A corrida da delação

Eis uma daquelas situações que só uma Lava-Jato pode proporcionar. Diante da expectativa de que os procuradores que cuidam da operação em Curitiba não tenham interesse na delação das duas empreiteiras que ainda não colaboraram, o clima esquentou entre OAS e Odebrecht. A intenção de ambas é seduzir os investigadores com novos fatos e provas e mostrar qual das duas pode ser mais decisiva para novas descobertas.

A guerra de versões chegou à imprensa. Dúvidas foram colocadas quanto a quais fatos os dirigentes das empreiteiras, Léo Pinheiro, da OAS, e Marcelo Odebrecht, da Odebrecht, estariam dispostos a contar. Muitos desses fatos são de conhecimento de ambos os executivos, já que as duas construtoras faziam parte do chamado “Clube do Bilhão”, que combinava preços, propinas e a maneira de atuação nas grandes obras relacionadas à Petrobras.

“Caso as empresas tenham revelações e provas parecidas sobre os mesmos fatos, faz sentido que o Ministério Público só aceite a delação de uma delas”, diz Thiago Bottino, professor da Fundação Getúlio Vargas.

Ao que se sabe, no caso da OAS, Lula seria o principal alvo. A construtora foi responsável pela reforma do sítio que seria do ex-presidente em Atibaia e do tríplex no Guarujá. A OAS também fez pagamentos para a agência Pepper, responsável por parte da comunicação durante a campanha da presidente Dilma Rousseff em 2010.

A lista da Odebrecht pode ser bem maior. Nas gravações feitas por Sérgio Machado, o presidente do Senado, Renan Calheiros, disse que, se seu ex-presidente Marcelo Odebrecht abrir o bico, “não escapa ninguém, nenhum partido”. Uma lista apreendida pela Polícia Federal na sede da empresa tinha o nome de mais de 200 políticos e dados de doações feitas nas últimas três eleições. É esperar para ver qual o resultado dessa inusitada corrida entre duas empresas acostumadas a dividir o mercado para não concorrer entre si. A competição, enfim, chegou.