O futuro é minúsculo: veja como os nanomateriais vão mudar sua vida

Os nanomateriais têm potencial de melhorar a qualidade de vida e contribuir para a competitividade industrial

Baterias, revestimentos, roupa antibacteriana. Centenas de produtos que contêm nanomateriais já estão em uso, e a inovação “nano” será cada vez mais setores, desde segurança no trabalho e a indústria, até o meio ambiente e o espaço, explicou a Curadoria Europeia do Meio Ambiente (ECE).

Os nanomateriais têm potencial de melhorar a qualidade de vida e contribuir para a competitividade industrial, mas também podem apresentar riscos que tornam recomendável avaliar a segurança destas substâncias caso a caso.

Em que consistem e para que servem estes compostos? A ECE os define como “substâncias químicas ou materiais de escalas até 10 mil vezes menores que o diâmetro de um fio de cabelo humano e dotadas de características inovadoras”. Entre elas estariam aumento da força, reatividade química e condutividade.

“Um nanometro – nm – é uma unidade de medida muito pequena, um milhão de vezes menor que um milímetro, mil vezes menor que um micra. Também a conhecemos como micrômetro, o equivalente à milionésima parte do metro”, explicou o doutor em Ciências Físicas, Pedro A. Serena.

De acordo com este pesquisador do Conselho Superior de Pesquisas Científicas, CSIC, no Instituto de Ciência de Materiais de Madri (ICMM), “da mesma forma que um metro é uma unidade útil para medir objetos de nosso tamanho e um micra é útil para medir células, um nanômetro é uma unidade útil para pedir objetos como átomos e moléculas”.

Uma olhada ao universo imperceptível

“Chamamos nanoescala, nanomundo e nanouniverso o grupo de entidades e objetos de menos de 100 nanômetros. A nanotecnologia é o conjunto de conhecimentos que permitem conhecer as propriedades da matéria quando a observamos na nanoescala e que tenta obter vantagens deste conhecimento em novos materiais e dispositivos”, explicou Serena.

Segundo Serena, as entidades do nanomundo, dos nanoobjetos, incluem “átomos, moléculas singelas ou mais complicadas como DNA, grafeno, fullereno, nanotubos de carbono, nanopartículas, vírus, membranas celulares e ribossomos. O mostruário é realmente amplo”.

“Um nanomaterial é qualquer objeto formado por entidades tais, que uma de suas dimensões esteja abaixo dos 100 nm, como por exemplo, uma rede de nanotubos de carbono entrelaçados para formar um tecido, ou uma mistura de molécula de certos polímeros onde se inserem nanopartículas, como ocorre em muitos adesivos”, acrescentou o físico do CSIC.

De acordo com Serena, a matéria e os objetos, com dimensões nanométricas exibem propriedades novas e, em alguns casos excepcionais, que pode se tirar proveito.

“Por exemplo, uma partícula micrométrica de ouro tem cor amarela, mas em escala ‘nano’ damos a forma adequada e pode emitir luz de diferentes cores à vontade”, comentou o especialista.

“Além disso, uma nanopartícula pode viajar de um lado para outro dentro de um tecido, coisa que as micropartículas não podem fazer, e assim pode ser usada com fins médicos transportando fármacos ou atuando como marcadores”, destacou.

“Um pedaço de grafite de milímetros ou mícrons é um bom motorista elétrico, opaco e barato, mas se somos capazes de desprender desse grafite uma só lâmina de átomos de carbono, conhecida como grafeno, teremos o material que melhor conduz a eletricidade e que tem excelentes propriedades mecânicas. O nano é diferente”, defendeu.

Sobre as aplicações dos nanomateriais em nosso cotidiano, este cientista revela que há milhares de produtos que contêm nanoestructuras e que já são comercializados, “desde memórias eletrônicas, processadores, telas LED, fármacos, produtos de beleza e protetores solares, até ambientadores, dispensadores de nutrientes, potencializadores de sabor, fluidificadores ou inseticidas”.

A nanoinvasão já começou

Os nanomateriais também se aplicam em camisas, camisetas, meias soquetes, raquetes, tacos de hóquei, de beisebol, utensílios de cozinha, materiais para espelhos, composites para aeronáutica, painéis solares e em cristais de transparência regulável.

“Inclusive há nanomateriais para construção capazes de eliminar certos poluentes. A “nanoinvasão” de produtos já começou”, afirmou, categórico, o especialista.

“A nanotecnologia e a nanoeletrônica serão fundamentais para produzir dispositivos que permitam que a revolução eletrônica siga adiante e, na Medicina, é muito provável que nos ajudem a melhorar os diagnósticos e a prevenir e tratar doenças de uma maneira local e automática”, adiantou o físico.

“As nanotecnologias também têm muito o que dizer sobre o uso de recursos energéticos, através de novas baterias, novas células de combustível e veículos mais rápidos”, predisse.

Serena admitiu que estes “são exemplos de possíveis aplicações, mas a realidade costuma transbordar os prognósticos e é difícil ser guru: se os descobridores dos transístores fossem perguntados pelo futuro: seguro que a internet, as redes sociais e a telefonia celular não teria passado pela cabeça deles”.

A nanotecnologia tem riscos? Este cientista respondeu que sim, da mesma forma que “todas as tecnologias, até as mais seguras” e explicou: “o pequeno é diferente e pode ocorrer que algo que não seja tóxico ou prejudicial na escala “macro” o seja em escala nano e, além disso, as nanopartículas ou nanotubos de diversos materiais podem se movimentar com mais facilidade pelo corpo humano”.

“O estudo dos efeitos dos nanomateriais no meio ambiente e na saúde é a nano-eco-toxicologia. Há centenas de projetos no mundo estudando os efeitos de determinadas nanopartículas em diferentes organismos, assim como suas vias de entrada e de acumulação, e as taxas de exposição em que se tornariam perigosas, entre outras variáveis”, explicou Serena.

Com a nanotecnologia, acredita Serena, acontecerá como com outras tecnologias: “agora estão se desenhando os padrões internacionais ISO, as metodologias de detecção, as normas de emprego em fábricas e a regulação sobre uso em alimentos. Finalmente se avaliarão os prós e contras e o consumidor decidirá”.

Ricardo Segura.
EFE/REPORTAGENS.