A visão de quatro jovens economistas sobre a atual crise mundial

Veja o que a nova geração de economistas está aprendendo com as atuais turbulências

São Paulo – Os quatro economistas entrevistados para essa reportagem têm pontos em comum. Além de serem jovens que nasceram na década de 1980 e, portanto, eram crianças quando o Plano Real foi lançado, se graduaram em Ciências Econômicas há pouco tempo.

Eles trabalham nas principais consultorias do país e já têm um enorme desafio: analisar a primeira crise econômica de suas carreiras.

Não restam dúvidas de que esses jovens talentos estão acumulando larga experiência em um curto período de turbulências, que começou em setembro de 2008 com a quebra do Lehman Brothers e não tem data para terminar.

Acostumada a entrevistar nomes consagrados do mundo econômico, EXAME.com buscou um olhar diferenciado sobre a crise – e constatou que os jovens economistas tendem a ser mais otimistas do que a média do mercado.

Veja nas próximas páginas o que Raphael Martello, de 25 anos, Juliana Serillo, de 27 anos, Rafael Bistafa, de 25 anos, e Lorrenie Messias, de 23 anos, têm a dizer – e a projetar – sobre o atual cenário econômico no Brasil e no mundo.


Economista Raphael Martello, 25 anos

Graduação: Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (EESP-FGV) – curso concluído em 2008

Planos de estudo: está fazendo mestrado em macroeconomia e finanças na FGV e pretende fazer doutorado no exterior

Trabalho atual: está na Tendências Consultoria desde 2010

Economista que admira na empresa: Gustavo Loyola

Economista que admira fora da empresa: Paul Krugman

Onde estava em julho de 1994, quando o Plano Real foi lançado: aos 9 anos de idade, estava na casa da família, em São Paulo, assistindo a desenhos animados na TV

Onde estava em 15 de setembro de 2008, quando o Lehman Brothers quebrou: era estagiário no Credit Suisse

Na crise atual, de onde vem a maior fonte de preocupação? “Vem da Europa por causa dos problemas estruturais que estão cada vez mais evidentes. A união monetária requer uma série de requisitos fiscais que não foram cumpridos. Ao longo da década, as desigualdades entre os países foram negligenciadas pelas autoridades que só buscavam a expansão do bloco.”

Haverá um duplo mergulho recessivo dos países desenvolvidos? “O risco é pequeno. O que a gente tem é um processo de ajuste para um crescimento mais baixo por um período prolongado. No caso específico dos Piigs (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha), alguns países podem ter retração de atividade ou manutenção de um quadro recessivo.”

O Brasil está blindado? Haverá recessão por aqui, como em 2009, ou “apenas” redução no ritmo de crescimento? “O Brasil está bem mais blindado. A economia tem uma dinâmica interna bem mais forte e isso ajuda a gente a enfrentar esse período turbulento lá fora de uma melhor maneira do que em 2008.”

Em caso de agravamento da crise, o que o governo brasileiro deveria fazer? “A gente precisa observar como esse agravamento se daria na China e na Índia, que são os nossos grandes consumidores de commodities. Se essas economias reagirem relativamente bem por conta do seu consumo doméstico, o impacto não será tão grande no Brasil. Caso contrário, o governo brasileiro pode ter que dar alguma resposta pelo lado fiscal. Já pelo lado monetário é difícil dizer, pois a inflação está pressionada pelos fundamentos domésticos. A questão é se isso se arrefeceria com a crise. O risco seria afrouxar a política monetária e a inflação de serviços disparar ainda mais.”

Se você tivesse que trabalhar no exterior nos próximos anos, escolheria os Estados Unidos, algum país da Europa ou a China? “Eu escolheria os Estados Unidos porque é uma economia dinâmica e eu me adaptaria melhor à cultura americana.

Qual foi o maior aprendizado até agora desta crise? “A maior lição é entender que nem tanto ao céu, nem tanto à terra quando a questão é a intervenção do Estado nos mercados. Um depende do outro. É preciso reequilibrar as forças. O mercado não pode ser totalmente livre, nem totalmente regulado.”

Você se considera atualmente um economista otimista ou pessimista? “Eu sou mais otimista do que os meus colegas de mestrado que esperam um cenário mais duro, até mesmo recessivo.


Economista Juliana Serillo, 27 anos

Graduação: Universidade Federal de Lavras (MG) – curso concluído em 2005

Planos de estudo: já concluiu um mestrado em economia pela FGV e pretende fazer um MBA ou mestrado profissionalizante

Trabalho atual: entrou na MB Associados há 3 anos e meio

Economista que admira na empresa: José Roberto Mendonça de Barros

Economista que admira fora da empresa: Fabio Giambiagi

Onde estava em julho de 1994, quando o Plano Real foi lançado: aos 10 anos de idade, estava em São Carlos (SP) curtindo as férias e ajudando a família no comércio

Onde estava em 15 de setembro de 2008, quando o Lehman Brothers quebrou: já trabalhava na MB Associados

Na crise atual, de onde vem a maior fonte de preocupação? “Eu acredito que as maiores preocupações estejam na Europa por causa da situação fiscal dos países e da fragilidade de suas economias.”

Haverá um duplo mergulho recessivo dos países desenvolvidos? “Eu acredito mais no cenário de um crescimento baixo durante muito tempo. No entanto, aumentou um pouco a chance de um duplo mergulho.”

O Brasil está blindado? Haverá recessão por aqui, como em 2009, ou “apenas” redução no ritmo de crescimento? “Se não houver um duplo mergulho nos países desenvolvidos, o Brasil apenas crescerá um pouco menos.”

Em caso de agravamento da crise, o que o governo brasileiro deveria fazer? “O primeiro movimento deve ser o de reduzir os juros. Eu acredito que o governo também vá aumentar os empréstimos concedidos pelo BNDES.”

Se você tivesse que trabalhar no exterior nos próximos anos, escolheria os Estados Unidos, algum país da Europa ou a China? “Eu escolheria a China, onde a economia continuará crescendo. O futuro está lá.”

Qual foi o maior aprendizado até agora desta crise? “A minha geração não tinha vivenciado nenhuma crise até 2008. A lição que fica é que os ajustes econômicos feitos a partir do governo Fernando Henrique Cardoso permitiram que o Brasil estivesse preparado para enfrentar as turbulências externas.”

Você se considera atualmente um economista otimista ou pessimista? “Estou no meio do caminho entre otimista e pessimista. Por um lado, eu acho que a gente não vai sofrer tanto com a crise, mas, por outro, a questão fiscal brasileira não é sustentável no médio prazo.”


Economista Rafael Bistafa, 25 anos

Graduação: Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) – curso concluído em 2009

Planos de estudo: pretende fazer um mestrado em Economia

Trabalho atual: está na Rosenberg & Associados desde 2010

Economista que admira na empresa: Thaís Zara

Economista que admira fora da empresa: Alexandre Schwartsman

Onde estava em julho de 1994, quando o Plano Real foi lançado: aos 8 anos de idade, estava na casa da família, em São Paulo, brincando nas férias

Onde estava em 15 de setembro de 2008, quando o Lehman Brothers quebrou: estágio na tesouraria do Citibank

Na crise atual, de onde vem a maior fonte de preocupação? “O grande problema está na Europa. O futuro da zona do euro está em risco com a possível saída de algum país.”

Haverá um duplo mergulho recessivo dos países desenvolvidos? “Acho difícil que haja um cenário recessivo. O quadro mais provável é de crescimento baixo por um longo período.”

O Brasil está blindado? Haverá recessão por aqui, como em 2009, ou “apenas” redução no ritmo de crescimento? “Com o mundo desenvolvido – Estados Unidos, Europa e Japão – crescendo a níveis muito baixos durante um longo período de tempo, não tem como a economia brasileira ficar totalmente blindada. Ela vai sofrer um pouco, mas não chegará a ter uma recessão.”

Em caso de agravamento da crise, o que o governo brasileiro deveria fazer? “A crise atual não parece ser de solvência de bancos como foi em 2008. A questão agora é a desconfiança em relação à capacidade fiscal dos governos. Creio que o estímulo inicial no Brasil possa ser monetário, com juros e compulsórios mais baixos, e depois, se necessário, adotar algum estímulo fiscal.”

Se você tivesse que trabalhar no exterior nos próximos anos, escolheria os Estados Unidos, algum país da Europa ou a China? “Eu escolheria os Estados Unidos porque lá estão as melhores universidades, os maiores investimentos em tecnologia, os processos de inovação, enfim, é o país mais completo.”

Qual foi o maior aprendizado até agora desta crise? “A maior lição é sobre o papel do Estado na economia. Ele não é grande o suficiente para, sozinho, evitar ou tirar os países da crise, mas também não é dispensável. Enfim, não dá para deixar o mercado totalmente solto, mas também não pode haver excesso de regulação.”

Você se considera atualmente um economista otimista ou pessimista? “Eu sou otimista porque eu ainda creio em alguma inovação tecnológica, a exemplo dos computadores na década de 80, que gere uma nova onda de crescimento mundial. Além disso, a crise atual é passageira. O capitalismo já teve várias crises e o mundo nunca acabou.”


Economista Lorrenie Messias, 23 anos

Graduação: Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) – curso concluído em julho de 2011

Planos de estudo: pretende fazer um mestrado em Economia

Trabalho atual: entrou na LCA Consultores há 5 meses

Economista que admira na empresa: Celso Toledo e Bráulio Borges

Economista que admira fora da empresa: Paul Krugman

Onde estava em julho de 1994, quando o Plano Real foi lançado: aos 6 anos de idade, estava na casa da família, em Baependi (MG), brincando nas férias

Onde estava em 15 de setembro de 2008, quando o Lehman Brothers quebrou: preparando as malas para um intercâmbio no Texas (EUA)

Na crise atual, de onde vem a maior fonte de preocupação? “A maior fonte de preocupação, com certeza, é a Europa. Estamos lidando com um risco sistêmico de quebradeira geral dos bancos, com possibilidade de um efeito dominó sobre a economia.”

Haverá um duplo mergulho recessivo dos países desenvolvidos? “Se não houver quebra de bancos, um cenário com 15% de chances de acontecer, teremos dois ou três anos de crescimento muito baixo nas economias desenvolvidas. Agora, se houver quebra de bancos, reviveremos o quadro recessivo de 2009.”

O Brasil está blindado? Haverá recessão por aqui, como em 2009, ou “apenas” redução no ritmo de crescimento? “Nenhuma economia no mundo está imune, mas o Brasil tem um arsenal robusto de medidas anticíclicas.”

Em caso de agravamento da crise, o que o governo brasileiro deveria fazer? “A gente pode reduzir a taxa de juros e o compulsório, cortar impostos, aumentar os gastos, enfim, repetir as medidas de 2008 e 2009. Porém, como o Brasil tem mais reservas, estamos mais confortáveis do que antes.”

Se você tivesse que trabalhar no exterior nos próximos anos, escolheria os Estados Unidos, algum país da Europa ou a China? “Eu escolheria a China porque trabalho na área de commodities e o nosso maior demandante são os chineses.”

Qual foi o maior aprendizado até agora desta crise? “A maior lição na Europa é a necessidade de maior diálogo entre os países. O que a gente tem visto é uma série de divergências entre os integrantes da zona do euro. A recuperação das expectativas depende de um acordo no bloco ”

Você se considera atualmente um economista otimista ou pessimista? “Eu sou otimista porque a gente acabou de sair de uma crise, está em recuperação, e eu aposto que as autoridades monetárias vão tentar evitar a repetição do quadro vivenciado em 2008 e 2009. Eu acredito que as intervenções necessárias serão feitas para preservar a saúde do sistema financeiro internacional.”