3 temas que definiram o encontro de Davos em 2017

A edição 2017 do Fórum Econômico Mundial aconteceu na sombra da posse de Trump e debateu incerteza sobre rumos da globalização

São Paulo – Terminou ontem a 47ª edição anual do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça.

Veja a seguir os 3 temas que dominaram o evento esse ano e como eles se conectam:

Globalização

A elite que se reúne em Davos todo ano é um dos símbolos máximos da globalização e está desorientada ao ver eleitorados que cada vez mais rejeitam os seus ideais.

Os 4 dias do evento ocorreram em meio a uma contagem regressiva pela posse de Donald Trump, que ocorreu nessa sexta-feira com tom altamente nacionalista.

O enviado do presidente-eleito a Davos foi Anthony Scaramucci, membro da sua equipe de transição, que insistiu que Trump é mal compreendido.

Ele não quer conflitos nem fechamento, disse Scaramucci, apenas corrigir assimetrias e chacoalhar estruturas – e com isso, acabaria sendo positivo para a globalização no balanço final.

Para o economista e diplomata Marcos Troyjo, diretor do BRIClab da Universidade de Columbia, “há uma possibilidade, muito pouco provável, de que Trump seja uma força positiva para reforma de instituições como a OMC e o FMI e do próprio capitalismo na China. Mas a leitura mais correta é que ele é chauvinista e protecionista, um fanfarrão que fala para as pessoas o que elas querem ouvir sem nenhuma estratégia por trás”.

Essa foi também a semana em que Theresa May, primeira-ministra britânica, começou a detalhar sua estratégia para sair da União Europeia – inclusive em sua passagem por Davos. Veja o discurso:

O papel de defender o livre-comércio acabou caindo nas mãos da China, que enviou um número recorde de delegados. Xi Jinping foi o primeiro presidente chinês da história a comparecer e abriu o evento com tom filosófico. Veja seu discurso:

Jack Ma, fundador da gigante do comércio eletrônico Alibaba, disse que a globalização enriqueceu muito os EUA – o problema foi que eles não souberam usar bem os recursos. Sobre Trump, foi cauteloso:

“Acho que os EUA e a China não deveriam nunca ter uma guerra comercial, e acho que precisamos dar ao presidente-eleito algum tempo. Ele tem a cabeça aberta, e está ouvindo”.

Alguns foram menos generosos. O investidor George Soros, notório apoiador de causas progressistas e do Partido Democrata, disse que Trump é um aspirante a ditador que vai sim fazer uma guerra comercial (e falhar).

Tecnologia

Restou a Joe Biden, agora ex-vice-presidente dos Estados Unidos, notar que a tecnologia, e não o comércio, foi a grande responsável pela mudança no perfil dos empregos.

“A tecnologia avançada divorciou a produtividade do trabalho, o que significa que estão produzindo mais do que nunca, mas com menos trabalhadores”.

Empregos continuam sendo gerados, mas em outras áreas e formatos: “Se você tem uma força de trabalho não preparada para essa transição, ela é pega de calças curtas”, diz Troyjo.

A solução seria aumentar os gastos com treinamento, para readaptação, e com seguridade social, para sustentar os novos excluídos; a ideia de renda mínima também foi bastante citada no evento.

O problema é que nem todo mundo pode e quer mudar de ocupação, e um Estado mais generoso é um substituto imperfeito (e caro) para o statuos quo atual.

Tudo isso aparece no painel sobre a 4ª Revolução Industrial:

Larry Fink, presidente-executivo da empresa de gestão de ativos Blackrock, disse que a tecnologia é o principal “cisne negro” da economia global, com potencial para criar disparidades sem precedentes.

Desigualdade

O fosse entre ricos e pobres, aliás, já era um dos eixos do evento mesmo antes dele começar: um relatório da ONG Oxfam lançado na segunda-feira mostrava que os 8 homens mais ricos do mundo acumulam uma riqueza equivalente aos 3,6 bilhões mais pobres da humanidade.

A desigualdade é o maior risco para a economia global em 2017, segundo um mapeamento anual feito pelo Fórum com centenas de experts.

O “gráfico do elefante”, do economista Branko Milanovic, mostra como a distribuição de renda global mudou de 1988 a 2008, não por país mas de acordo com o status inicial de cada indivíduo.

Os 20% mais pobres não ganharam tanto, os trabalhadores indianos e chineses foram os que mais ganharam e a classe média dos países ricos não ganhou nada. Enquanto isso, o 1% acumulou muita riqueza – e o que acontece no topo mexe muito com a média geral.

Christine Lagarde, diretora do Fundo Monetário Internacional, destacou seus esforços para colocar a questão como prioridade em uma instituição que preferia não olhar para isso:

“Quando você tem uma crise de verdade, que tipo de medidas você toma para reduzir a desigualdade? Isso provavelmente significa mais redistribuição”.

Também foi clara a sensação, entre os participantes, de que as surpresas eleitorais recentes mostram que a elite perdeu contato com as massas e precisa fazer um esforço consciente para sair da bolha.

“Passei grande parte do ano passado tentando ser uma antropóloga ‘mano a mano’ visitando partes diferentes dos EUA, e essa jornada me lembrou do quão fácil é insular-se”, disse Gillian Tett, editora do Financial Times.