A receita do braço direito de Buffett

Tao of Charlie Munger: A Compilation of Quotes from Berkshire Hathaway’s Vice Chairman on Life, Business, and the Pursuit of Wealth With Commentary
Editora: Scribner
Autor: David Clark
256 páginas

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David Cohen

As riquezas mal são comparáveis. Warren Buffett tem, segundo o ranking da revista Forbes, uma fortuna de 75,5 bilhões de dólares, enquanto Charlie Munger tem uma de “apenas” 1,5 bilhão. Mas a fortuna de Buffett jamais teria crescido tanto se não fosse por Munger. Pelo menos é isso o que diz David Clark, um advogado que se especializou em finanças – especificamente no mundo de Buffett. Depois de escrever oito livros sobre seu ídolo, Clark lançou agora Tao of Charlie Munger: A Compilation of Quotes from Berkshire Hathaway’s Vice Chairman on Life, Business, and the Pursuit of Wealth (O Tao de Charlie Munger: uma compilação de citações do vice-presidente da Berkshire Hathaway sobre vida, negócios e a busca da riqueza), com comentários do próprio autor. Se você acha que tanta gente já escreveu sobre a filosofia de investimentos da Berkshire Hathaway, a empresa que Buffett e Munger dirigem, que já não há nada de novo a dizer, tem toda a razão.

A vantagem desse pequeno volume sobre as dezenas de livros anteriores não é uma nova perspectiva. É justamente que ele entrega menos, em vez de mais. Algo, aliás, que tem um paralelo com a própria filosofia da Berkshire, em sua característica de fazer poucas apostas. Não poucos analistas acreditam que Munger é mais direto e claro do que Buffett na exposição de ideias. Mas não é só isso. Ao se fixar nas frases curtas de Munger, Clark parece ter filtrado suas teorias de forma a entregar apenas um punhado de preceitos.

É bem menos, por exemplo, do que Poor Charlie’s Almanack (“O Almanaque do Pobre Charlie”, numa tradução livre), lançado em 2005, que inclui uma biografia, uma síntese de seu modo de pensar e alguns pronunciamentos escolhidos. O título é uma homenagem ao livro Poor Richard’s Almanack, escrito por Benjamin Franklin, de quem Munger é um fã.

No Tao de Munger não está, por exemplo, o “efeito Lollapalooza”, uma expressão que ele cunhou em 1995 para ilustrar que, quando duas ou mais inclinações psicológicas se combinam, o efeito é muito mais poderoso que uma mera soma. Um exemplo disso foi a queda brusca no valor das ações da Apple em 2014, pela combinação de percepções devidas à morte de Steve Jobs, ao declínio do Blackberry, à ascensão do sistema Android e ao avanço da fabricante de aparelhos Samsung.

Também não estão expostos os múltiplos modelos mentais que Munger diz usar para evitar as armadilhas do processo de decisão humano. O que está no Tao são as premissas básicas do pensamento de Munger e Buffett. Vale como uma síntese. E, ao mesmo tempo, vale como uma demonstração de que não é tanto a fórmula que leva ao sucesso da Berkshire Hathaway, mas a capacidade de segui-la. Como Munger costuma dizer, não foi o cérebro que o tornou rico. Foi o temperamento.

A pedra fundamental do investimento

Munger não é simplesmente o braço direito de Buffett. Ele é o responsável, segundo o próprio Buffett, pelo insight que transformou sua filosofia de investimento. A citação que resume isso é: “um ótimo negócio a um preço justo é melhor do que um bom negócio a um ótimo preço”. Antes de Munger, Buffett seguia a cartilha de Benjamin Graham, seu professor e mentor. Graham foi o pioneiro das avaliações de investimento. Sua tática era simples: comprar ações que estivessem sendo negociadas a um valor menor do que seu valor intrínseco. Ou seja, comprar ativos baratos, esperar sua valorização e vendê-los.

O método de Graham para determinar se uma ação estava barata era calcular a razão entre seu preço e o lucro da empresa por ação. Se a razão fosse baixa, valia a pena comprar, porque em algum momento ela subiria. Claro, isso é uma elaboração em cima da obviedade de que para fazer dinheiro você precisa comprar barato e vender mais caro – todo o mundo sabe disso e, ainda assim, a maioria das pessoas acaba comprando caro e vendendo barato, pelo simples fato de que é difícil determinar a priori o que está barato e o que está caro e pelo não tão simples fato de que os cálculos das outras pessoas influem no resultado dos seus cálculos.

Mas não foi esse o problema que Munger enxergou. A desvantagem do método de Graham é que ele implica vender não apenas companhias medíocres que chegaram à meta, mas também ótimas empresas que ainda se manterão na dianteira por muito tempo. A grande mudança é perceber que companhias muito boas evoluem e, portanto, pode-se esperar que o preço justo por suas ações vá subindo e subindo acima da média do mercado. Assim, em vez de buscar a barganha, um bom investidor pode simplesmente buscar a companhia que vá manter uma vantagem competitiva durável.

Não é preciso dizer que essa solução simples tem um complicador semelhante ao da solução anterior: não é tão fácil assim perceber quando uma companhia terá uma vantagem competitiva durável. A receita, de acordo com Munger, é estudar. Estudar muito. “Em toda a minha vida, não conheci nenhuma pessoa sábia que não lesse o tempo todo – nenhuma, zero”, diz ele. A outra parte da equação é a paciência. Se a oportunidade não aparecer, sente na sua cadeira e espere. Quem consegue fazer isso? E, depois que você identificar um bom investimento, sente e deixe-o trabalhar para você. Durante décadas.

Contra os investidores profissionais

Conselhos tão simples assim vão contra toda a ciência do investimento. Munger não demonstra muito respeito pelos investidores especializados. Seus princípios básicos estão bem explicados no Tao de Munger. Destacamos alguns deles:

1. ter olho para o longo prazo
No curto prazo, a direção de qualquer papel é sujeita a todo tipo de mudança por eventos que não têm nada a ver com o valor de longo prazo de um negócio.

2. reavaliar o longo prazo constantemente
“Como no pôquer, você tem de aprender a desistir às vezes de uma mão que você gosta muito, porque fatos novos mudam as probabilidades”, diz Munger. Em 1999, percebendo mudanças na gestão da até então conservadora empresa de hipotecas Freddie Mac, a Berkshire vendeu todo o seu investimento ali. Alguns anos mais tarde, a empresa foi uma das mais afetadas na esteira do escândalo dos subprimes.

3. só investir no que você conhece
Nos anos 90, Munger percebeu que os negócios ponto-com que estavam surgindo estavam fora do que ele chama de seu “círculo de competência”. Por isso, a Berkshire Hathaway ficou de fora. Durante alguns anos, analistas diziam que Buffett e Munger tinham perdido seu toque de Midas, estavam ultrapassados… e aí a bolha estourou.

4. diversificar é bobagem
“Essa veneração no altar da diversificação, acho que é totalmente louca”, diz Munger. Segundo ele, a diversificação cria uma situação que basicamente mimetiza o mercado como um todo. Um analista que aconselha a diversificar nunca parece bom demais, nem ruim demais, apenas medíocre.

5. investir com paciência e conservadorismo
“Eu nunca fui capaz de prever com precisão. Nós simplesmente tendemos a entrar em bons negócios e ficar lá.” Isso inclui esperar até que apareça uma oportunidade. E quando Munger diz esperar, é esperar mesmo. Buffett saiu do mercado de ações no final dos anos 60 e ficou de fora durante cinco anos. Para Munger, quando as grandes oportunidades surgem, é preciso entrar com tudo.

6. manter dinheiro em caixa
Para aproveitar as oportunidades que aparecem de vez em quando é preciso ter capital. A maioria dos fundos de investimento não deixa dinheiro de reserva. Basicamente porque, se o mercado subir e eles não estiverem com o máximo possível aplicado, estarão dando um retorno menor do que o possível, o que desagradará seus clientes. Está errado, diz Munger.

7. prestar atenção na gestão
Para identificar se uma empresa é uma das que podem apresentar o que Munger chama de vantagem competitiva durável, um investidor deve prestar atenção no produto, claro, e nas pessoas. O exemplo mais citado da estratégia da Berkshire é seu investimento na Coca-Cola, uma empresa que tem o que Munger chama de “monopólio do consumidor”: seus produtos ocupam uma parte da mente das pessoas. Não quer dizer que a companhia seja imune a fracassos. Os gigantes também morrem. Mas o risco é menor.

8. Manter aprendizado constante
Aos 93 anos, Munger não parece muito preocupado com aposentadoria. Mais do que isso. Acredita que nunca é tarde para evoluir e melhorar. “A habilidade de Warren para investir melhorou muito depois que ele fez 65 anos. Tendo acompanhado o processo todo, eu posso dizer que se ele tivesse ficado com o que ele sabia em épocas anteriores, sua história seria uma sombra pálida do que é hoje”, diz Munger. O segredo para uma carreira tão longeva e sempre ascendente, segundo ele, é manter três princípios: a) nunca venda nada que você mesmo não fosse comprar; b) não trabalhe para ninguém que você não respeite e admire; c) trabalhe apenas com gente de quem você goste.