A Espanha, enfim, deixa a crise para trás

Essa é uma notícia boa não apenas para a Espanha, mas também para a Europa e para o resto da economia global

Martorell, Espanha Dentro de uma fábrica tão cavernosa quanto um terminal de aeroporto, carros semiconstruídos desfilam sem cessar por uma linha de montagem. Trabalhadores de macacão fazem fila, realizando com atenção as tarefas meticulosamente cronometradas para transformar aço em sedãs prontos para pegar a estrada.

A movimentada atividade da montadora SEAT nesta cidade industrial a oeste de Barcelona é um exemplo da nova realidade que colore a vida na Espanha. A economia está crescendo novamente, depois de expandir-se em um ritmo de cerca de três por cento no ano passado, produzindo bens para exportação, gerando empregos e restaurando uma sensação de normalidade a uma nação que se cansou do desespero.

Essa é uma notícia boa não apenas para a Espanha, mas também para a Europa e para o resto da economia global.

Por grande parte da década passada, a Espanha padeceu como um exemplo extremo da carnificina econômica que tomou de assalto os 19 países que compartilham a moeda comum europeia. Seus níveis surpreendentes de desemprego, que chegaram a 26 por cento, representaram um marcador importante do desespero infligido pela implosão da bolha de investimentos imobiliários, combinada com a crise financeira global.

Agora, a economia da Espanha voltou ao tamanho de antes da crise, segundo dados recentes do governo. Isso aparentemente coloca um fim em uma das piores catástrofes econômicas acontecidas na Europa desde a Segunda Guerra. E sugere que o continente, que ainda enfrenta desafios imensos, até mesmo existenciais, finalmente está conseguindo se recuperar.

A sensação de revitalização é palpável ao longo do trecho à beira-mar de Barcelona, onde estivadores movimentam os braços de guindastes gigantes que colocam containers cheios de mercadorias sobre navios imensos destinados à Europa e à Ásia. Ela também contagia uma grande quantidade de startups que lotam os antes esvaziados escritórios das principais cidades espanholas, onde o custo da moradia parece mais razoável do que em Londres ou em Paris. Permeia até as vinícolas, onde um grupo de jovens empreendedores está recolhendo os restos e reinventando os negócios de família, exportando vinhos clássicos em novas garrafas.

A reconfiguração econômica da Espanha é amplamente aclamada como uma das principais impulsionadoras do crescimento. Uma década atrás, o país estava irremediavelmente viciado no boom de construções alimentadas pelo crédito que resultaram em uma falência devastadora, quebrando os bancos por causa de empréstimos ruins.

Hoje, a construção possui metade do peso que tinha na economia espanhola. As exportações aumentaram de um quarto para cerca de um terço da economia nacional.

A enorme fábrica da SEAT, parte do Grupo Volkswagen, é um exemplo excelente de como a Espanha está ganhando com as exportações. Em 2010, a fábrica perdia dinheiro ao produzir 300.000 carros por ano. No ano passado, registrou lucros de 153 milhões de euros (cerca de 172 milhões de dólares), montando 450.000 carros e exportando mais de 80 por cento dos veículos. A empresa escolheu fabricar produtos mais lucrativos, como os sedãs da Audi.

No total da economia espanhola, carros, caminhões e autopeças agora compõem mais de 17 por cento das exportações, segundo dados reunidos pelo Observatório de Complexidade Econômica do Laboratório de Mídia do MIT.

“Eles se tornaram uma indústria-modelo na Espanha em termos de como ter sucesso, transformar-se e competir no exterior”, explica Angel Talavera, economista sênior da zona do Euro da Oxford Economics, de Londres.

As exportações em expansão da Espanha auxiliaram empresas que antes estavam em dificuldades, ajudando a restaurar a arrecadação do governo, que despencou durante a crise. As receitas fiscais de Barcelona cresceram modestamente, passando de 2,5 bilhões de euros em 2013 para um rendimento antecipado de mais de 2,7 bilhões de euros este ano.

O dinheiro está lentamente voltando para a economia.

Não muito longe do porto de Barcelona, trabalhadores usando jaquetas de segurança e botas empoeiradas se preparam para descer os degraus de concreto para voltar a construir uma nova estação de metrô. O trabalho na expansão do sistema de Barcelona há tempos planejada, uma empreitada de 6,8 bilhões de euros que parou há cerca de três anos, foi retomado.

Mas o governo da Espanha ainda tem uma dívida enorme, que atinge 100 por cento da produção anual da economia – o custo que restou do pagamento de benefícios para os desempregados durante a crise e também do socorro aos bancos em apuros. Assim, o investimento do governo em infraestrutura ainda permanece pequeno.

Os despojos de uma recuperação tênue ainda são motivo para uma hostilidade amarga. Os trabalhadores do porto recentemente entraram em greve, procurando garantias de que terão três anos de emprego depois de absorver um grande revés no novo contrato, em que concordaram com cortes nos salários e permitiram que os empregadores contratassem funcionários por fora. Para aqueles que operam as linhas de metrô existentes, a pressão dos baixos salários permanece, provocando uma série de ações trabalhistas que interromperam o serviço este verão.

Mesmo assim, outras oportunidades surgiram. A crise derrubou o custo de vida na Espanha, tornando Barcelona uma das áreas metropolitanas mais acessíveis e desejáveis da Europa – um verdadeiro reino da arquitetura gloriosa, comida criativa e clima agradável.

Segundo algumas medidas, a vida em Barcelona é hoje 36 por cento mais barata do que em Londres, 28 por cento mais barata do que em Paris e quatro por cento mais barata do que em Berlim, que há tempos tem sido um ímã para jovens que procuram os confortos da civilização europeia, mas com um bom desconto.

Profissionais jovens têm vindo de todo o mundo. Alguns desembarcaram em meio a uma crescente cultura de startups, não muito diferente de outras cidades cheias de sol e cafés gourmet.

A cidade de Barcelona abriu uma incubadora, oferecendo aluguéis com grandes descontos a companhias novas enquanto acumula as armadilhas comuns dos reinos das startups; móveis desconfortáveis de formatos irregulares em tons neon, paredes de vidro, escritórios abertos.

“Uma crise é provavelmente o melhor momento para começar um negócio”, afirma David Pérez, que abandonou sua carreira na IBM para lançar a Go-PopUp, uma plataforma que combina donos de espaços comerciais com inquilinos que procuram montar lojas temporárias.

A crise também aumentou o espírito de inovação espanhol, forçando empresas imersas na tradição a reinventar seus negócios.

A Ficosa, um negócio de autopeças estabelecido perto de Barcelona, por exemplo, expandiu-se além de seu produto principal (espelhos laterais e retrovisores) para focar em tecnologia de carros sem motorista.

Um processo parecido de reinvenção está acontecendo na indústria do turismo, onde uma startup, a TripUniq, está mobilizando especialistas locais para customizar itinerários de viagem para os visitantes.

A comida e o vinho também estão experimentando uma transformação.

Por anos, os irmãos Virgili – os gêmeos idênticos Alex e Albert, de 27 anos, e seu irmão mais velho, Jordi, de 32 – convenceram o pai a modernizar a vinícola da família, a Casa Berger. Há muitos anos ela produzia vinhos simples em massa, que eram enviados através da fronteira e engarrafados como vinhos de mesa com um rótulo que dava dinheiro: “Produto da França”.

Os irmãos queriam engarrafar seus próprios vinhos. Mas o pai se opôs porque achava a mudança temerária. Ele e seu próprio pai tocavam o negócio do mesmo jeito há meio século. Ainda assim, mesmo antes da crise, as vendas da Casa Berger estavam diminuindo. A crise ameaçou levar a empresa à falência. Para os irmãos, havia uma oportunidade.

Eles conceberam uma ideia que parecia ridícula e sublime ao mesmo tempo. Iriam engarrafar um vinho branco feito de uva Xarel-lo, uma variedade local sem distinção particular. Colocariam no rótulo das garrafas uma brincadeira rude em catalão, chamando-o de El Xitxarel-lo, que se traduz aproximadamente por “jovem e estúpido”. Depois, enfeitariam a garrafa com seis dúzias de insultos em catalão.

“Quando dissemos para nosso pai e nosso tio que queríamos lançar uma garrafa com 77 insultos em catalão, eles disseram: ‘Ok, mas, por favor, não coloquem nossa marca nela’”, conta Albert.

Hoje, o El Xitxarel-lo, vendido por meio de uma campanha caseira e irreverente nas redes sociais, tornou-se o sucesso que salvou o negócio da família. Eles começaram com 3.000 garrafas, no outono de 2013, e agora vendem 85.000 por ano.