A regra das 10.000 horas… certas

Peak: Secrets from the New Science of Expertise
Anders Ericsson and Robert Pool.
Houghton Mifflin Harcourt; 307 páginas.

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David Cohen

Em 2008, o jornalista e escritor canadense Malcolm Gladwell escreveu o livro Fora de Série. Sua tese central era condensada numa expressão: a regra das 10.000 horas. Resumindo, não é o talento natural que importa; a prática faz a perfeição.

Por seus artigos na revista New Yorker e livros anteriores, Gladwell já era famoso, mas essa tese o alçou a um novo nível de reconhecimento. Ela parece ter tocado num ponto sensível da sociedade: a possibilidade de virarmos heróis. Se é o treino que nos leva a feitos excepcionais, qualquer um pode ganhar uma medalha de ouro nas Olimpíadas. Qualquer um pode se tornar um cientista famoso, virar astronauta, tornar-se maestro de uma orquestra sinfônica, resolver teoremas que desafiam os matemáticos há 200 anos. Basta se dedicar.

Só que não, apressaram-se a dizer alguns críticos. O mais veemente deles foi o também jornalista e escritor David Epstein, que em 2013 lançou o livro A Genética do Esporte. Segundo o livro, Gladwell tomou uma média como um alvo – tornar-se mestre em xadrez, por exemplo, leva em média 11.000 horas de prática, segundo pesquisas, mas há quem atinja esse nível com apenas 3.000.

Epstein afirma que experiência é necessária, obviamente. Não daria para ser um grande nadador sem jamais ter pulado na água. Mas é a estrutura genética que determina quanto tempo será necessário para alcançar a maestria.Treino demais, aliás, pode até atrapalhar. Excesso de carga poderia prejudicar a capacidade muscular de um Usain Bolt, velocista nato.

Atacado, Gladwell respondeu, com classe, na revista New Yorker. Afirmou que Epstein escrevera um “excelente livro”, mas que não tinha lido com atenção o que ele dissera. “Ninguém é bem-sucedido em atividades de alto nível sem um talento inato. O que eu afirmei em meu livro foi: conquista é talento mais preparo.”

Este parece um debate inócuo – é claro que o sucesso depende de ambas as condições, treino e talento. Mas a disputa é uma das mais acirradas no campo da psicologia comportamental hoje em dia, porque o lado que se toma nela tem grandes implicações na forma como se vê o mundo.

O que divide os dois lados é se o talento existe previamente ou se é construído pelo treino. Neste segundo caso, em que medida. Para uma das representantes do lado do esforço, a psicóloga Angela Duckworth, autora do livro Garra – O Poder da Paixão e da Perseverança (resenhado em Exame Hoje), o treino conta duas vezes: para construir o talento e depois, aplicado a ele, para levar ao resultado.

A tese das 10.000 horas pode ser meio capenga, mas simboliza uma visão de mundo mais igualitária e menos mística, incrédula em relação a pessoas predestinadas e a estrelas que nasceram com um dom, uma vocação, um destino. Gladwell se tornou um herói do campo do esforço, da possibilidade irrestrita do ser humano, da noção de que atitude conta mais do que conhecimento.

É curioso, portanto, que o novo ataque contra ele parta do psicólogo sueco Anders Ericsson, justamente o autor do estudo de onde Gladwell tirou a ideia das 10.000 horas.

Qual é o número?

Ericsson não é um determinista, ao contrário. Ele apenas acha que Gladwell interpretou mal a sua tese. Trata, portanto de esclarecê-la, no livro Peak: Secrets from the New Science of Expertise (“Auge: segredos da nova ciência da expertise”, numa tradução livre), escrito em colaboração com Robert Pool, um ex-professor de matemática que virou um renomado jornalista de ciências.

O ponto principal de Ericsson é que não se trata de descobrir quantas horas são necessárias, e sim que tipo de horas. Para chegar à maestria, é preciso treinar de um jeito específico. O que ele chama de prática deliberada.

Ericsson é mais enfático, mais abrangente e mais apoiado em estudos – dele próprio e de outros pesquisadores. Ericsson concorda com Epstein, que Gladwell tomou uma média como um número mágico. Só que daí não conclui que a prática seja secundária em relação ao talento – apenas que sua tese foi apresentada de forma simplista.

“Primeiro, não há nada de especial ou mágico nas 10.000 horas”, diz. O número saiu de sua análise sobre a quantidade de estudo realizado por violinistas, no final dos anos 80. O grande recado de sua pesquisa era que toda a diferença de qualidade entre violinistas bons, violinistas melhores e os violinistas apontados como de primeira linha provinha do tempo dedicado ao treino.

Em seu livro, Gladwell arrumou outros exemplos: os anos de apresentação dos Beatles em shows na Alemanha remontariam a 10.000 horas, e Bill Gates teria passado esse mesmo tempo fazendo programação antes de fundar a Microsoft.

Em uma biografia dos Beatles, o autor Mark Lewisohn estima que as horas de prática deles na Alemanha esteja mais perto das 1.000 do que das 10.000 horas. Mas este nem é o maior problema do exemplo. A questão principal é que compor, muito mais do que tocar na frente de um público, é a atividade que tornou os Beatles uma lenda. Seria preciso entender como Lennon e McCartney praticaram para isso.

Ouvido absoluto, memória assombrosa

Se o erro fosse apenas a quantidade de horas, não seria nada. O problema principal de Gladwell, segundo Ericsson, é que ele não fez nenhuma distinção entre qualquer atividade que se encaixe no rótulo de prática e a tal prática deliberada – a maneira correta de atingir a maestria em algum campo.

Neste grande debate contra a turma que diz que o talento natural define os seus limites, Ericsson tem um trunfo: ele já provou que é possível dar a alguém absolutamente comum uma habilidade que ninguém sequer imaginava que fosse possível alcançar.

Aconteceu na década de 70, num trabalho em colaboração com o colega Bill Chase. Os dois acadêmicos treinaram um voluntário, Steve Faloon, para memorizar números ditados a intervalos de um segundo.

Pessoas comuns costumam ter dificuldades de lembrar de mais do que sete algorismos. Faloon, testado inicialmente, tinha uma memória tão fugaz como a de qualquer estudante médio. Com 60 sessões de treino, no entanto, ele conseguiu memorizar 20 números. Na centésima sessão, repetia séries de 40 números. Depois de 200 sessões, lembrava-se de 82 números. Não era apenas um recorde mundial. Até aquele momento, ninguém imaginava que isso era possível. Hoje, há concursos para ver quem decora mais números (o recorde está em 456 dígitos).

Ele cita outro exemplo: um estudo divulgado em 2014, da psicóloga japonesa Ayako Sakakibara, sobre ouvido absoluto (a capacidade de dizer qual a nota musical foi tocada, sem ter referência de outras notas). O ouvido absoluto sempre foi considerado um dom inato, que aproximadamente uma em cada 10.000 pessoas tem. Com um programa de treinos, Ayako conseguiu desenvolver a capacidade em crianças.

Ericsson também desmistifica o “dom inato” de gênios como Mozart e Paganini. Há boas evidências de que eles são fruto de treino. Mas não qualquer treino.

O caminho consciente

No elogiado livro Maestria, o escritor Robert Greene apresenta as vidas de grandes gênios de diversas áreas para estabelecer uma gama de caminhos para o aperfeiçoamento de suas habilidades. Eles incluem a aposta na resiliência, o avanço por tentativa e erro, criar uma dinâmica de mentoria ou praticar a observação profunda.

Ericsson é mais unidirecional. Estabelece uma única chave para qualquer porta: a prática deliberada. É uma receita quase mecânica: quanto mais horas de treino, melhor o resultado (e não existe limite superior, você pode continuar melhorando indefinidamente).

A prática deliberada não é apenas um jeito melhor de praticar. É o jeito correto. Fazer algo diferente pode prejudicar o seu desempenho, em vez de potencializá-lo. “O pianista amador que treina as mesmas músicas durante 30 anos pode ter acumulado 10 000 horas de prática, mas não melhorou”, diz Ericsson. “Talvez tenha piorado.”

Propósito e deliberação

Segundo Ericsson, existe um nível intermediário para chegar à prática deliberada. É a prática propositada. Em resumo, ela consiste em ter metas específicas e bem definidas, e colocar um monte de pequenos passos juntos para atingir um objetivo de longo prazo.

Para não se perder no caminho, é preciso ter feedbacks. Por isso, a prática propositada é mais bem executada em campos onde os resultados podem ser medidos de forma objetiva.

Ericsson também dá o conselho mais batido de todos os treinamentos profissionais: é preciso sair da sua zona de conforto. Todo sistema tem a tendência de manter a estabilidade (o que se chama de homeostase); quando você sai da zona de conforto, obriga todos os elementos do seu sistema a se readaptarem, para criar uma nova estabilidade. O risco é esticar demais a corda e criar uma situação de estresse que impede chegar a um novo equilíbrio. Ou seja, é preciso sair da zona de conforto, mas não para muito longe.

Ora, sair da zona de conforto até sentir-se confortável fora dela e então sair da nova zona de conforto, reiteradas vezes. É uma receita difícil. Sempre que você estiver se sentindo bem com o que faz, é hora de mudar. Por isso, precisa arranjar um modo de se motivar.

Para passar da propositada para a deliberada, Ericsson aponta dois elementos mais. O primeiro é um professor, capaz de ensinar os métodos eficazes de progredir. Isso só vale, é claro, nas áreas em que esses métodos existem – áreas mapeadas, estudadas, onde há critérios objetivos para distinguir os melhores dos apenas bons e onde há práticas estabelecidas para atingir o desempenho superior.

Campos como jardinagem, administração ou cuidar de bichos têm inúmeras fórmulas diferentes e pouquíssimo consenso para se fazer um ranking. Se você está num campo desses, o mais próximo que pode fazer da prática deliberada é descobrir os melhores na atividade e analisar quais comportamentos parecem ter correlação com os resultados atingidos.

O segundo elemento extra da prática deliberada é a representação mental. Para explicá-la, Ericsson cita o trabalho de Herbert Simon, seu mentor e possivelmente o papa da psicologia comportamental. Num estudo com enxadristas, Simon atestou que os mestres no jogo conseguem lembrar das posições de peças num tabuleiro com muito mais eficácia do que iniciantes ou jogadores de nível de médio.

Mas sua vantagem ocorre apenas se as peças estão dispostas de uma forma que faça sentido para o jogo. Se a configuração do tabuleiro não tem nada a ver com o jogo (se há quatro cavalos, ou se sua posição é absurda), a memória dos mestres passa a ser tão ruim quanto a dos outros: são capazes de lembrar em média apenas três posições.

Simon e seu colaborador, Bill Chase, concluíram que os mestres, por ter estudado milhares de posições ao longo dos anos, pensam nas configurações do tabuleiro por blocos, mais ou menos como nós pensamos em palavras, não nas sequências de letras.

Lembrar da posição de uma peça qualquer requer espaço na memória de curto prazo, que é limitada. Um bloco que faz sentido está armazenado na memória de longo prazo, para a qual ainda não se descobriu limite de armazenamento.

O caminho da maestria, diz Ericsson, envolve criar representações mentais cada vez mais sofisticadas. Um nadador cria representações do movimento que deve buscar na água. Girar o corpo, colocar a mão à frente passando pela orelha etc. Quando isso se torna automático, virou um “bloco”.

Representações mentais são tão importantes que um bom professor de matemática não apenas dá a resposta correta. Ele olha a resposta errada do aluno e tenta entender como ele chegou nela. Desse modo, pode dar dicas de como pensar de forma mais eficiente sobre o problema.

E se o certo estiver errado?

Em suma, a prática deliberada tem os seguintes passos: praticar de um modo que outras pessoas já determinaram que traz melhoras; sair da zona de conforto, o que exige tentar coisas novas com o máximo de atenção e esforço (o que geralmente não é muito agradável); ter um plano de pequenos avanços que, somados, vão desembocar na mudança maior desejada; manter atenção total e realizar ações conscientes; buscar feedback e adotar mudanças de acordo com ele; criar boas representações mentais, e modificá-las de acordo com as experiências; esforçar-se para adquirir as habilidades fundamentais de forma correta no início (em geral com um bom professor), porque as habilidades se constroem em cima de outras.

Então está tudo resolvido, certo? Escolha o seu campo e, como dizia um antigo editor que eu tive, cubra-se de glórias. Só não cometa a bobagem de ler alguns estudos recentes sobre o tema. Eles podem desanimar você.
Uma recente análise que reinterpretou dados de 34 pesquisas, liderada pela psicóloga Brooke Macnamara, da Case Western Reserve University, em Ohio, concluiu que a prática deliberada responde por apenas 18% da diferença de desempenho dos atletas.

É uma taxa suficiente para explicar por que um amigo, que perdia todas as partidas de mim no jogo de squash vários anos atrás, passou a me vencer sempre, depois de apenas oito aulas com um professor.

Mas ela não serve para explicar a diferença entre alguém realmente bom e alguém ainda melhor. Para atletas de elite, diz Brooke, a prática deliberada responde por apenas 1% da diferença de desempenho. Em entrevista à revista Scientific American, Ericsson disse que o novo estudo não usa a mesma definição de prática deliberada que ele emprega.

Talvez mais determinante do que saber quão deliberada é a prática deliberada seja refletir sobre a discussão em si. No nível da maestria, talento e treino andam mais juntos do que separados. A distinção chega mesmo a perder o sentido: será que o talento não se manifesta na disposição de treinar mais?

A regra das 10.000 horas provavelmente vale para a maioria dos ambientes. Se forem horas de treinamento deliberado, consciente, com foco em metas, melhor. Mas isso está longe de ser uma regra de ouro. Ao meu colega de squash bastaram oito horas para adquirir habilidades acima das minhas. Para nadar mais rápido que Michael Phelps, talvez seja necessário… esqueça.