Conheça o brasileiro que vai comandar o maior jardim botânico do mundo

Alexandre Antonelli é natural de Campinas e é o primeiro não-britânico a ocupar o cargo de diretor científico do Kew Gardens

Londres — À primeira vista, logo na entrada, os Reais Jardins Botânicos de Kew — ou Kew Gardens — se parecem “só” com um grande parque. Mas a fachada relativamente simples não condiz com tudo que o local, aberto em 1759, representa. Tombado como patrimônio mundial pela UNESCO em 2003, o imenso jardim com suas estufas ocupa uma área de 121 hectares na região periférica de Londres. E mais do que tamanho, as instalações abrigam 30 mil espécies da flora global e um herbário com cerca de 7 milhões de tipos de plantas catalogados. O local também é um centro de pesquisas, com mais de 300 estudiosos recrutados para viajar pelo mundo e desenvolver trabalhos focados na preservação da biodiversidade. E todos eles passaram, na última semana, a ser chefiados por um brasileiro: Alexandre Antonelli.

Natural de Campinas, em São Paulo, o biólogo foi indicado ao posto de diretor científico do Kew Gardens ainda no final de 2018. Primeiro não-britânico nesta posição, Antonelli começou os estudos na Unicamp em 1996 e os finalizou na Suécia, onde vivia. Ele sucede outra pioneira no cargo, Kathy Willis, a única mulher a ocupar a cadeira na história do jardim. E o campineiro chega ao comando da instituição britânica em um momento delicado para o planeta — e também para o Reino Unido, mas por motivos um pouco diferentes.

Extinções e seus riscos

O maior dos problemas está nas ameaças à biodiversidade, um campo no qual o jardim real está focado há anos — e que deverá continuar como principal “alvo” dos pesquisadores. Segundo dados do próprio Kew Gardens divulgados em 2016, uma em cada cinco espécies de plantas no globo estão ameaçadas de extinção. Milhares de novos tipos de vegetação são descobertos todos os anos, mas a situação da preservação não melhorou muito de lá para cá.

A questão tem certa relação com o aquecimento global, mas os seres humanos também a provocam de forma ainda mais direta. Espécies intrusas levadas a diferentes regiões e até mesmo o cultivo de poucas espécies na agricultura (como no filme Interestelar, de 2014) e desastres, como o de Brumadinho, são pontos que colaboram.

“Acredito que a diminuição da biodiversidade é um problema até maior do que o das mudanças climáticas”, disse Antonelli, em uma conversa com jornalistas em que EXAME esteve presente. “Com o tempo, se medidas forem tomadas, o clima volta a um certo equilíbrio. Mas se você perde uma espécie de planta ou de animal, ela nunca mais volta.”

Os danos potenciais que uma extinção provoca são enormes. Espécies perdidas, por mais que pareçam insignificantes, podem representar oportunidades perdidas, na visão de Antonelli. “Ninguém sabe se um tipo de planta extinto poderia ter provido a cura de uma doença, como um câncer, por exemplo”, explicou. O biólogo lembrou do caso da penicilina, antibiótico que vem de um fungo no pão e foi responsável por salvar milhões de vidas.

Aliados da biodiversidade

Antonelli deve encabeçar algumas iniciativas já iniciadas em “mandatos” anteriores, como o projeto Millennium Seed Bank. A ideia de catalogar e guardar amostras de sementes de plantas começou a ser posta em prática em 1996, e tem como objetivo juntar exemplares de 25% de todas as espécies de plantas do mundo até 2020.

O biólogo brasileiro também tem como meta acelerar a catalogação de espécies e aumentar o portfólio de imagens registradas no banco do Kew Gardens. Para isso, espera contar até com a ajuda da população e dos chamados “citizen scientists” (cientistas cidadãos) munidos de smartphones com câmeras para fotografar.

A ideia é, futuramente, ter um aplicativo capaz de identificar diferentes tipos de vegetação só de “olhar” para elas. “Existem hoje tecnologias que permitem tirar a foto e fazer o reconhecimento juntando inteligência artificial e aprendizado de máquina”, explicou Antonelli. “Mas, para isso, precisamos de um banco de imagens de referência, algo que eu gostaria de criar agora no Kew. Se der certo, teremos uma base de dados que vai ajudar qualquer pessoa a só abrir o celular e saber que espécie de planta é.”

Millenium Seed Bank em Wakehurst, no Reino Unido

Millenium Seed Bank em Wakehurst, no Reino Unido (Kew Gardens/Divulgação)

Como fica com o Brexit?

Dos 300 pesquisadores que trabalham no Kew Gardens, uma parcela considerável vem de fora do Reino Unido. A porcentagem de europeus não é tão grande, mas esses são os que mais podem ter a vida afetada de alguma forma pela saída do país da União Europeia.

Mas os efeitos reais do Brexit ainda são uma incógnita para Antonelli e a equipe do jardim real. O parlamento britânico ainda não chegou a uma conclusão sobre o processo e ainda não está claro se haverá ou não um acordo para estender a relação com o bloco econômico por um período de transição. Isso tudo pode definir a estratégia que a instituição vai seguir e que o novo diretor terá que preparar para os próximos anos.

“O Kew sempre foi aberto a colaborações internacionais e vai continuar sendo assim”, garantiu, lembrando que o jardim tem relações com 110 países ao redor do mundo, dentro e, principalmente, fora da Europa. “Estamos aguardando o desenrolar dessa história para ver aonde vai chegar e para fazermos o possível para consolidar e continuar com as nossas colaborações internacionais.”

Entre as metas, Antonelli fala em aumentar a colaboração com a China e, principalmente, o Brasil. A relação com o país de origem do biólogo existe hoje, mas está consideravelmente mais fraca com os cortes de verbas nacionais para ciência. Os investimentos reduzidos levaram ao fim até mesmo a participação do Kew Gardens no projeto Reflora, que tinha como objetivo digitalizar os exemplares de plantas brasileiras em herbários ao redor do mundo para facilitar o acesso de pesquisadores. De 2014 até 2018, período em que a parceria funcionou, foram mais de 250 mil registros do Kew disponibilizados online e em alta resolução.

Investimentos menores à parte, o novo diretor brasileiro é otimista. “O bom da ciência é que ela é internacional e as espécies não conhecem barreiras políticas”, disse. “Então, vamos continuar dando boas-vindas a pesquisadores de fora e fazendo o possível para continuar colaborações. Nosso instituto tem 260 anos e sobreviveu a muita coisa.”

* O jornalista viajou a Londres a convite da Embaixada Britânica no Brasil pelo projeto Ano Brasil-Reino Unido de Ciência e Inovação.