi até seu computador.

“Eu estava tentando encontrar formas de ganhar dinheiro e lembrei-me de Jo em ‘Mulherzinhas’, que vendeu seu cabelo”, afirma a mulher de 35 anos, que é de Atlanta. “Sempre tive muito cabelo, mas essa é a primeira vez que tive a ideia, porque estou agora no sufoco”.

A mãe de duas crianças publicou fotos do seu cabelo ruivo, cor número 18, em www.buyandsellhair.com pedindo pelo menos US$ 1.000 e recebeu respostas em horas. Hare, que também considerou vender seu leite materno, é uma de muitos que exploram formas não convencionais para pagar as contas enquanto a expansão econômica de quatro anos enfrenta dificuldades para fortalecer o mercado de trabalho e estimular a renda.

Desde o começo de 2011, em somente dois trimestres as palavras “cabelo”, “óvulos” ou “rim” não estiveram entre os quatro resultados de preenchimento automático mais populares no Google para a consulta “eu quero vender meu…”, conforme Nicholas Colas, estrategista-chefe de mercado no ConvergEx Group, sediado em Nova York, que fornece serviços de corretagem e ligados a operações para investidores institucionais.

Nos EUA é legal vender cabelo, leite materno e óvulos, mas não comprar e vender rins.

“O fato de que muitas pessoas ainda o consideram indica que há muitos preocupados com a perspectiva financeira”, afirmou Colas, que acompanha indicadores econômicos fora dos serviços básicos. “É uma recuperação muito diferente das que já tivemos. Será muito lenta e frustrante”.

O ritmo lento da recuperação econômica, exacerbado por impostos em alta e ajustes gerais nas agências federais realizados neste ano, piorou a perspectiva das famílias americanas. Cerca de 54 por cento deles afirmam que sua renda “não se recuperou quase nada” da recessão, conforme uma pesquisa realizada, em setembro, pela Pew Research Center, de Washington.


Percepção sobre o emprego

As percepções sobre o emprego são igualmente sombrias, com 52 por cento afirmando que o mercado de trabalho praticamente não se recuperou da recessão, conforme a pesquisa da Pew. Continua havendo mais de 1,9 milhão de pessoas desempregadas do que no pico de janeiro de 2008, segundo dados do Departamento de Trabalho.

Tais cifras ajudam a explicar por que alguns americanos estão procurando formas pouco ortodoxas para complementar a renda. Hare, que tem um filho de quatro meses e uma filha de sete anos, pesquisou para vender seu leite materno online após saber que podia ganhar até US$ 5 por onça.

“Estes são tempos difíceis”, disse Hare, que em seu último emprego foi gerente de vendas em um shopping. “Os ricos estão ficando mais ricos e todo mundo está perdendo seus empregos e suas casas. É simplesmente terrível”.

Renda das famílias

A mediana de renda das famílias, incluindo salários e investimentos, caiu em cada um dos últimos cinco anos com os ajustes por inflação, segundo dados do Departamento de Comércio. Os americanos estão ganhando menos do que em 1996.

“Se a pessoa estiver sem emprego há anos, depender de vale-alimentação e tiver problemas para pagar as contas, posso compreender perfeitamente que ela esteja muito desesperada economicamente”, disse Colas. “Eu não acredito que muitas pessoas vendam seus rins, mas sim que muitos desesperados pesquisem isso para dizer, ‘se tudo piorar, o que eu poderia fazer?’”.

Tais decisões poderiam ser influenciadas por um mercado de trabalho com dificuldades para melhorar e benefícios por desemprego que estão acabando. A taxa de desemprego permanece acima de 7 por cento desde o final de 2008. A proporção de americanos desempregados por 27 semanas ou mais era de 38 por cento em agosto, mais do que o dobro do que antes do final da última expansão, conforme estatísticas do Departamento de Trabalho.

Provavelmente a Internet seja responsável por boa parte do crescente interesse em fazer dinheiro com o corpo, disse Gary Becker, professor de economia na Universidade de Chicago. Os sites de busca e troca online “facilitam a comunicação entre os compradores e vendedores de coisas como órgãos ou cabelo”, disse Becker.