Quer felicidade? Compre. A ciência mostra como

Dinheiro bem gasto pode, sim, tornar a vida mais feliz, dizem os cientistas. E eles mostram como empregar bem seu capital para obter felicidade

São Paulo — É melhor trocar seu carro por um novo ou investir o dinheiro numa viagem de férias? Perguntas como essa vêm sendo feitas há anos por psicólogos interessados em descobrir que tipo de gasto traz mais satisfação.

Pesquisas mostram que dinheiro bem gasto pode, sim, tornar a vida mais feliz. Mostram, também, quais tipos de investimento trazem o melhor retorno em felicidade. Veja quatro conselhos dos cientistas:

1 Compre experiências

Viver uma boa experiência traz muito mais felicidade do que possuir um objeto valorizado. É o que mostrou um estudo pioneiro de Leaf van Boven e Tom Gilovich, publicado em 2003. 

Os dois perguntaram a voluntários sobre gastos de mais de 100 dólares que tinham feito. Pediam que avaliassem se a compra os havia tornado mais felizes.

As respostas foram inequívocas. Gastos relacionados com experiências – como viajar, praticar um esporte ou assistir a um show – trouxeram muito mais satisfação que a simples compra de objetos.

Boven, Gilovich e M. Campbell observam, em outro estudo, que as pessoas gostam mais de falar (e de ouvir) sobre experiências do que sobre bens. Para muitas, discutir uma experiência proveitosa já traz sensação de felicidade. Discutir uma compra puramente material não tem o mesmo efeito.

“As experiências fazem as pessoas mais felizes porque elas permitem mais reinterpretações positivas; são mais significativas para a identidade de cada um; e contribuem de forma mais efetiva para as relações sociais”, resumem Boven e Gilovich.

Outra pesquisa, de Ryan Howell e Graham Hill, aponta que, em comparação com os bens materiais, as experiências estão menos sujeitas a comparações desfavoráveis que reduzem a satisfação pessoal.

Uma pessoa pode comprar um carro novinho e, no instante seguinte, descobrir que seu vizinho tem um veículo mais luxuoso e potente. Essa constatação tende a reduzir a satisfação obtida com a aquisição.

As experiências estão muito menos sujeitas a esse tipo de comparação. Se uma pessoa passa uma semana surfando na praia, ela dificilmente vai se sentir menos satisfeita ao descobrir que outras pessoas passaram a mesma semana num iate de luxo.

2 Compre objetos experienciais

Objetos que trazem experiências são ótimo investimento para quem quer obter retorno em felicidade.

Muitas experiências são efêmeras. Um show de rock dura, no máximo, algumas horas. Uma viagem de férias dura alguns dias ou semanas. Os chamados objetos experienciais podem levar a vivências mais duradouras. 

Quem compra uma bicicleta vai, supõe-se, pedalar muitas vezes nela. Quem adquire uma prancha de surf ou um instrumento musical tem a oportunidade de viver experiências relacionadas com esses objetos pelo resto da vida. 

Darwin Guevarra e Ryan Howell, autores de um estudo sobre o assunto, apontam que, pelo tipo de experiência que proporcionam, esses objetos trazem sensação de realização. 

Quem percorre uma trilha na montanha de bicicleta, surfa uma grande onda ou aprende a tocar determinada música em seu instrumento sente que realizou algo. E tende a se sentir mais feliz e confiante.

3 Compre tempo

Vale a pena pagar a alguém para fazer a limpeza da casa? Provavelmente sim, se você detesta limpar a casa ou prefere empregar seu tempo de forma mais prazerosa. 

Também pode ser uma boa decisão mudar-se para um apartamento mais próximo de seu local de trabalho (mesmo que ele seja menor ou traga despesas maiores), de modo a perder menos tempo no trânsito. Nos dois casos, você estaria comprando tempo.

Elisabeth Dunn e Michael Norton discutem a questão no livro “Happy Money – The Science of Happier Spending” (“Dinheiro Feliz – A Ciência de Gastar e Ser Mais Feliz”, em tradução livre).

Eles observam que, ao comprar tempo, você cria oportunidades para experiências que podem torná-lo mais feliz. Se não tiver de fazer a limpeza, talvez você possa ir jogar futebol, assistir a um filme ou beber cerveja com os amigos.

4 Invista nos outros

Investir nos outros é outro conselho que Dunn e Norton dão em seu livro. “Novas pesquisas indicam que gastar dinheiro com outros dá um impulso maior à felicidade do que gastar dinheiro com si mesmo”, dizem eles.

Os bilionários Bill Gates e Warren Buffett devem saber disso. Gates trocou sua bem sucedida carreira de empresário pelo comando de uma fundação beneficente. 

E Buffet já disse que vai doar 99% de sua fortuna para a filantropia, observam Dunn e Norton. Ao anunciar a decisão, Buffett declarou: “Eu não poderia estar mais feliz com essa decisão”.