A última fronteira da energia

O Shopping Ponta Negra, na zona oeste de Manaus, e a companhia de saneamento Manaus Ambiental são empresas de setores em nada convergentes, mas as duas travam uma disputa neste exato momento. Está em jogo o título de primeiro consumidor do mercado livre de energia da capital amazonense.

É mais ou menos como disputar quem entra no século 21 nesta seara. Tanto o shopping quanto a empresa de saneamento – assim como o restante da cidade – são atualmente abastecidos de eletricidade pela Eletrobras Distribuição Amazonas.

Sendo parte do chamado mercado cativo, a distribuidora entrega energia e cobra por ela as tarifas reguladas pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica). Para os consumidores residenciais, o mercado funciona assim no Brasil inteiro. Mas para as indústrias, que consomem energia de forma intensiva, o mercado livre costuma ser uma alternativa mais vantajosa. Estando nele, é possível negociar o preço diretamente com os vendedores – e, em geral, pagar menos.

O mercado livre é uma das grandes novidades do setor de energia elétrica no Brasil. Tem cerca de 2.000 consumidores, o triplo de 2008. Esses consumidores representam 63% da carga da indústria brasileira, segundo a Abraceel, associação que reúne os comercializadores de energia, e, em geral, economizam um bocado. Entre 2003 e 2015 a economia chegou a 45 bilhões de reais. Estimativas da entidade apontam que os participantes do mercado livre economizaram um total de 45 bilhões de reais desde 2003 com seus custos de energia.

Detalhe é que, para as indústrias de Manaus, essa possibilidade não existia até um ano atrás. Era um problema, em especial, para as empresas da Zona Franca de Manaus, nada menos que um dos maiores polos industriais do Brasil. Manaus não estava conectada ao Sistema Interligado Nacional (SIN), que leva a energia gerada em todo o país até os consumidores. A eletricidade era, basicamente, produzida localmente em um sistema isolado de usinas termelétricas.

“Manaus é um caso especial porque representa a última fronteira ainda a ser totalmente desbravada pelo mercado livre”, diz Marcelo Parodi, sócio-diretor da trading Compass Energia. Algumas características da cidade são muito atraentes para o setor. Entre pequenas, médias e grandes, há cerca de 3.300 indústrias em Manaus. As mais relevantes – que formam a Zona Franca – são 400.

Mais de uma centena delas são elegíveis a participar do mercado livre. “Há uma demanda reprimida”, diz Paulo Toledo, sócio-diretor da comercializadora Ecom Energia. A empresa, que tem a Manaus Ambiental como cliente, instalou um escritório na cidade em março e pretende fechar o ano com dez a 20 clientes na carteira.

Fora isso, o momento é ótimo para quem quer comprar energia. Com as chuvas mais abundantes dos últimos meses e a redução da atividade por causa da crise econômica, os preços despencaram. O último Informativo Tarifário do Ministério de Minas e Energia, com dados de outubro de 2015, indica que a tarifa industrial média praticada pela Eletrobras Distribuição Amazonas era de 244 reais. “Hoje é possível comprar um contrato de cinco anos de fornecimento de energia no mercado livre por um valor 46% mais baixo que a média do cativo”, diz Reginaldo Almeida de Medeiros, presidente executivo Abraceel. Neste quesito, Manaus vai ganhar um sopro de competitividade. Que venham outros.

(Mariana Segala)