Reagentes facilitam diagnóstico de ‘vírus emergentes’

Próximo passo é testar em animais se esses reagentes também são capazes de funcionar como vacina

São Paulo – No jargão científico, vírus emergente é o recém-descoberto ou aquele cuja incidência aumenta em uma determinada região. No Brasil, alguns exemplos são o Oropouche e o Mayaro – arbovírus como os da dengue e também causadores de doenças febris agudas que estão se tornando epidêmicas no Norte do país.

Há ainda o hantavírus, responsável por uma forma grave de pneumonia capaz de matar quase metade dos infectados. Ele foi encontrado pela primeira vez no Brasil em 1993 e, desde então, cerca de 1,4 mil casos já foram notificados.

Durante os últimos três anos e meio, cientistas do Centro de Pesquisa em Virologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo se dedicaram a estudar esses e outros vírus emergentes em um Projeto Temático financiado pela FAPESP e coordenado pelo infectologista virologista Luiz Tadeu Moraes Figueiredo.

Foram ao todo 52 subprojetos, dos quais participaram mais de 50 pessoas. Até o momento, os resultados deram origem a sete teses de doutorado, nove dissertações de mestrado e 22 artigos publicados em revistas científicas – 15 deles no exterior.

Entre os avanços, destacam-se o isolamento do hantavírus Araraquara, inédito no Brasil, e o desenvolvimento de um reagente que facilitou o diagnóstico da hantavirose. “Antes, dependíamos de insumos importados. Hoje, distribuímos esses antígenos para vários locais no Brasil e também para Colômbia e Argentina”, disse Figueiredo.

Também foram criados reagentes para diagnosticar o Oropouche e três vírus causadores de encefalite: Saint Louis, Rocio e Oeste do Nilo. Este último acreditava-se não existir no Brasil, mas, recentemente, estudos sorológicos feitos em cavalos comprovaram sua presença.


O próximo passo, contou Figueiredo, é testar em animais se esses reagentes – obtidos a partir de genes do vírus inoculados em uma bactéria – também são capazes de funcionar como vacina. Leia a seguir trechos da entrevista concedida pelo infectologista à Agência FAPESP:

Agência FAPESP – Na sua avaliação, qual foi a principal contribuição do Projeto Temático “Estudos sobre vírus emergentes incluindo arbovírus, robovírus, vírus respiratórios e de transmissão congênita”, que o senhor coordenou?

Luiz Tadeu Moraes Figueiredo – A principal foi a produção de insumos para diagnóstico. Estruturamos metodologias para diagnosticar o hantavírus, o Oropouche e três microrganismos causadores de encefalite: Oeste do Nilo, Rocio e vírus da encefalite de Saint Louis. Isso não só tem possibilitado o diagnóstico de indivíduos em diversas regiões como também tem permitido estudos populacionais. Nesse tipo de estudo, coleta-se sangue de uma amostra relevante da população de uma comunidade e aplica-se o teste contra um determinado vírus. Obtêm-se então os níveis de anticorpos contra aqueles patógeno naquela população. No caso do hantavírus, por exemplo, há cerca de dez estudos populacionais recém-publicados ou prestes a serem publicados. Foram feitos em locais como Amazonas, Santa Catarina, Mato Grosso e até na Colômbia. Em Ribeirão Preto, aplicamos o teste em amostras coletadas nos anos 1980 e encontramos resultados positivos. Isso mostrou que a hantavirose é antiga no país e o que emergiu foi nosso conhecimento sobre a existência desses vírus e a doença que eles causam. No Ceará e na Colômbia, o primeiro diagnóstico de infecção humana por hantavírus foi feito usando nosso antígeno.

Como foram desenvolvidos esses reagentes?

Figueiredo – Pegamos o sangue de um indivíduo doente, detectamos o vírus, retiramos parte do seu material genético e inoculamos em uma bactéria Escherichia coli. O bacilo passou a produzir a proteína N do hantavírus com segurança e em grande quantidade. Com esse peptídeo, produzido pela técnica do DNA recombinante, conseguimos estruturar métodos de diagnóstico de Elisa – Enzyme-Linked Immunoabsorbent Assay, um teste imunoenzimático que permite a detecção de anticorpos contra o hantavírus no plasma sanguíneo. Nosso próximo objetivo é testar esses peptídeos como vacinas. Queremos verificar se eles são capazes de imunizar animais.


Que tipo de estudos o isolamento do hantavírus Araraquara tem permitido realizar?

Figueiredo – Estamos sequenciando o genoma completo do vírus, pois até hoje tínhamos apenas pedacinhos de RNA. Isso permitirá conhecer como ele funciona, como se multiplica, como evolui e se tem particularidades que o diferenciam de outros vírus. Para estudar vários aspectos da epidemiologia também é preciso ter o vírus isolado. Por exemplo, para entender melhor como ocorre a transmissão para o homem – acreditamos que seja pela aspiração de poeira contaminada com a urina de roedores infectados, mas queremos entender melhor esse processo. Queremos saber quanto tempo o vírus fica viável na urina do rato. Já sabemos que o reservatório do hantavírus Araraquara é Necromys lasiurus, popularmente chamado de rato do rabo peludo. O Araraquara é o hantavírus mais agressivo conhecido, pois quase 50% dos que são infectados e apresentam a doença morrem. Existem outros hantavírus no Brasil, mas que não foram isolados. Para manipulá-los, é preciso um laboratório de biossegurança nível 3, no qual o risco de contaminação do pesquisador e do ambiente com o vírus é muito reduzido. Os hantavírus são causadores de doença grave. Isso dificulta e encarece as pesquisas.

Quais os avanços alcançados nos estudos sobre o vírus da dengue?

Figueiredo – Fizemos um estudo filogenético grande. Graças a computadores de alta capacidade, conseguimos alinhar as sequências nucleotídicas e mapear o genoma de centenas de vírus. Cada um dos quatro sorotipos do vírus da dengue – DEN-1, DEN-2, DEN-3, DEN-4 – se divide em vários subtipos e, dentro de cada subtipo, já descobrimos variantes. Chegamos a propor criar um novo subtipo dentro do DEN-3. Em outro estudo, desenvolvemos um exame de PCR [reação em cadeia da polimerase] em tempo real para diagnóstico rápido da dengue. Esse exame procura o genoma do vírus no sangue do paciente com enorme sensibilidade. Nossos testes mostraram que ele é eficaz também com amostras de saliva e urina. Agora, o exame está sendo aplicado em uma situação real de epidemia na região Norte. A grande vantagem em relação à sorologia, método mais usado hoje, é a rapidez. Para fazer a sorologia é preciso esperar até o quinto dia da doença, quando os anticorpos começam a ser detectados, para colher o sangue. Depois, ainda demora uma semana para sair o resultado. Para o médico isso não tem muita utilidade. O ideal seria ter a resposta em algumas horas para orientar a conduta terapêutica. Como o vírus da dengue está se tornando hiperendêmico no Brasil, é importante ter maneiras de diagnosticar rapidamente a doença.


Por que está se tornando um vírus hiperendêmico?

Figueiredo – Nós temos os quatro sorotipos do vírus circulando continuamente no país. Cada ano as epidemias são causadas por um sorotipo diferente. Isso aumenta o risco de as pessoas contraírem a doença pela segunda ou terceira vez e, consequentemente, aumenta o número de casos graves e mortes. Antes, você não via manifestações graves em crianças e hoje elas estão se tornando frequentes, pois até crianças já estão contraindo a doença pela segunda ou terceira vez.

Como se comprovou que o vírus do Oeste do Nilo está presente no Brasil?

Figueiredo – Quando esse vírus foi introduzido nas Américas, em 1999, tornou-se um problema gravíssimo de saúde pública nos Estados Unidos. Além de muitas mortes por encefalite, o vírus causou também problemas em bancos de sangue. Muitos se contaminaram com transfusão. Com as aves migratórias o vírus chegou à América Central, Venezuela e Colômbia. Depois foi encontrado na Argentina. Não seria possível que ele tivesse pulado o Brasil. Mas não havia reagentes para fazer o diagnóstico da encefalite do Nilo Ocidental no país. No primeiro estudo brasileiro sobre o vírus, o pesquisador teve de realizar seus testes na Argentina. Tivemos de desenvolver os peptídeos e, para testá-los, fizemos um inquérito sorológico em cavalos de diversas regiões. Encontramos vários resultados positivos.

Por que cavalos?

Figueiredo – Tanto o vírus do Oeste do Nilo, como o Rocio e o da encefalite de Saint Louis são zoonoses de aves que causam infecção no sistema nervoso central do homem e de animais domésticos, principalmente o cavalo. Se você quiser procurar um vírus como o do Oeste do Nilo, a melhor maneira de detectá-lo seria no cavalo. É um animal grande, fica ao ar livre e é bastante picado por pernilongos, que são os transmissores da doença. Outra possibilidade seria fazer em aves, mas é mais difícil.


Há risco de o vírus do Oeste do Nilo causar no Brasil um problema tão sério quanto nos Estados Unidos?

Figueiredo – É muito provável que na América Latina não cause o mesmo problema que causou nos Estados Unidos. Primeiro porque nós temos a dengue, que é causada por um vírus da mesma família e gênero que o Oeste do Nilo. As pessoas são vacinadas contra febre amarela, que é outro vírus da família. Temos ainda outros arbovírus endêmicos circulando, como o da encefalite de Saint Louis e o Rocio, que são primos do Oeste do Nilo. Essa imunidade cruzada deve conferir alguma proteção. O que se espera é que as pessoas tenham uma doença branda ou nem manifestem os sintomas. Ainda assim, é preciso ter atenção e capacitar os laboratórios de saúde pública para que possam fazer o diagnóstico dessa virose.

Quais outros vírus emergentes existem no Brasil?

Figueiredo – Graças a uma parceria com pesquisadores do Amazonas, conseguimos mostrar que já estão ocorrendo epidemias causadas pelo vírus Oropouche e pelo Mayaro na cidade de Manaus. Antes, eles estavam restritos às regiões de floresta. Desenvolvemos os métodos de diagnósticos em Ribeirão Preto, mas, como esses vírus não ocorrem em nossa região, testamos no Norte. Esses vírus causam uma doença parecida com a dengue. O Oropouche pode causar meningite em alguns casos. Já é a segunda arbovirose no país, atrás apenas da dengue. O Mayaro é um vírus primo do Chikungunia, que está causando uma enorme epidemia na Ásia. Em países como Índia e Indonésia são milhões de casos. Os serviços de saúde têm medo de que ele seja introduzido no Brasil, pois sua transmissão ocorre pelo mosquito Aedes aegypti. O Mayaro, por enquanto, não é transmitido pelo aedes, mas em laboratório já foi demonstrado que isso é possível. Se essa adaptação ocorrer, poderá haver grandes epidemias, será uma nova dengue.

Qual é a letalidades desses vírus?

Figueiredo – Como ainda são pouco estudados, não se sabe ao certo. Mas acredito que tenham potencial para matar em alguns casos. Tanto o Mayaro como o Chikungunia causam sintomas similares à dengue, mas também costumam inflamar as articulações. Pretendemos agora produzir reagentes para facilitar o diagnóstico desses patógenos. A medicina no Brasil, sobretudo nessa área que lida com vírus mais exóticos, carece de reagentes. E quem tem de produzi-los somos nós, pois ninguém está mais interessado em Oropouche ou Mayaro do que os afligidos por eles. É diferente do HIV ou da hepatite C, por exemplo, que ocorrem em todo o mundo. Estão surgindo novos vírus e os já conhecidos estão em constante mutação. Temos de ter armas diagnósticas e ficar atentos a isso.