A pior crise da história

Letícia Toledo

Às 9h desta terça-feira os números devem sacramentar o que economistas e analistas já sabem: estamos na pior recessão da história do país desde a década de 1930. Os dados do IBGE devem mostrar uma retração de 0,6% no Produto Interno Bruto (PIB) do quarto trimestre de 2016. No ano, a economia deve mostrar um recuo de 3,6%. Será o oitavo trimestre seguido de queda e o segundo ano de recessão — em 2015 a economia encolheu 3,8%. A última vez que isso aconteceu foi nos anos de 1930 e 1931, quando a economia encolheu 2,1% e 3,3%, respectivamente.

“O resultado nesta terça deve vir ruim de maneira generalizada. O pior número deve vir da indústria, que viveu um momento ruim na parte da construção civil e da indústria da transformação”, afirma o economista Rafael Bacciotti, da consultoria Tendências. O PIB industrial deve mostrar uma queda de 3,6% em 2016. Ainda do lado da oferta, o setor de serviços deve ter encolhido 2,6%, segundo economistas. O resultado deve ser impactado pela crescente taxa de desemprego e a queda na renda das famílias.

Do lado da demanda, o desemprego, atualmente em 12,6%, impactou o consumo das famílias, que deve mostrar uma retração de 0,5% no último trimestre. O ponto mais negativo na demanda deve vir dos investimentos, que devem encolher 3,5% apenas no último trimestre do ano.

Com tantos números ruins, a economia brasileira só ganhou da problemática vizinha Venezuela. Um levantamento da consultoria 4E com 25 países mostra que a economia brasileira deve apresentar o segundo pior desempenho econômico em 2016. Atrás apenas, é claro, da Venezuela – que teve uma retração de 23% em 2016. O PIB per capita brasileiro deve fechar 2016 em seu terceiro ano seguido de retração. Em 2014 e 2015 o PIB per capita recuou 5,5%.

Segundo dados da consultoria Tendências, o ciclo atual da crise se assemelha, em termos de duração e amplitude, às duas crises da década de 1980. Após essas crises, a economia teve uma grande retomada. Após retrair 2,1% entre 1981 e 1983, a economia teve uma taxa média de avanço de 6,1% de 1984 a 1987, por exemplo. Dessa vez, o alto grau de endividamento das famílias, empresas e governo deve tornar a recuperação muito mais lenta.

Economistas divergem sobre uma recuperação já no primeiro trimestre ou no segundo trimestre de 2017. Em um ponto, eles concordam: a agropecuária será fundamental para interromper a trajetória de queda do PIB. Economistas estimam que o setor agrícola deve apresentar uma alta de cerca de 12% no primeiro trimestre na comparação com os últimos três meses de 2016.

“A agropecuária é o grande propulsor. Fora isso, acreditamos que a indústria deve apresentar uma leve melhora”, afirma Bacciotti. A expectativa é de que a queda na taxa de juros e o ajuste nos estoques influenciem para a retomada da indústria. A retomada deve vir de alguns setores que têm estoques baixos. É o caso de setores como o têxtil e de calçados, alimentos, químicos, madeira e celulose.

O problema está em outros setores importantes — que experimentaram um crescimento muito grande em anos passados e estão entre os mais afetados pela crise — e que devem continuar sem melhora. No varejo, esse é o caso de bens mais caros como imóveis e automóveis. Esses setores dependem da oferta de crédito, que só deve mostrar uma forte retomada em 2018.

A taxa de desemprego ainda alta continua sendo um grande empecilho para a retomada de crédito. Para a consultoria Tendências a taxa chegará a 14% em maio e só a partir de então iniciará uma queda. “Mesmo assim o desemprego deve terminar o ano em 11,9%. É um número muito alto e ainda deve gerar cautela por parte do consumidor”, afirma Bacciotti.

A queda da taxa de juros é tida como o fator essencial para retomar a maioria dos setores do país. O principal deve ser o investimento. Atualmente em 12,25% ao ano, economistas consultados pelo Boletim Focus esperam que a Selic esteja em 9,25% no fim do ano.

Os riscos de 2017

Mesmo após todos esses meses o principal risco para a retomada da economia continua sendo o cenário político. “O primeiro semestre é de acomodação da crise. A expectativa é de que no segundo semestre a gente tenha uma definição maior da Operação Lava-Jato e da reforma da Previdência. Esses são os principais riscos da recuperação”, afirma Guilherme Attuy, Economista da XP Investimentos.

Com ministros e o próprio presidente Michel Temer citado em delações da Operação Lava-Jato a insegurança persiste no empresariado e impede um avanço nos investimentos. Há ainda riscos internacionais. Na última semana a China revisou a meta de seu crescimento de 2017 para 6,5% – ante a meta entre 6,5% e 7% em 2016. O novo presidente dos Estados Unidos e suas polêmicas medidas também podem trazer uma insegurança global e atrapalhar a retomada de investimentos no país, afirmam economistas.

Para o ano de 2017 as projeções para a economia brasileira variam de uma retração de -0,2% até um crescimento 1,3%. Os dados desta terça-feira podem dar novas pistas de quanto o país ainda tem que recuperar.