O efeito Angelina Jolie nas startups de mapeamento genético

O sequenciamento genético, que permitiu à atriz Angelina Jolie se livrar do risco de ter um câncer de mama, começa a se popularizar no Brasil graças a uma nova geração de startups

São Paulo – A atriz americana Angelina Jolie causou comoção mundial em maio ao anunciar que faria uma dupla mastectomia preventiva. O motivo era a probabilidade alta que teria de desenvolver câncer de mama. Ao realizar o mapeamento de seu genoma, a atriz identificou o gene causador do câncer que vitimou sua mãe e uma tia, o que elevava em mais de 80% as chances de ter a doença.

A intervenção cirúrgica não serviu apenas para Angelina evitar o risco de desenvolver a doença. Para uma parte da comunidade médica, a atriz ajudou também a explicar ao público leigo como funciona uma área que registrou um avanço notável nas últimas décadas: a identificação e o tratamento de doenças por meio do sequenciamento genético.

Ao longo de mais de 30 anos, o mapeamento do genoma humano foi feito de maneira quase artesanal, pois exigia a análise de gene por gene em um procedimento demorado. O trabalho só foi concluído em 2001 e demandou investimentos de 2,7 bilhões de dólares. Antes da finalização, os testes, na época chamados de primeira geração, eram feitos como parte de pesquisas.

A partir de 2005, já batizados de segunda geração, ganharam escala comercial. O problema, no começo, era o preço. O valor de cerca de 350 000 dólares cobrado em 2007 era salgado até para algumas celebridades de Hollywood. Hoje, graças ao aumento da capacidade de processamento dos computadores, pagam-se 7 000 dólares por um teste completo.

É essa verdadeira revolução no diagnóstico médico que começa a dar os primeiros passos no Brasil. Desde o ano passado, empreendedores estão batendo na porta de grandes hospitais e laboratórios de análise para oferecer exames de segunda geração. O caso mais recente do setor é o da Genomika, startup com sede em Recife, criada no início deste ano.

A empresa tem entre seus sócios Silvio Meira, cientista-chefe do Cesar, centro de inovação com sede em Pernambuco. Com um investimento de cerca de 5 milhões de dólares para a compra de equipamentos, a Genomika já fechou contrato com o laboratório Salomão Zoppi e com o Hospital Albert Einstein, ambos em São Paulo.

Segundo o geneticista João Bosco Oliveira, sócio e presidente da Genomika, o foco da empresa são testes nas áreas de oncologia e de identificação de doenças raras.

O preço pode variar de 2 000 a 6 000 reais, e o prazo de entrega é de cinco semanas. Funciona assim: por meio da coleta de sangue ou de saliva, prepara-se o DNA para o sequenciamento.

Depois, faz-se a análise de bioinformática, que é o processo de cruzar as informações obtidas no teste com bancos de dados de DNAs do mundo inteiro para ver se algum paciente que já foi diagnosticado com uma doença tem genes que se assemelhem aos do DNA analisado.


A inspiração para a criação da Genomika foram empresas americanas, como a Quest e a Foundation One, ambas especializadas em sequenciamento genético. Oliveira passou sete anos debruçado sobre o tema nos Estados Unidos, onde chefiou o departamento de genética e imunologia do Instituto Nacional de Saúde, em Washington, órgão de pesquisa ligado ao governo americano.

“A grande barreira de entrada nesse segmento não é o capital. É o conhecimento”, diz Oliveira. A Genomika emprega 14 pessoas, sendo sete doutores em genética e biotecnologia. Segundo Oliveira, todos eles tiveram de passar por especialização nos Estados Unidos, que dura de dois a três anos. 

Além do conhecimento médico para a interpretação dos dados, a análise do genoma exige uma área de tecnologia consistente para o processamento de dados. Foi isso que atraiu o executivo Laércio Cosentino, presidente da empresa de software TOTVS, a investir na Mendelics, com sede em São Paulo, hoje uma das principais empresas brasileiras do segmento de mapeamento genético.

Segundo David Schlesinger, especialista em genética do Hospital Albert Einstein e sócio-fundador da Mendelics, a empresa já realizou mais de 1 000 testes no país desde maio do ano passado, quando foi lançada.

Além das duas empresas, que são focadas exclusivamente nos testes genéticos, laboratórios como Fleury, com sede em São Paulo, e Hermes Pardini, de Minas Gerais, já oferecem alguns tipos de exame de sequenciamento genético de segunda geração.

A popularização desses testes ainda está sendo assimilada por planos de saúde, que não definiram se vão pagar a conta. Nem mesmo nos Estados Unidos, onde os mapeamentos já movimentam cerca de 6 bilhões de dólares por ano, há uma posição clara sobre essa questão.

Em uma apresentação realizada no ano passado, executivos do UnitedHealth Group, um dos maiores planos de saúde americanos, destacaram que os benefícios gerados pelos exames podem ser significativos — apesar do alto custo. Em muitos casos, os testes acabam bara­teando os tratamentos de saúde, pois oferecem remédios mais precisos aos pacientes, evitando gastos provocados por diagnósticos equivocados. 

Estudos recentes sugerem que os testes genéticos estão disponíveis para menos de 2% da população mundial, mas poderiam beneficiar até 60% em uma década. Por ora, os testes mais específicos, utilizados na identificação de doenças raras ou hereditárias, como o feito por Angelina Jolie, são os que têm atraído o interesse de pacientes e de empresas.

Nos principais centros globais de pesquisas médicas, a atenção está voltada para a próxima fase do sequenciamento genético. A meta é identificar os genes causadores de doenças ainda na fase embrionária. Quando isso começar a ocorrer em grande escala, teremos uma geração de pessoas mais saudáveis, que não precisarão tomar atitudes drásticas como a de Angelina.