O princípio do fim dos anfíbios

Um terço das espécies dos anfíbios está se reduzindo e se convertendo no grupo animal mais ameaçado do planeta

Rãs, tritões, sapos, salamandras. Estes e outros vertebrados ovíparos da mesma família zoológica têm duas coisas em comum: seus filhotes nascem na água respirando por brânquias, e os adultos vivem na terra e a água, respirando pela pele e pelos pulmões. Todos estão ameaçados e sua população corre o sério risco de diminuir dramaticamente se alguns comportamentos humanos não mudarem.

O WWF (World Wildlife Fund) identificou as ameaças para os anfíbios que são, basicamente: destruição e alteração de habitat, poluição, atropelos, doenças, espécies exóticas invasoras e mudança climática.

Para frear a grave mortandade dos anfíbios, a WWF afirma que é urgente cumprir a legislação sobre biodiversidade, a elaboração e a aplicação de planos de conservação e de recuperação das espécies mais ameaçadas, assim como garantir proteção e conservação dos habitats de interesse para os anfíbios, como ocorre já em alguns países europeus.

Para a ONG, existem medidas de fácil execução e que teriam um claro e rápido efeito para estes animais, como a criação de incentivos para boas práticas agrárias, regular a limpeza de tanques e bebedouros, controlar o uso de pesticidas em regiões sensíveis e elaborar um inventário de pontos de atropelamentos em estradas para a aplicação de medidas de correção.

O envolvimento das entidades locais (prefeituras e organizações) e da população é fundamental para que a proteção e a recuperação seja efetiva.

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“Os anfíbios são muito sensíveis às rápidas mudanças ambientais atuais. Tanto, que funcionam como um termômetro do estado dos ecossistemas. Quando algo vai mal em um ecossistema, os primeiros que o notam são estes animais, por isso são considerados excelentes “bioindicadores” da qualidade do meio”, ressalta Gema Rodríguez, técnico do programa de Biodiversidade de WWF Espanha, em entrevista com a Efe.

Segundo este especialista, os anfíbios “são tão vulneráveis porque precisam de dois tipos de habitats em muito bom estado para sobreviver: a terra, onde vivem; e a água, onde se reproduzem. Além disso, têm uma pele e um sistema imunológico muito delicado, e isso os torna muito vulneráveis a qualquer tipo de substância tóxica ou agente patogênico, como o fungo quitrídio, que está aniquilando suas populações no mundo todo”.

AMÉRICA LATINA À CABEÇA.

“As povoações de anfíbios estão diminuindo no mundo todo: mais de 30% de todos as espécies estão classificadas como ameaçadas”, segundo a Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).

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Segundo a Global Amphibian Assessment os níveis mais altos de espécies ameaçadas estão no Caribe, onde mais de 80% dos anfíbios estão em perigo de extinção na República Dominicana, Cuba, e Jamaica, percentual que alcança um pico de 92% no Haiti. O maior número de espécies ameaçadas se dá nos países da América Latina, como Colômbia (209), México (198) e Equador (163).

“Nas últimas décadas se perderam muitos dos pontos de água usados pelos anfíbios para se reproduzirem. As causas são múltiplas, como a superexploração dos aqüíferos, as mudanças de usos do solo para urbanização ou construção de infraestruturas, e as práticas agrárias intensivas”, indica Gema Rodríguez.

“Os anfíbios são muito sensíveis a qualquer substância tóxica, e a presença de poluentes na terra, o ar, e especialmente na água, os afeta enormemente. Um problema muito comum é a contaminação de lagos pelo uso excessivo de fertilizantes na agricultura, se tornando inabitável para anfíbios”, disse o especialista.

“A revista Nature publicou uma pesquisa que demonstrava que os pesticidas fungicidas, herbicidas e inseticidas, poderiam ter um impacto maior do que se suspeita no desaparecimento de anfíbios, como por exemplo, nos rãs comuns”, confirma Rodríguez.

“Algumas vezes, uma lagoa fica ao lado de uma estrada e, quando os anfíbios tentam atravessá-la para se reproduzir, ficam presos entre as rodas dos carros. É necessário respeitar as áreas deles ao planejar infraestruturas e, nas já existentes, implantar medidas de correção eficazes, como cercas e passagens subterrâneas para que estes animais possam se movimentar sem perigo”, comenta a especialista de WWF.

“Por trás da diminuição de muitas espécies de anfíbios no mundo está a transmissão de doenças. Uma das mais disseminadas é o batrachochytrium dendrobatidis (fungo quitrídio), que ataca a pele e provocou a extinção de cerca de 200 espécies nas últimas três décadas”, especifica a ambientalista.

HABITATS ÚMIDOS EM PERIGO.

“A introdução de espécies exóticas no habitat dos anfíbios pode ter um impacto muito grande sobre eles. Caso se introduzam peixes, que são os grandes inimigos dos anfíbios, em lagos de alta montanha, há consequências muito negativas para as povoações nativas desses lugares”, explica a cientista.

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“No caso dos anfíbios, um dos problemas derivados da mudança climática é a possível dissecação de lagos ou pontos de água pelo aumento das temperaturas. Além disso, a permeabilidade da pele das criaturas, seus ciclos de vida bifásicos e seus ovos sem casca protetora, os tornam extremamente suscetíveis a pequenas mudanças na temperatura, à radiação solar e aos níveis de umidade”, diz Gema Rodríguez.

“Os anfíbios estão no planeta mais de 200 milhões de anos e sobreviveram às eras glaciais e à extinção dos dinossauros, mas se não fazemos algo urgentemente pode ser que não sobrevivam os impactos das atividades humanas”, alerta a ambientalista.

“Estes seres são um elemento chave na cadeia trófica dos ecossistemas, por isso que sua extinção suporia um grande golpe para o equilíbrio do meio, devido principalmente ao seu papel como reguladores naturais das pragas ao se alimentarem de diversos tipos de insetos”, acrescenta o especialista do WWF.

Além disso, a especialista em Meio Ambiente aponta que sua perda representa um “desperdício de utilidade para a medicina”, já que muitas espécies produzem substâncias na pele para se defender de vírus, bactérias e fungos que podem ser empregadas como antibióticos para o ser humano.

Globalmente é necessário, segundo a especialista, pôr freio às ameaças mais graves que enfrentam os anfíbios, mantendo as condições de umidade de seus habitats, proibindo o vazamento de substâncias tóxicas, reduzindo o risco de atropelamentos, controlando a propagação de doenças e espécies exóticas invasoras, que afetam o grupo.

“As pessoas conscientes podem fazer muito com muito pouco. Pequenas iniciativas locais, singelas e de baixo custo, como criar um novo lago, restaurar fontes, lavadouros e outras estruturas tradicionais, adaptar balsas de agricultura e canais com rampas suaves, podem ajudar muito e quase de forma imediata às povoações de anfíbios.

(Por Daniel Galileia)