Mudança do clima ameaça vidas nas áreas mais biodiversas da Terra

Alta da temperatura global coloca em risco metade das espécies de plantas e animais de importantes regiões naturais do mundo

São Paulo – As regiões mais ricas em biodiversidade do mundo, como a Amazônia e Galápagos, podem perder mais de 50% de suas espécies animais e mais de 60% das espécies de plantas nas próximas oito décadas, se os países não se comprometerem seriamente a reduzir suas emissões de gases causadores do efeito estufa.

A projeção preocupante consta em um estudo histórico publicado hoje na revista científica Climate Change e realizado pelas universidades de East Anglia (Reino Unido), James Cook (Austrália) e pelo grupo ambientalista WWF.

O relatório “A Vida Selvagem em um Mundo Cada Vez mais Quente” analisou o impacto das mudanças climáticas sobre quase 80 mil espécies de plantas e animais de 35 áreas consideradas prioritárias para a conservação no mundo.

Foram considerados três diferentes níveis de aquecimento: menos de 2 graus Celsius (o limite máximo previsto no acordo de Paris de 2015), 3.2 ºC (o aumento provável dado os compromissos nacionais existentes) e 4.5ºC (o resultado previsto se as tendências das emissões permanecerem inalterados).

Segundo o relatório, as chamadas florestas do Miombo, que abrigam os cachorros selvagens africanos, o sudoeste da Austrália e as florestas amazônicas das Guianas são as áreas mais ameaçadas.

Cachorros-selvagens africanos. Cachorros-selvagens africanos.

Cachorros-selvagens africanos. (Martin Harvey / WFF/Divulgação)

Se houver um aumento médio global da temperatura de 4,5°C, os climas nessas áreas deverão se tornar inadequados para muitas plantas e animais que atualmente vivem nelas. Os resultados pintam um quadro apocalíptico.

Até 90% dos anfíbios, 86% das aves e 80% dos mamíferos poderiam ser extintos localmente nas florestas de Miombo, na África do Sul. A Amazônia pode perder 69% das suas espécies de plantas. No sudoeste da Austrália, 89% dos anfíbios podem se tornar extintos. Em Madagascar, mais de 60% de todas as espécies correm risco de extinção.

Além disso, o aumento das temperaturas médias e a menor precipitação podem se tornar o “novo normal” de acordo com o relatório, com chuvas significativamente menores no Mediterrâneo, Madagascar e no Cerrado-Pantanal.

Orquídea, Brasil.

Orquídea, Brasil. (Juan Pratiginestos/WWF/Divulgação)

Os efeitos potenciais dessa nova “normalidade” climática podem mudar as condições ambientais para muitos espécies, aumentando por exemplo a pressão sobre o abastecimento de água dos elefantes africanos (que precisam beber de 150 a 300 litros de água por dia), e colocando mais de 90% das áreas de reprodução dos tigres de Sundarbans, um mangue arbóreo formado no delta dos rios Ganges, Bramaputra e Meghna na Baía de Bengala, sob risco de submergirem frente à alta do nível do mar.

Segundo os pesquisadores, os compromissos do Acordo de Paris, feitos por países, reduzem o nível esperado de aquecimento global de 4,5 °C para cerca de 3°C, o que também reduz os impactos sobre a fauna e a flora mundial. Porém, limitar o aquecimento a 2 ºC  reserva melhores chances de adaptação aos animais e plantas, e mais ainda se o mundo se empenhar para limitar o aquecimento a 1,5 °C.

O estudo pondera que se as espécies conseguirem migrar para regiões mais propícias, o risco de extinção local diminui, porém a maioria das plantas, anfíbios e répteis, como orquídeas, sapos e lagartos não conseguem se dispersar no ritmo necessário para acompanhar as mudanças em curso. Ou seja, a melhor maneira de proteger contra a perda de espécies é unir esforços para limita o aumento da temperatura global ao nível mais baixo possível.