A China de olho no Brasil

Lourival Sant’Anna

A China enfrenta o desafio de migrar do modelo de desenvolvimento impulsionado pelas exportações para o consumo interno. A maior dificuldade é convencer a população a gastar suas poupanças, diante da ansiedade com a falta de um sistema sólido de seguridade social e do envelhecimento demográfico. De outro lado, a China sofre com um excesso de capacidade instalada, acumulada nos últimos dez anos, não só na indústria, mas também na construção civil. É nesse contexto que o programa de concessões para a expansão da infraestrutura do Brasil interessa genuinamente à China. Foi o que afirmou, em um seminário na terça-feira, o cientista político Lanxin Xiang, diretor do Centro de Estudos de Segurança One Belt One Road (de Xangai), um ambicioso projeto de desenvolvimento, também conhecido como “Nova Rota da Seda”, que aumentará as ligações físicas da China internamente e com o resto do mundo.

Presente na plateia do seminário, realizado na Fundação FHC, em São Paulo, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso lembrou que, quando foi pela primeira vez à China, como chanceler (cargo que ocupou de outubro de 1992 a maio de 1993), ficou surpreso de ver que a embaixada do Brasil em Pequim pertencia ao “grupo A”, das prioridades mais altas. E que os chineses não viam o Brasil como um país sob a influência dos Estados Unidos. “A China descobriu o Brasil antes de o Brasil descobrir a China”, constatou FHC.

Lanxin confirmou que o Brasil, como “âncora das relações com toda a América Latina”,  está entre as prioridades da China. “A China vai fazer a infraestrutura do Brasil”, aposta Lanxin, dizendo-se “totalmente otimista” quanto ao futuro das relações com o Brasil. “Entendemos a África, mas não sabemos nada da América Latina”, reconheceu o analista, de 59 anos, que lembra que até o fim do século passado a única coisa que conhecia do Brasil eram os livros de Jorge Amado. Ele lembrou que a ligação da China com a África não data dos projetos recentes de troca de recursos naturais por construção de infraestrutura no continente, mas remonta aos anos 60, o período da independência dos países africanos, quando “Mao Tsé-tung teve a fantasia de exportar a revolução” para eles — coisa que não pôde ser feita em relação à América Latina.

Mesmo assim, a penetração chinesa na América Latina foi muito mais rápida do que na África, por causa da infraestrutura e do grau de instrução maiores. Ele observou que, na visão de governantes como Lula, Hugo Chávez e Evo Morales, o Consenso de Washington (o modelo liberal) não funcionou na região e, buscando outro modelo de desenvolvimento, pensaram: “Talvez possamos aprender algo com a China”. Além disso, gostaram da abordagem chinesa, essencialmente econômica, em contraste com o intervencionismo político e econômico dos Estados Unidos.

Na cúpula do Brics, nos dias 15 e 16, o presidente chinês, Xi Jinping, chamou a atenção para a onda de retrocesso da globalização — como já havia feito na reunião do G-20, no início de setembro. E propôs um acordo de livre comércio entre essas cinco maiores economias emergentes (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Lanxin recorda que as parcerias Transatlântico (EUA-União Europeia) e Transpacífico (EUA, Canadá, países asiáticos e latino-americanos) foram desenhadas para diluir a função da Organização Mundial do Comércio e para enfraquecer e isolar a China. Diante disso, a reação de Xi é promover zonas de livre comércio.

“O Brics como um formato específico é importante do ponto de vista geoestratégico, porque proporciona aos chineses uma voz e uma coordenação política de alcance global, não só no nível econômico mas também no da governança, para a China levar adiante as discussões da reforma do sistema monetário, do esquema de resolução de conflitos e do sistema ONU”, considera Lanxin.

Ele lembrou que há 20 anos a China lançou a Estratégia de Desenvolvimento Ocidental, destinada às regiões central e oeste, mas não teve muito sucesso, por causa do baixo nível de educação e de consumo da população nessas regiões. Agora, 18 províncias são contempladas com projetos de infra-estrutura pelo programa One Belt One Road, e que delas se estenderá para outros 65 países, em direção ao oeste e ao noroeste. O programa tem três eixos, ou “cinturões” terrestres, como sugere o seu nome: Rússia; Ásia Central e Europa Oriental; Oriente Médio e Turquia. Além disso, há a “rota marítima”, que leva até o Mediterrâneo. Mas a ênfase está sendo dada às ligações terrestres, disse ele, por causa da vulnerabilidade do transporte marítimo, que poderia ser neutralizado em 24 horas pela Marinha americana.

De acordo com levantamento feito pelo pesquisador Stephen Aris, do Centro de Estudos de Segurança de Zurique, o programa é financiado por uma grande variedade de instituições. O Fundo da Rota da Seda, criado para o programa, utiliza recursos das reservas em moedas estrangeiras, e entra com cerca de US$ 40 bilhões. O Banco de Exportação e Importação (Eximbank) da China emprestou US$ 80 bilhões em 2015. Os bancos de Desenvolvimento e de Desenvolvimento Agrícola da China também farão empréstimos. O financiamento vem também do Banco de Investimento em Infraestrutura Asiática (AIIB), do qual participam 57 países (o Brasil se inscreveu, mas ainda não referendou seu ingresso), com um aporte de US$ 89 bilhões, dos quais US$ 30 bilhões da China. O Novo Banco de Desenvolvimento, que pertence aos Brics, está envolvido também. Cada um dos cinco emergentes entra com US$ 10 bilhões nesse banco. Há ainda os bancos e governos das províncias chinesas.

Segundo Lanxin, o modelo baseado no comércio se esgotou, até pela própria queda das trocas internacionais. Desde a crise financeira de 2008, o comércio está crescendo menos do que o PIB mundial, ao contrário do que ocorria antes. A onda de protecionismo na Europa e nos Estados Unidos começa a dar uma base política a essa tendência econômica — justo no momento em que o Brasil se lança tardiamente em busca de acordos comerciais, já firmados entre os outros países e blocos. Mas o consumo interno também não cresce, por causa das preocupações dos chineses com seu futuro, num contexto de envelhecimento da população, sem um sistema de previdência que o sustente, ainda mais para os dois terços dos habitantes do país que vivem no meio rural.

“Essa transição envolve muitas áreas. Como reformar as estatais muito ineficientes, que são mantidas porque sustentam o sistema bancário?”, exemplifica Lanxin, referindo-se aos empréstimos que as empresas tomam dos bancos (também estatais). “Xi ainda não promoveu um grande divisor de águas. As ideias estão lá, mas as resistências são muito grandes.” Ele disse que o governo não consegue sequer implementar suas decisões no nível ministerial: ali já começam as resistências.

Normalmente, no Ocidente, observou Lanxin, acredita-se que é preciso mudar o sistema político — ou seja, instaurar a democracia — para instituir uma economia de mercado. “A China acredita que pode de alguma maneira manter o sistema político e até usar a autoridade do Estado para lançar um projeto de desenvolvimento”, disse o analista.

“Isso tem muito a ver com a história única do país, que viveu muitas histórias de sucesso econômico.” Ele lembra que, na década de 1830, antes da Guerra do Ópio, o PIB chinês representava 33% do mundo. Hoje está ao redor de 10%. Atualmente a China é acusada de inundar o mundo com produtos baratos, mas, naquela época, a riqueza do país estava baseada na exportação de três produtos de luxo, para os quais ela não tinha concorrentes: seda, porcelana e chá.

Lanxin defendeu a China da acusação de criar um “excesso de dinheiro” na economia americana, ao comprar os títulos da dívida dos EUA. “É um exagero, e não podemos absolver Wall Street pelos seus erros.” De qualquer maneira, continuou o analista, para o presidente Xi, a China não viveu nos últimos anos uma “ascensão”, mas uma “restauração”, ou uma “re-ascensão”. Nesse sentido, não haveria uma novidade econômica, e portanto também não haveria a necessidade de introduzir um regime político novo.

Portanto, para Xi, a prioridade é o que ele chama de “o sonho chinês”: manter a prosperidade reduzindo os desequilíbrios dentro do sistema. O desafio para o presidente chinês é “a corrupção abrangente dos funcionários do governo”. Lanxin fez uma distinção importante entre os conceitos de legitimidade política no Ocidente e na China. No Ocidente, a legimitimidade vem da democracia, que é vista como um espaço no qual há divisão do poder, pesos e contrapesos. Já na China, disse ele, o que importa é o aspecto moral, em vez do instituicional: ou seja, o comportamento dos governantes. “Na história política da China, governa quem ocupa o terreno da alta moral”, analisa ele. Daí a necessidade de “corrigir” a conduta dos dirigentes. Mas, segundo Lanxin, antes de Xi, que assumiu em 2013, nenhum político quis enfrentar o problema da corrupção, porque tem de incomodar muita gente. “Xi enfrentou. Não tenho certeza se isso gera estabilidade ou instabilidade, mas o fato é que ele é um presidente muito popular.”

Xi preside os 13 comitês mais importantes do Partido Comunista Chinês (PCC), supervisionando pessoalmente as áreas de defesa, finanças, saúde e seguridade social, por exemplo. Aparentemente ele acredita que não pode delegar muito, se quiser que as coisas realmente andem.

Em julho, Xi exortou os 88 milhões de membros do partido a recuperar o fervor marxista. “A história nos diz que a escolha do povo chinês do PCC para guiá-lo rumo à grande renovação da civilização está correta, e que o caminho do partido para o socialismo com características chinesas também está correto”, disse ele, em discurso transmitido pela televisão, no 95.º aniversário do partido. “O marxismo deve ser o princípio básico, fundamental, guiador. Ou o partido perderia sua alma e sua direção.”

Perguntei a Lanxin se esse aparente chamado à ortodoxia tinha relação com o receio do governo com as consequências políticas da desaceleração econômica: o crescimento de 6% ao ano, em contraste com os mais de 10% até 2011, poderia não ser suficiente para entregar a prosperidade e a expansão contínua da classe média, e assim evitar um movimento mais robusto por democracia.

“Foi lançada uma campanha ideológica, que dá a impressão de estreitar o controle político, mas na minha visão não é por causa do marxismo, que está moribundo como ideologia”, respondeu o analista. “Não acho que os membros do partido acreditam no marxismo. Estão ocupados demais arrecadando dinheiro para ler ‘Das Kapital’”, disse ele, arrancando risos da plateia. “A preocupação é com a corrupção. A campanha ideológica é importante para reintroduzir a disciplina partidária. Não importa a ideologia, mas impor o que se deve e não se deve fazer.”

Quanto à corrida presidencial americana, o analista observou que Pequim prefere Donald Trump a Hillary Clinton, apesar das ameaças do candidato republicano de elevar para 45% as tarifas sobre os produtos chineses. “Hillary com certeza terá uma atitude mais hostil em relação à China, enquanto Trump ninguém conhece, mas se sabe que é um homem de negócios, e quem sabe pode ter uma abordagem mais pragmática”. Nunca subestime o pragmatismo chinês.