Museu de ciência como espaço de diálogo

Diretor do Deutsches Museum fala sobre a importância dessas instituições para a constituição de uma cultura científica e para a divulgação do conhecimento

São Paulo – Fundado em 1903 em Munique, capital do estado alemão da Baviera, o Deutsches Museum é um dos museus de ciência e tecnologia mais antigos do mundo. Com um acervo de 100 mil objetos e mais de 1 milhão de livros, abrigados em um edifício de 73 mil metros quadrados, é o maior do continente europeu e reúne uma vasta coleção de itens relacionados a descobertas e invenções, feitas tanto na Alemanha como em outros países.

Palco da FAPESP Week Munich, em outubro de 2014, o Deutsches Museum exibe atualmente a exposição Brazilian Nature – Mistery and Destiny, que pode ser vista até janeiro de 2015 em sua biblioteca.

Em entrevista à Agência FAPESP, o diretor da instituição, Wolfgang Heckl, falou sobre a importância dos museus para a História da Ciência e sobre o papel que lhes cabe na formação do público, contribuindo para a constituição de uma cultura científica e para o futuro da divulgação do conhecimento.

Qual o papel dos museus de ciência em termos de preservação da memória e na difusão do conhecimento? 

Wolfgang Heckl – Museus de ciência e de pesquisa, como o Deutsches Museum de Munique, mostram o futuro da humanidade com base na história da ciência e da tecnologia. Eles contribuem para a educação dos jovens e para aumentar o interesse em estudar ciência ou tecnologia como forma de contribuir para a riqueza de um país, em diferentes sentidos. O espaço do museu de ciência foi convertido em um local ideal para o diálogo da história com as futuras tecnologias envolvendo cidades e sociedades, sob diferentes aspectos.

No Deutsches Museum, a coleção tem ao seu lado uma grande biblioteca. A pesquisa é parte importante das atividades do museu? 

Heckl – Sem dúvida. Ao todo, temos mais de 100 mil objetos, distribuídos em mais de 50 galerias, mas apenas cerca de 30% do acervo é exibido de forma permanente.

Temos, por exemplo, o primeiro carro do mundo, a primeira foto e máquinário de Wilhelm Conrad Röntgen [físico alemão que, em 1895, descobriu os raios X], a tabela de Otto Hahn [químico alemão descobridor do urânio e da fissão nuclear], o aparelho de Arno Penzias e Robert Wilson [norte-americanos vencedores do Nobel de Física em 1978 pela descoberta da radiação cósmica de fundo em micro-ondas, que permitiu a observação do Big Bang]. Em paralelo a esse precioso acervo, temos uma biblioteca com mais de 1 milhão de livros, o equivalente a mais de cinco quilômetros de material sobre cultura científica.

Algumas de nossas exposições são baseadas nas pesquisas realizadas no museu. Por exemplo, pesquisas em nanociência são mostradas em um centro para novas tecnologias [open lab]. Nossa próxima grande exposição, sobre o Período Antropoceno, será aberta ao público em 6 de dezembro e baseia-se em resultados de pesquisas realizadas no Rachel Carson Research Center, centro de pesquisa interdisciplinar mantido pela Universidade Ludwig Maximilian [de Munique] e pelo Deutsches Museum.

Com base em sua experiência no Deutsches Museum, como o senhor vê a relação do público com museus de ciência, em termos de frequência e interesse? 

Heckl – Considerando os desafios da humanidade e do planeta, com energia, biodiversidade, envelhecimento da sociedade e desenvolvimento sustentável, entre outros, o público tem se mostrado ainda mais interessado em aprender sobre esses temas em instituições consideradas independentes, como os museus de ciência, o que pode torná-los capazes de atuar politicamente nessas áreas. Não é por outro motivo que recebemos em torno de 1,5 milhão de visitantes por ano, sendo que a metade desse público vem de outros países. Trata-se de uma das maiores frequências entre os museus do mundo.

Há algum projeto ou serviço do Deutsches Museum em outros países? Como a sua coleção pode ser acessada por um público mais amplo? 

Heckl – O projeto do Google Cultural Institute permite que, mesmo distante, o público tenha acesso ao museu, a qualquer hora e a partir de qualquer lugar. É um complemento importante às nossas atividades de divulgação da ciência.

Como o senhor avalia a lacuna existente entre países como a Alemanha, com ampla tradição de divulgação científica, e outros, onde ainda há um longo caminho a percorrer em termos de cultura científica? 

Heckl – Culturas diferentes não resultam, necessariamente, em diferentes características de pesquisa e divulgação. Não há nenhuma diferença, em princípio, uma vez que a ciência é universal.

O Brasil, por exemplo, apresenta um grande desempenho em termos de produção científica, considerando que agências como a FAPESP iniciaram suas atividades há pouco mais de meio século.

E o país tem uma importância excepcional quando se trata de temas como preservação, restauração e sustentabilidade das florestas, dos recursos naturais. Para isso, a educação científica desempenha um papel de destaque, pois ajuda a desenvolver ações responsáveis, não impulsionadas por dinheiro, mas por demandas reais da sociedade, com respeito e responsabilidade para com a humanidade e o futuro.

O Deutsches Museum inaugurou recentemente a exposição Brazilian Nature, em cartaz até janeiro de 2015. Qual a importância de uma exposição como essa para o museu? 

Heckl – Há a importância de ressaltar a antiga ligação em ciência entre os dois países. Carl Friedrich Philipp von Martius, naturalista nascido na Baviera, viajou pelo Brasil entre 1817 e 1820 coletando e analisando a flora brasileira. Parte desse trabalho pode ser vista na exposição, que no Deutsches Museum foi acrescida de alguns livros originais, como o de Joseph Jacob von Plenck sobre a flora brasileira, considerado a base da aplicação farmacêutica das plantas e que, ao lado de outros, está entre os mais valiosos da nossa biblioteca. Contudo, o mais importante é haver uma complementaridade institucional, entre a FAPESP, organizadora da exposição, e o Deutsches Museum, que permite aos nossos visitantes acesso a um maravilhoso mundo imaginário da natureza brasileira, com base na pesquisa, o que os faz pensar sobre a fragilidade do nosso planeta, nos diferentes ecossistemas e hábitats. Essa é a maior relevância dessa exposição.

Fora do espaço do museu, como as questões relacionadas à ciência são percebidas pelas pessoas em seu cotidiano? 

Heckl – Embora as pessoas percebam a importância da contribuição da ciência para a sobrevivência em um planeta com mais de 7 bilhões de pessoas, a cultura científica precisa ser constantemente reforçada, com a colaboração entre museus de ciência, escolas e universidades.

As decisões políticas são baseadas em questões científicas, em questões em que o conhecimento acumulado gera novas concepções. E isso ocorre porque a competição global ganha qualidade quando há inteligência suficiente para incorporar cultura técnico-científica na mentalidade e nos hábitos dos cidadãos.

Como foi a sua formação e como ela o levou à direção do Deutsches Museum? 

Heckl – Obtive meu doutorado em Física em 1988, na Universidade Técnica de Munique, onde desde 2009 ocupo a cadeira Oskar von Miller de Ciências da Comunicação. Tive o privilégio de fazer um pós-doutorado na IBM com o vencedor do Nobel de Física [1986] Gerd Binnig e minha habilitação no Instituto Max Planck de Óptica Quântica, com o vencedor do Prêmio Nobel de Física [de 2005] Ted Hänsch. Em 1993, tornei-me professor de Física na Universidade Ludwig Maximilian de Munique [LMU, na sigla em alemão], onde, aliás, tive o prazer de colaborar com físicos brasileiros, sendo inclusive anfitrião de vários pós-doutorandos do Brasil na universidade.

Em 2004, recebi o Prêmio Comunicador da Sociedade Alemã de Financiamento à Pesquisa e o Prêmio Europeu Descartes de Comunicação da Ciência para o Público. Nessa trajetória, bastante ligada à ciência, fui eleito diretor-geral do Deutsches Museum, o maior museu de ciência e tecnologia na Europa e o museu mais visitado da Alemanha.

Em 2013, o senhor lançou na Alemanha um livro sobre a reutilização e a recuperação de produtos como forma de conscientizar e sensibilizar o público, em especial os mais jovens, em relação ao consumismo e ao esgotamento dos recursos do planeta. 

Heckl – Escrevi um livro sobre a “cultura da reparação” [“Die Kultur der Reparatur” é o título original em alemão], que mostra as atividades do nosso museu em cursos sobre a importância de se consertar produtos e estender sua vida útil, voltados ao público infantil, e os problemas decorrentes do consumo em grande escala dos recursos naturais. Estamos apenas começando a abordar essas questões na nossa comunicação no Deutsches Museum.

O tema será discutido também em nossa próxima grande exposição, sobre o período Antropoceno, ou seja, sobre como a ação humana transformou o planeta, que mostra a necessidade cada vez maior de as pessoas aprenderem a viver com base na sustentabilidade, reciclagem e reparação.

O conceito de controvérsia – segundo o qual a ciência não é feita de verdades, mas de paradigmas, que podem ser rebatidos ou suplantados – ou a questão da obsolescência programada ocupam qual espaço dentro da comunicação da ciência? 

Heckl – Obsolescência programada de produtos, bem como o movimento “faça você mesmo” e a economia compartilhada são temas presentes no cotidiano das pessoas e em sua relação com bens de consumo – por isso também são descritos em meu livro. Por exemplo, eletrodomésticos considerados velhos podem ser reparados inúmeras vezes e serem usados novamente. Isso, que era perfeitamente normal há algumas décadas, deixou de sê-lo em virtude do uso de novos materiais e do consequente barateamento dos produtos, o que tornou a cultura de fabricar ou reparar algo por conta própria cada vez menos comum.

No entanto, há atualmente um novo olhar sobre o significado de ser consumidor e proprietário de produtos que, ao serem reparados, continuam nos mantendo satisfeitos. Na verdade, a vida cotidiana das coisas resulta de ideias que apresentam um custo e interferem na autonomia do consumidor, no meio ambiente e na conservação dos recursos naturais.

As pessoas devem compreender que o crescimento econômico e o aumento da produção industrial, pura e simplesmente, não são a solução. É preciso haver equilíbrio entre os recursos e as reais necessidades de produção. E nessa equação, a necessidade de consertar bens e produtos é cada vez maior.

Existe público interessado em rever seus valores, aberto a essa discussão? 

Heckl – Sim. Na Alemanha já foram vendidas 25 mil cópias do livro, que será lançado agora na Coreia do Sul. São países com economias fortes, mas bastante distintos entre si. Temos a intenção de lançar o livro também em países da América Latina, pois a cultura da reparação de bens, objetos e produtos de consumo ganha cada vez mais espaço em lugares nos quais haja consciência ambiental e sensibilidade para equilibrar crescimento com sustentabilidade.

E a cultura da ciência, do conhecimento, tem cada vez mais espaço nas sociedades, independentemente do nível de desenvolvimento econômico dos países. Para essa cultura ganhar força, porém, a divulgação do conhecimento, feita em museus de ciência ou por meio de outras iniciativas, é cada vez mais importante. Por isso, o papel do museu não é apenas o de preservar a história, mas de despertar a capacidade humana de transformar e de preservar, com base naquilo que já se conhece.